A boa vida é uma vida de prazer? Estranha pergunta vinda de Platão, que nunca escondeu sua relutância em relação aos prazeres, especialmente em Gorgias. A essa pergunta, Filebo, que deve refletir um debate então em curso na Academia, traz uma resposta inesperada: para quem sabe reconhecer a medida e aplicá-la, nenhum prazer é proibido.
Em que consiste a boa vida? Essa é a questão com que se abre o diálogo. São apresentadas duas respostas, que se excluem mutuamente: o bem reside no prazer (hēdonḗ) ou na reflexão (phrónēsis). É então que surge uma terceira possibilidade: o bem é o resultado de uma mistura cujos ingredientes são o prazer e a reflexão. Essa posição envolve os cinco elementos a seguir: a mistura em si; seus dois ingredientes, que são o limite, que corresponde à reflexão, e o ilimitado, que corresponde ao prazer, que pode ser aumentado ou diminuído; sua causa, que é o intelecto; e um misterioso quinto elemento, cuja função é dissociar, e que poderia muito bem ser a “necessidade” mencionada no Timeu. Ainda é necessário analisar em suas múltiplas formas esses dois elementos que são o prazer e a reflexão.
O prazer pode ser definido de maneira geral como a resposta a uma falta cuja dor é o indício. A partir daí, podemos distinguir entre os prazeres fisiológicos que interessam apenas ao corpo, por exemplo, os prazeres relacionados à comida, ao sexo, etc., os prazeres antecipados que interessam apenas à alma e, finalmente, aqueles que interessam ao corpo e à alma, por exemplo, a esperança de um prazer físico. O caso dos prazeres da alma é complexo, pois podemos distinguir, ao lado dos prazeres em que intervém a dor e que estão ligados a sentimentos como a raiva, o medo, o arrependimento, o luto, o amor, a inveja, o ciúme, etc., também se podem discernir prazeres puros, aqueles ligados à beleza das formas e dos sons, ou à qualidade dos cheiros e sabores, porque o gozo não está associado a nenhuma falta. Mas como o prazer não pode ser identificado com o bem, convém questionar a reflexão que se encontra do lado do intelecto, ou seja, das técnicas e das ciências, e cujo ápice é a dialética. É então que se torna possível falar da vida boa resultante de uma mistura de prazer e reflexão. Para ser implementada de forma adequada, essa mistura deve exigir, como é o caso de toda técnica, a intervenção de uma ciência da medida que pertence ao intelecto. O diálogo termina com uma classificação dos bens:
1) o bem ou a medida;
2) a proporção ou a beleza;
3) o intelecto ou a reflexão;
4) a ciência e a técnica;
5) o prazer.
Nenhum elemento é excluído da vida boa, desde que intervenha a medida, que se pode pensar que vem da realidade verdadeira, do inteligível.
O Filebo não é bem escrito nem bem estruturado; suas diversas partes não respeitam as proporções corretas, as explicações muitas vezes se esgotam sem chegar a uma conclusão e as argumentações frequentemente ficam incompletas. No entanto, continua sendo um diálogo cativante, principalmente por seu tema, pois Platão não aparece nele como aquele desprezador do “mundo” que se gostou de denunciar ao longo dos séculos. Sem deixar de dar o primeiro lugar à alma e, na alma, ao intelecto, o filósofo mostra-se atento a este corpo que é habitado temporariamente por uma alma, a qual, de uma forma ou de outra, é modificada por essa coabitação. Os neoplatônicos, por sua vez, considerarão esse diálogo como um dos pontos altos do platonismo, porque ele evoca o Limitado e o Ilimitado que, situando-se logo abaixo do Um-Bem, constituem os dois princípios da mistura da qual resulta todo o resto.
A estrutura dramática e a indeterminação temporal do diálogo
Linguagem, estilo e a função dos interlocutores
A definição da vida boa e os gêneros do ser
Classificação, pureza e hierarquia dos bens