A transição para a segunda parte do diálogo opera uma inversão entre a exibição dramática da ignorância e a investigação dialética da virtude como saber.
A primeira metade da obra define a identidade de Meno como o arquétipo da não-virtude, indissociável de sua incapacidade de apreender totalidades.
A tese de que a virtude é conhecimento, discutida formalmente na sequência, encontra seu correlato prático na demonstração de que a ausência de virtude provém da cegueira intelectual.
A unidade do diálogo repousa na simetria entre o que é encenado através do caráter dos interlocutores e o que é enunciado proposicionalmente por Socrates.
O exame da hipótese de que a virtude é conhecimento resulta em um impasse provisório sobre a possibilidade de sua transmissão por meio do ensino.
Socrates adota o método hipotético, inspirado na geometria, para investigar se a natureza da virtude permite que ela seja ensinada.
A identificação da virtude com o conhecimento baseia-se na premissa de que apenas o que é guiado pela inteligência pode ser verdadeiramente vantajoso e bom.
A conclusão de que a virtude deve ser ensinável é imediatamente confrontada pela inexistência empírica de mestres, sejam eles sofistas ou cidadãos ilustres de Atenas.
“Visto que a virtude é algo bom, ela é vantajosa; mas para que algo seja vantajoso, deve ser usado corretamente, ou seja, com conhecimento; portanto, a virtude é conhecimento, seja no todo ou em parte.”
A entrada de Anytus introduz uma nova dimensão ao problema da mediação, contrastando a opinião sobre o todo com o apego de Meno às partes.
Anytus personifica a adesão incondicional às tradições da cidade e o desprezo dogmático pelos sofistas, mesmo sem possuir experiência direta com eles.
Enquanto Meno se perde na multiplicidade dos casos particulares sem atingir a unidade, Anytus professa um conhecimento do todo que ignora a complexidade das partes.
Socrates caracteriza Anytus como um mantis (vidente) por sua pretensão de julgar essências sem o crivo da experiência ou da análise dos componentes individuais.
“Você deve ser um vidente, Anytus, pois de que outra forma você saberia sobre eles, julgando pelo que você mesmo me diz, eu não consigo imaginar.”
O conflito entre a ensinabilidade teórica da virtude e a ausência prática de professores revela a insuficiência de uma definição puramente técnica de saber.
A busca por professores entre os grandes homens do passado de Atenas fracassa ao demonstrar que pais virtuosos frequentemente não conseguem transmitir sua excelência aos filhos.
Meno manifesta perplexidade diante da contradição entre os discursos que ora afirmam, ora negam a possibilidade do ensino da virtude, como exemplificado nos versos de Theognis.
A incapacidade de Meno em conciliar as opiniões divergentes reflete sua cegueira para a síntese proposta pelo mito da reminiscência.
“Você vê como ele se contradiz?”
A dialética entre Socrates, Meno e Anytus expõe a necessidade de um conhecimento que transcenda a mera técnica (techne) e a opinião herdada.
O diálogo sugere que se a virtude for conhecimento, trata-se de um saber de ordem distinta daquele possuído por artesãos como o sapateiro.
A mediação entre o todo (defendido por Anytus) e as partes (colecionadas por Meno) só é possível através da recordação de uma verdade que a alma já habita.
A paralisia da investigação em Meno e o dogmatismo em Anytus servem como obstáculos que a anamnesis visa superar ao reintegrar o saber na interioridade do sujeito.