PLATONE. Il senso della vita è la ricerca: Apologia di Socrate, Critone, Fedone. Milano: Bompiani, 2022. E-book.
1. Platão configura-se como um repórter extraordinário, a ponto de inventar um gênero literário autônomo para narrar o presente, conferindo maior força, precisão, profundidade e perspectiva às suas representações, tendo sido perseguido pela História, ao contrário do cronista comum, no episódio da morte de seu mais caro mestre, Sócrates, execução pública ocorrida na pólis de Atenas em 399 a.C. mediante cicuta, da qual os três diálogos seguintes constituem pontos de entrada diversos e complementares.
2. Sócrates figura como protagonista incontestado dos diálogos platônicos, empenhando-se em ser claro e direto por meio de perguntas e símiles explicativos, sendo a própria forma dialógica um modo de respeitar a vontade do mestre, que jamais escreveu palavra alguma e sempre exerceu a filosofia como conversa esporádica nas ruas, permitindo que Platão, tendo escutado por horas a voz de Sócrates, a transferisse para o papel na Apologia de Sócrates, no Críton e no Fédon, obras que compõem um cuidadoso relato da morte de Sócrates merecedor de exame rápido e distintivo.
3. A Apologia de Sócrates apresenta-se como espécie de transcrição do discurso de defesa pronunciado por Sócrates perante o tribunal, após ser acusado de corromper os jovens, não crer nos deuses e introduzir novas divindades, figurando seus acusadores Ânito, Meleto e Lícon apenas esboçados dentro da própria arguição do acusado, que expõe suas razões procurando torná-las ridículas aos olhos da corte, não convencendo o tribunal, mas convencendo plenamente o leitor.
4. O Críton apresenta um crescendo dramático em que, confirmada a condenação pelo tribunal, a execução aguarda o retorno da nau sagrada de Delos, período que o discípulo Críton pretende aproveitar para persuadir Sócrates a subtrair-se à pena mediante exílio voluntário, resposta que Sócrates nega ao fazer falar em seu lugar as boas leis da cidade, considerando covarde defender as leis durante toda a vida e depois desrespeitá-las quando lhe são desfavoráveis, decidindo enfrentar a morte sem subterfúgios.
5. O Fédon constitui-se como diálogo repleto de personagens, surgindo do pedido de Equécrates a Fédon para que lhe relate as últimas horas da vida de Sócrates, tendo como núcleo da conversa a antiga e importante doutrina da metempsicose, ou reincarnação das almas, sustentada pelo pressuposto simples da imortalidade da alma.
6. O verdadeiro ofício daqueles que praticam a filosofia de modo reto revela-se como o de morrer e estar morto, não fazendo sentido lamentar a chegada da morte, eis o segredo da coragem de Sócrates, expresso por Platão na imagem poética dos cisnes que, sabendo que a morte os tornará melhores, entoam ao morrer seu canto mais belo, um canto de alegria, atitude que Sócrates igualmente adota.
7. Os ouvidos contemporâneos revelam-se quase surdos ao apelo do martírio, mas reconhecem ainda a música sombria do Estado que erra, fenômeno capaz de ocorrer sempre, o que mantém atual a crônica platônica.