Inovações estilísticas e composicionais no “
Filebo” revelam um estágio avançado no pensamento abstrato de
Platão, marcado pela subordinação do elemento dramático e poético ao especulativo e filosófico.
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Observa-se uma diminuição da habilidade artística em comparação com diálogos anteriores, manifestada pela falta de caracterização das personagens, um desenvolvimento laborioso da dialógica e uma confusão e incompletude no desenho geral.
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O estilo apresenta passagens altamente elaboradas em vez da graça difusa, juntamente com inserções de gracejos considerados de mau gosto e um artifício ornamentado, contrastando com a fluidez do humor presente em obras precedentes.
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A conexão entre os argumentos é frequentemente abrupta e desarmoniosa, com diversos pontos que requerem esclarecimento adicional, refletindo uma semelhança com as “
Leis” em certos defeitos de estilo.
A estruturação metafísica do diálogo é estabelecida por uma nova classificação quádrupla da existência, necessária para determinar os méritos comparativos do prazer e da sabedoria em relação ao bem.
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A primeira classe é a do infinito ou indefinido, caracterizada pelos termos “mais” e “menos” e por uma ausência de medida, onde o prazer é situado.
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A segunda classe é a do finito ou limitado, que compreende todas as coisas que possuem número e quantidade, impondo lei ao infinito.
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A terceira classe é a união do finito e do infinito, na qual o finito confere ordem e medida, gerando essências como saúde, harmonia e beleza, sendo esta a classe onde se localiza a vida mista de prazer e sabedoria.
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A quarta e mais alta classe é a causa da união entre o finito e o infinito, identificada com a inteligência ou mente, que rege o universo, estando o pensamento ou a razão aparentado com esta natureza causal.
A análise das formas de prazer é conduzida para distingui-las em classes puras e impuras, visando determinar sua participação no bem e na verdade.
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Os prazeres mistos são subdivididos em três categorias: aqueles com prazeres e dores corporais simultâneos (como fome e comer); aqueles com dor no corpo e prazer na mente (expectativa); e aqueles em que ambos, prazer e dor, são exclusivamente mentais.
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Os prazeres puros ou não misturados são identificados como aqueles derivados de belezas de forma, cor, som e cheiro, além dos provenientes da aquisição de conhecimento, sendo desprovidos de dor antecedente ou consequente.
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A noção de prazer falso é introduzida por meio de sua associação com opinião falsa, originada por ilusões de distância ou relação, e por meio de estados mistos onde a aparência de prazer ou dor não corresponde à realidade neutra subjacente.
A classificação hierárquica dos conhecimentos e ciências é estabelecida, distinguindo entre tipos puros e aplicados para situar a sabedoria na escala de bens.
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As artes criativas ou produtivas são divididas entre as que operam por adivinhação e as que utilizam número e medida, sendo estas últimas consideradas mais exatas e puras.
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A aritmética, a mensuração e a pesagem, quando consideradas em sua natureza abstrata e teórica pelos filósofos, são consideradas mais puras do que em suas aplicações práticas, como na carpintaria ou na construção.
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A ciência mais verdadeira e pura é a dialética, que lida com o ser eterno e imutável, sendo a razão e a sabedoria as que mais se aproximam dessa verdade suprema, superando a retórica e outras artes que se ocupam do mundo da opinião.
A composição da vida perfeita e a determinação da escala de bens são realizadas pela combinação seletiva dos elementos previamente analisados, subordinando prazer e sabedoria a critérios superiores.
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A vida mista é composta admitindo-se as ciências puras, as impuras (por necessidade da vida humana), os prazeres puros e os prazeres necessários, excluindo-se os prazeres impuros e os excessos da intemperança.
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Os três critérios para avaliar a bondade são a beleza, a simetria e a verdade, sendo demonstrado que a sabedoria possui maior participação em todos eles do que o prazer.
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A escala definitiva de bens coloca em primeiro lugar a medida; em segundo, a simetria e o belo; em terceiro, a razão e a sabedoria; em quarto, as ciências, artes e opiniões verdadeiras; e em quinto, os prazeres isentos de dor, sendo este o lugar ocupado pelo prazer na hierarquia do bem.
A relação do “
Filebo” com outros diálogos e com o desenvolvimento da filosofia de
Platão é marcada por uma transição conceitual e uma crescente sofisticação em temas centrais.
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Observa-se a omissão da doutrina da reminiscência e uma abordagem cética em relação à teoria das ideias, tratando das dificuldades do “um e muitos” sem oferecer respostas definitivas, similar à crítica presente no “
Parmênides”.
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Há uma antecipação de conceitos-chave como a classificação das ciências em puras e impuras e a distinção entre prazeres mistos e não misturados, representando um avanço sobre discussões análogas na “
República” e no “
Górgias”.
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O diálogo manifesta um afastamento do elemento místico e amoroso presente em obras como o “
Fedro” e o “
Banquete”, focando em um desenvolvimento da razão não perturbado pelas emoções, característico do período tardio de
Platão.