Hipótales é o típico amante cuja paixão não é correspondida (203a-207d). Seu amor não correspondido por Lísis serve de pretexto para a discussão sobre a philía abordada neste diálogo. A tradução de philía por “amizade” refere-se apenas a um único aspecto dessa relação privilegiada que se estabelece entre dois seres: laços familiares, relações amorosas, laços de amizade, afeição por animais, apego a um objeto e até mesmo a atração mútua dos elementos na física antiga. Todos esses significados permanecem em segundo plano na discussão.
Hipótales, acompanhado por Ctesipo, pede a Sócrates que se dirija a Lísis para poder conversar com ele. É assim que Lísis e seu melhor amigo, Menexeno, tornam-se os principais interlocutores de Sócrates. Os laços de amizade que os unem deveriam permitir-lhes explicar a Sócrates o que está na base de tal relação (212a).
Aproveitando a ausência momentânea de Menexeno, Sócrates inicia a conversa com Lísis sobre as relações entre amizade (philía), sabedoria (sophía) e utilidade (khrēsis). Após uma primeira troca de ideias sobre as relações entre pais e filhos, que sem dúvida visa um objetivo apologético — livrar Sócrates da acusação de corromper os jovens —, Sócrates pode direcionar a análise para a amizade.
Sua abordagem compreende cinco etapas. Inicialmente (216c-218c), Sócrates questiona-se sobre o sujeito e o objeto da amizade, e sobre o que a produz. Visto que o homem não pode buscar o mal, o bem deve ser o objeto da amizade. Se, por outro lado, os homens são ou bons ou maus, ou nem bons nem maus, e se nem os semelhantes nem os opostos podem manter relações de amizade, segue-se que somente aqueles que não são nem bons nem maus podem ser amigos. Por fim, é devido à presença de um mal neles que aqueles que não são nem bons nem maus aspiram ao bem.
Admitindo isso, é preciso reconhecer, em um segundo momento, que o bem é o objetivo da amizade (218c-219b). Mas o bem ao qual se aspira é múltiplo e, por isso, convém determinar se existe uma hierarquia entre os bens. Se for esse o caso, para evitar uma regressão ad infinitum, é preciso, em uma terceira etapa, descobrir um primeiro objeto de amor (prọton phílon), um objeto amado por si mesmo e por nada mais. Esse primeiro objeto de amor é o bem (219b-220b) que, mesmo que isso não esteja explícito no diálogo, deve ser identificado com a felicidade, cuja condição é o conhecimento do bem e do mal. Assim se preserva a unidade de um bem (219d, 220b e d) que não é nem fragmentado nem disperso como o de Aristóteles. O prọton phílon é, portanto, o objeto último do amor, aquele que nos faz amar todos os outros bens.
Sócrates anteriormente considerava o mal como a causa da amizade; ele contesta, em um quarto momento, essa posição e substitui o mal pelo desejo (220c-221d). Em um mundo livre do mal, os homens continuariam, de fato, a desejar o bem; portanto, é o desejo que deve ser considerado como a causa primeira da amizade. O desejo resulta de uma falta, de uma lacuna em relação ao bem. Mas ainda é preciso estar consciente disso. Quando Sócrates, no âmbito da refutação, leva um jovem a reconhecer sua ignorância, ele desperta nele o desejo de saber e a aspiração ao bem que Sócrates encarna aos olhos do jovem. Ora, fiel à sua declaração de ignorância, Sócrates não pode consentir nesse desejo, sob pena de desviá-lo de seu verdadeiro objetivo, o saber e o bem. É dessa situação paradoxal que Alcibiades dá testemunho no final do Banquete.
Na última etapa do diálogo (221e-222e), a discussão toma um rumo equivocado que levaria a um impasse se não fosse reorientada. O amor, a amizade e o desejo têm por objeto uma afinidade, uma semelhança natural, entre aquele que deseja ou ama e o objeto de seu desejo ou de seu amor. Mas é preciso reconhecer que somente o bem é comum a todos os homens. Como escritores, filósofos e psicanalistas não cessam de repetir, o amor reduzido à paixão de dois seres um pelo outro está condenado à destruição; é necessário um terceiro termo, objeto de seu desejo comum, para que eles estabeleçam uma relação positiva. É uma necessidade desse tipo que o Lysis coloca em evidência.
Embora provavelmente anterior ao Carmides, o Lísis apresenta, no entanto, traços comuns em sua estrutura e ambientação[1]. Além disso, em termos de conteúdo, o Lísis se aproxima de um diálogo da fase madura de Platão, o Banquete. Assim como o Laques ou o Eutifrão, o Lisis analisa o significado de uma palavra, em busca de algo que seja característico dela e que a defina. Mas, como outros diálogos desse primeiro período, o Lisis conclui sem que tenhamos conseguido precisar, após várias tentativas, o quadro concreto no qual situar o tema do diálogo: a amizade[2]. Esse fracasso dialético revela, no entanto, a riqueza das abordagens e põe em evidência, mais uma vez, o caráter aberto e criador da filosofia platônica. Não saber, no final, em que nos basear sobre a amizade é deixar que o mundo concreto da experiência e da vida colida com seu reflexo, com o universo abstrato da linguagem. Essa oposição estabelece uma situação privilegiada nos primórdios da filosofia platônica, que não se repetirá em nenhum momento da filosofia posterior.
Pois as dificuldades para definir conceitualmente essas palavras — valor, amizade, beleza, sensatez, justiça, etc. — provêm, precisamente, do fato de que a realidade transborda a imagem que a linguagem conseguiu sintetizar. Pensar é, portanto, irradiar sobre um termo ou um problema as perspectivas de uma história individual, ou então fazer incidir, no texto de um termo, a multiplicidade de contextos com os quais ele foi se entrelaçando e que só são aludidos na absoluta solidão da palavra.
No diálogo, questiona-se o que é a amizade, o que é ser amigo. Essa pergunta foi provocada pela presença, diante de Sócrates, de quatro jovens atenienses — Lisis, Menexeno, Hipótales e Ctesipo — que o incentivam a dialogar com eles na atmosfera bulliciosa da palestra que Platão vai descrevendo com traços magistrais: o enamoramento de Hipótales, a curiosidade de Lisis, a ausência de Menéxeno, a «euforia» da discussão, a indelicadeza dos pedagogos que, com seu «grego ruim», repreendem aqueles que querem ficar. E, no final, aquele leve traço descritivo com o qual o tempo concreto irrompe na filosofia: «… chamavam-nos, mandando-os para casa. Já havia caído a tarde».
Mas o que confere ao Lisis sua excepcional importância na literatura e na filosofia gregas é seu argumento, o conceito de amizade. A história da philía é, portanto, a história de uma parte importante das relações humanas entre os gregos. O termo philon significava, a princípio, aquilo a que se tinha mais apego, o próprio corpo, a própria vida. Logo, porém, esse círculo do eu se expande para abranger bens externos e significar, além disso, a consanguinidade. Desse âmbito familiar, com a democracia, surge um tipo de escolha mais livre: amigos são aqueles cujo vínculo já não é o parentesco, mas a camaradagem, surgida, em parte, em uma comunidade militar. Xenofonte, por exemplo, fala de philoi referindo-se a soldados mercenários. Há, portanto, interesses de companheirismo, uma comunidade de objetivos que organiza a livre escolha dos indivíduos. Ao mesmo tempo, uma forma privada de relações amigáveis vai substituindo o conceito coletivo de amizade.
Esse tipo de relação, com o qual se estabeleciam outros laços diferentes dos do clã primitivo, implicava, como é lógico, uma certa forma de utilidade. O povo grego muitas vezes identificava amizade e utilidade. Seria necessária a reflexão socrático-platônica para conferir à philía uma profunda dimensão ética. A excepcionalidade de Lisis reside, precisamente, em ser o primeiro documento literário no qual se realiza uma investigação sobre o amor e a amizade, na qual se elaboram e superam algumas das ideias tradicionais sobre esses conceitos.
O Lisis começa com um prelúdio engenhoso no qual se critica a amizade baseada na presunção e na posse de bens. A partir dessa ideia tradicional de amizade como utilidade, a amizade vai se projetando para um novo horizonte. Três estágios diferentes e complementares se configuram nessa ascensão rumo ao conhecimento da amizade. O primeiro (212b-213c) inicia-se com uma abordagem subjetiva: quem é amigo de quem? Aquele que ama ou o amado? Ao final dessa discussão, que termina sem resposta, Sócrates justifica-se, pois talvez não tenha procurado bem (213d).
Sócrates deixa de conversar com Menéxeno e toma Lisis como interlocutor. Esta segunda etapa consiste na busca de um princípio explicativo da amizade (213d-216b). Partindo da explicação dos primeiros filósofos da natureza, que haviam estabelecido a atração do semelhante pelo semelhante, Sócrates levanta a questão de se essa afinidade não deveria ser buscada em algo mais profundo, como a bondade.
O terceiro momento da investigação, no qual ela atinge sua maior intensidade, estrutura-se em dois planos distintos. O primeiro deles (216c-220e) configura-se em torno do conceito de finalidade e do prôton philon, ou amor originário e primeiro. A bibliografia sobre Platão tem discutido abundantemente o caráter «ideal» desse amor e sua distinção da próte philía aristotélica, que não alcança, por meio do eros, um bem metafísico superior, mas sim a experiência concreta do outro. (Cf. Ética Endêmica 1240a; Ética Nicomáquica 1155b, 1159a, etc.).
O final do diálogo (221a-222e), em segundo plano, caracteriza-se pela irrupção de vários temas — o desejo, o eros, a connaturalidade — que levam a questionar se Platão já não estaria situando sua análise no domínio do eros do Banquete.