Píndaro
SIGELMAN, Asya C. Pindar’s poetics of immortality. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
A canção como meio de imortalização no pensamento grego arcaico
A canção é concebida como instância que confere permanência àquilo que, por natureza, é transitório.
O louvor e a censura participam igualmente desse poder de tornar memorável, fixando ações humanas no horizonte do porvir.
A referência homérica à condição de Helena e Páris estabelece que a desgraça humana pode tornar-se objeto de canto e, por isso, sobreviver no tempo.
A imortalização pela canção não é apresentada como prêmio moral, mas como efeito estrutural do discurso poético.
Centralidade do tema da imortalidade nas odes epinícias de Píndaro
As odes de vitória retomam de modo insistente a ideia de que as ações belas dos homens são preservadas por palavras e canções.
A formulação pindárica destaca que, após a morte, não são os corpos nem os feitos em si que subsistem, mas sua configuração poética.
O motivo da preservação pelas palavras é comum à poesia antiga, mas adquire intensidade singular no contexto epinício.
A natureza ocasional da lírica grega e sua intensificação no epinício
A lírica arcaica é definida como poesia composta para ocasiões específicas de caráter ritual, cívico ou privado.
O epinício radicaliza essa ocasionalidade ao celebrar uma vitória particular, de um atleta determinado, em um momento preciso.
A ancoragem no aqui e agora torna o epinício especialmente vulnerável à caducidade do instante que celebra.
A obra pindárica intensifica ainda mais essa limitação temporal ao concentrar-se não no processo, mas no ápice momentâneo da glória.
A glória como instante evanescente e perigoso
A vitória atlética é descrita como o ponto máximo de realização acessível a um mortal.
A permanência nesse ápice é impossível, pois o excesso gera saciedade, arrogância e inveja alheia.
A glória é caracterizada como lampejo breve em que o homem se eleva momentaneamente ao nível do divino.
O objetivo da ode é capturar e preservar precisamente esse instante que, por si mesmo, não pode durar.
Problema da preservação do instante e recusa da solução linear
A explicação imediata da imortalização pela sobrevivência material da canção é apresentada como insuficiente.
A inscrição ou transmissão textual garante apenas uma duração prolongada, mas ainda finita e sujeita à destruição.
A longa permanência no tempo é interpretada como forma de existência mortal, inscrita numa linha temporal contínua.
A questão decisiva desloca-se, assim, da duração externa do texto para o modo de presença do instante dentro da própria canção.
Distinção entre duração temporal e imortalidade propriamente dita
A imortalidade não é concebida como prolongamento indefinido da existência ao longo do tempo.
O modelo divino de existência situa-se fora do fluxo temporal, numa posição que abarca simultaneamente passado, presente e futuro.
Para os imortais, os tempos não se sucedem, mas coexistem numa unidade sinótica.
A imortalidade implica, portanto, uma forma de visão e de ser que transcende a cronologia linear.
O acesso humano à visão sinótica do tempo
Apenas raros mortais têm acesso momentâneo à perspectiva divina.
Profetas e poetas são identificados como figuras capazes de vislumbrar a coexistência dos tempos.
A poesia pindárica é interpretada como tentativa de captar e expressar essa visão divina-propética.
O canto epinício torna-se o lugar em que o instante humano é inserido numa ordem temporal não linear.
A persona profética de Píndaro
A autodefinição de Píndaro como profeta é atestada em fragmentos e discutida pela tradição crítica.
Estudos recentes defendem que o caráter profético se manifesta de modo mais abrangente no conjunto das odes de vitória.
A presença recorrente de figuras oraculares e de cumprimentos de antigas profecias reforça essa leitura.
Eventos do passado são apresentados como realizações necessárias de anúncios prévios, revelando uma lógica de destino.
Problematização da noção de profecia como previsão probabilística
Interpretações que reduzem a profecia pindárica a cálculo baseado em experiência são consideradas insatisfatórias.
Tal leitura esvazia o caráter propriamente divino da inspiração poética.
A profecia não é definida como previsão exata de eventos futuros, mas como acesso a uma ordem temporal distinta.
Dupla concepção de tempo nas odes
O tempo humano é descrito como linear, marcado pela ignorância do futuro e pelo apagamento do passado.
Os mortais são caracterizados como seres de um dia, submetidos à instabilidade do devir.
O poeta, enquanto mortal, compartilha dessa limitação.
Contudo, a inspiração divina permite-lhe transcender temporariamente essa condição.
A visão profética como experiência sinótica
A profecia é definida como visão simultânea do que foi, do que é e do que será.
Exemplos épicos e trágicos ilustram essa concepção de conhecimento divino.
A especificidade de Píndaro reside em não apenas afirmar tal visão, mas em compartilhá-la poeticamente.
O leitor ou ouvinte é introduzido no interior do processo visionário.
Consequências poéticas da visão sinótica
A estrutura complexa das odes deriva da tentativa de expressar a coexistência temporal.
Imagens e construções narrativas refletem a fusão de passado, presente e futuro.
A linguagem poética torna-se o meio de tornar visível o trabalho contínuo dessa síntese temporal.
A canção constrói incessantemente a unidade temporal que constitui sua própria imortalidade.
Imortalidade intrapoética da canção pindárica
A imortalidade não depende das condições externas de recepção ou transmissão.
Cada nova leitura ou audição reativa a síntese temporal no interior da canção.
O canto permanece sempre presente porque o trabalho poético de unificação dos tempos nunca se encerra.
A força estética singular de Píndaro deriva da exposição contínua desse labor interno.
A canção como mecanismo visível de síntese
A obra é comparada a um mecanismo exposto, cujo valor estético reside na visibilidade de seu funcionamento.
Diferentemente de um mecanismo repetitivo, o texto poético é concebido como organismo vivo.
A canção mostra o esforço constante de articular e manter unida a totalidade temporal.
Essa autoexposição do trabalho poético constitui a imagem dominante da poética pindárica.
Posicionamento crítico do estudo
A abordagem proposta distancia-se das tendências dominantes dos estudos pindáricos.
Leituras que buscam a unidade fora do texto, em circunstâncias históricas ou máximas morais, são rejeitadas.
A unidade da ode não é derivada de alegorias biográficas nem de ideias morais subjacentes.
A investigação concentra-se na coerência interna do sistema poético enquanto tal.
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PIZZOLANTE (2017:41-43) – TORNA-TE O QUE ÉS