Neoplatonismo

Fica claro na Vida de Plotino, de Porfírio, que as palavras de seu mestre exigiram uma extensa edição, mas isso não se tornou um obstáculo para considerá-las autênticas de Plotino, e comentários posteriores resultantes das anotações de um aluno podem igualmente ser considerados obra do professor ou de seu anotador; portanto, vários títulos atribuídos a Siriano pela Suda também aparecem na lista das obras de seu aluno Proclo. As palestras de Olimpiodoro parecem resultar principalmente do anotador, cuja fidelidade ao que ouviu é difícil de julgar. PADAR

Remes & Slaveva-Griffin

RHN

  • Consolidação acadêmica do Neoplatonismo como campo de estudos maduro e em expansão acelerada.
    • Publicação de handbooks e obras de referência como rito de passagem que atesta a maturidade da filosofia antiga tardia como disciplina.
    • Transição de uma curiosidade intelectual marginal para a área de pesquisa de crescimento mais rápido no âmbito da filosofia antiga.
    • Reconhecimento do Neoplatonismo como fator de estabilidade e unidade filosófica em um período histórico fragmentado (séculos III-VI d.C.).
  • Três direções principais da pesquisa neoplatônica no século XXI.
    • Investigação das consequências psicológicas, éticas e políticas da metafísica neoplatônica.
      • Superação do estudo puramente ontológico para explorar a interconexão entre metafísica e outras áreas da filosofia.
    • Atenção crescente à compreensão neoplatônica do reino sensível.
      • Reavaliação de temas como filosofia natural e política, antes considerados negligenciados.
      • Deslocamento do foco: da mera descrição da hierarquia ontológica para a compreensão da interconexão sistêmica de todas as partes.
    • Avanço substancial nas interpretações históricas e filosóficas.
      • Tratamento do Neoplatonismo como continuação do legado clássico e helenístico, e não como curiosidade introspectiva.
      • Análise concreta de suas relações com outras escolas filosóficas e religiosas.
      • Abordagem orientada por problemas filosóficos específicos, superando a mera descrição histórica ou exegética.
  • Questões metodológicas sobre o termo “Neoplatonismo” e seu objeto de estudo.
    • Problema da falta de limites cronológicos e doutrinais unificados para a “escola”.
    • Adoção de uma abordagem baseada no conceito wittgensteiniano de “semelhança familiar”.
      • Identificação do movimento através de uma rede complexa de sobreposições e cruzamentos, em vez de uma essência única.
      • Reconhecimento da diversidade de vozes e interpretações dentro do campo como força metodológica.
    • Debate sobre a legitimidade do termo, dada sua origem pejorativa no século XVIII (ex.: Joseph Brucker).
      • Argumentos para a retenção do termo, apesar das críticas (como as de L. P. Gerson).
        • Razão linguística: o significado pejorativo original foi dissipado pelo uso acadêmico contemporâneo.
        • Razão pragmática: termos como “Platonismo” ou “Platonismo tardio” são excessivamente amplos e imprecisos para o objeto específico.
        • Razão interpretativa: é filosoficamente valioso e possível distinguir o Neoplatonismo como um subconjunto específico do Platonismo.
      • Identificação de características nucleares do Platonismo (segundo Gerson) que o Neoplatonismo compartilha e especifica.
  • Característica distintiva: o sistematicismo holístico e a autorreferencialidade do pensamento neoplatônico.
    • Operação dentro de um sistema fechado de princípios inter-relacionados, com forte poder explicativo.
    • Transição nas pesquisas de uma visão estática e fragmentada (as três hipóstases) para uma compreensão dinâmica de processos ontológicos interconectados.
    • Compreensão “animada” da estrutura da realidade como proliferação causal sequencial, do Uno ao reino físico.
      • O Uno como fonte última, além do ser, da qual emana a realidade inteligível paradigmática, que se imprime no nível da alma e do sensível.
    • Implicação metodológica: perspectiva “pan-disciplinar”, e não apenas interdisciplinar.
      • Aplicação do mesmo arcabouço conceitual a todas as ciências e esferas do conhecimento.
      • Dissolução das fronteiras rígidas entre metafísica, psicologia, epistemologia, física, ética e estética em favor de uma abordagem dinâmica e integrada.
  • Dinâmica top-down e bottom-up no sistema e na epistemologia neoplatônica.
    • Explicação da realidade como sequência top-down de processos causais, do princípio hiperinteligível à multiplicidade física.
    • Contraponto epistemológico bottom-up: a ascensão da alma parte do sensível.
      • Em Plotino: as belezas e harmonias sensíveis são porta de entrada para os princípios inteligíveis.
      • Educação progressiva: do concreto ao abstrato, da matemática à dialética.
      • A dialética, uma vez consolidada, reverte sua direção para um estudo iluminado do reino sensível.
    • Ciclo ontológico autocontido: a proliferação top-down requer a introspecção bottom-up para se completar.
      • Tarefa do filósofo: compreender ambos os lados deste ciclo.
  • Neoplatonismo como exegese de Platão e seu lugar na tradição.
    • Refutação da máxima de Whitehead (“filosofia ocidental como série de notas de rodapé a Platão”) como excessivamente redutora.
    • Definição mais precisa: os neoplatônicos são, antes de tudo, exegetas de Platão.
      • Citação da autorreflexão de Plotino (Enn. V.1.8): suas doutrinas não são novas, mas interpretações do que já estava implícito em Platão.
    • Consciência de pertencimento a uma cadeia ininterrupta de autoridade filosófica (de Pitágoras a Platão e além).
    • Tarefa exegética dupla:
      • Formal: estabilização do texto, compreensão do gênero literário, organização curricular.
      • Filosófica: eleição de diálogos “púrpura” para áreas específicas (Parmênides para metafísica, Timeu para física, etc.).
    • Aplicação da tese de John Dillon (sobre Plotino como pensador “aporético”) a todo o movimento neoplatônico.
      • Os neoplatônicos não são meros repetidores sistemáticos, mas intérpretes abertos e problematizadores da tradição platônica.

Nuccio d’Anna

ANNA1988

  • Perspectivas de estudo do Neoplatonismo e seus limites.
    • Perspectiva filosófica: enfatiza a originalidade especulativa, mas arrisca desvalorizar elementos essenciais do movimento.
      • Consequência: supervalorização de Plotino e desconhecimento do valor especulativo de seus sucessores (Amélio, Porfírio, Jâmblico, Proclo, Damáscio, Simplício).
      • Redução dos comentários a Platão e Aristóteles a mera erudição.
    • Perspectiva cultural: contextualiza historicamente e politicamente, mas negligencia as origens espirituais e as implicações doutrinárias mais profundas.
    • Perspectiva histórico-religiosa: proposta como a mais adequada para compreender a essência do movimento.
      • Coloca o Neoplatonismo no contexto religioso do final do Império Romano, do qual “compreendeu” todos os fermentos espirituais.
      • Permite interpretar elementos herméticos, astrológicos e demonológicos presentes nos autores não como particularismos, mas como “momentos” de um desdobramento universal centrado no Uno.
  • Raízes espirituais do Neoplatonismo: o substrato do helenismo tardio.
    • Fio condutor desde a Academia Antiga até Plotino: um elemento espiritual comum que vivifica secretamente o mundo antigo.
    • Manifestações pré-plotinianas:
      • Misticismo dos números em Nicômaco e Moderato, com ressonâncias pitagóricas e órficas.
      • Círculo de Nigídio Figulo e a Basílica Pitagórica de Porta Maggiore em Roma como exemplos de misticismo emergente.
    • Médio-platonismo (século II d.C.): pensadores como Ático, Severo, Plutarco, Albino, Apuleio.
      • Tendência à reavaliação da transcendência e do incorporal.
      • Elaboração da doutrina das hipóstases (Primeiro Deus, Intelecto, Alma do mundo), sob a influência dos Oráculos Caldeus.
      • Início de um sincretismo que interpreta o politeísmo como imagens míticas de um princípio monoteísta.
    • Fértil terreno sincretista: Corpus platônico, Hermetica, Oráculos Caldeus, neopitagorismo, astrologia, teurgia, religiosidade mistérica, teologia estoica.
  • Plotino: momento de elaboração doutrinária da espiritualidade de uma época.
    • Não é o ápice de uma especulação puramente lógica, mas a sistematização das conquistas do pensamento grego numa perspectiva espiritual.
    • Explicitação de um caminho que ascende do intermediário demoníaco à fonte abissal e inefável (o Uno).
    • Tentativa de explicar a unidade do cosmos não como esforço mental, mas como processo que se realiza através da processão criativa (Intelecto e Alma) no mundo da multiplicidade.
    • Papel do homem: qualificar-se em relação ao divino, pela capacidade de ascender aos graus da manifestação divina e contemplar o Bem.
  • Evolução e concreção histórica da doutrina após Plotino.
    • Escola de Roma: Amélio busca verificação na prática religiosa; Porfírio aprofunda a metafísica.
      • Porfírio: reavalia o papel do Intelecto em relação ao Uno; desenvolve teologia solar e ética ascética; torna o Neoplatonismo força vital da religiosidade greco-romana em declínio.
    • Fase “militante”: Jâmblico e a Escola de Síria/Pérgamo.
      • Tentativa de realização histórico-política sob o imperador Juliano: projeto de um império sacral com uma “igreja pagã” baseada na teurgia e na doutrina neoplatônica.
      • Objetivo: reavaliar as bases espirituais do politeísmo tradicional através de uma justificativa metafísica, interpretando os mitos à luz da doutrina do Uno.
      • Resposta ao desafio das religiões supranacionais (Cristianismo, Maniqueísmo) que ofereciam um Fundador divino e um texto sagrado.
  • Conservação e transmissão diante da vitória cristã.
    • Após a morte de Juliano (363), fim das possibilidades políticas. A elite neoplatônica refugia-se no ensino e na transmissão espiritual.
    • Escola de Atene (séculos V-VI): função de salvaguardar o patrimônio tradicional em um mundo cristianizado.
      • Combina alta contemplação com práticas rituais ancestrais (teurgia, invocações).
      • Obra de aprofundamento cultural: comentários a Platão e Aristóteles tratados como escritura “inspirada”, verdadeiro testamento dos valores da espiritualidade clássica.
    • Decreto de Justiniano (529): fechamento oficial da Escola de Atene, símbolo do fim de uma espiritualidade que sobrevivia como uma ilha.
  • Assimilação e conversão pelo Cristianismo.
    • O extenso corpus doutrinário e comentarístico do neoplatonismo tardio é organicamente assimilado pelo Cristianismo.
    • Transmissão através de figuras como o bispo Sinesio, Vitorino, Santo Agostinho, até Boécio.
    • O “centro” espiritual e essencial da civilização greco-romana é assim preservado e perpetuado, para além do esgotamento das formas religiosas pagãs exteriores.
    • O paganismo, radicado numa religiosidade de tipo “mítico” e “visionário”, não tinha mais possibilidade de renovação para as massas. O Neoplatonismo representou sua última e mais elevada sistematização, destinada a uma elite, antes de sua conversão em linfa para uma nova civilização.

Dillon & Lloyd

NPIR

  • Autores e corpus fundamentais do movimento neoplatônico.
    • Plotino (204/5–270 d.C.): fundador reconhecido. Sistema exposto nas Enéadas, editadas por Porfírio.
    • Porfírio (234–c.305 d.C.): discípulo e biógrafo de Plotino. Ampliou e buscou sistematizar a interpretação plotiniana do platonismo. Obras em grande parte fragmentárias.
    • Jâmblico (c.245–325 d.C.): figura central na moldagem do neoplatonismo posterior, tanto filosófico quanto religioso. Sobrevivem-lhe obras como Resposta do Mestre Abamon à Carta de Porfírio a Anebo (Sobre os Mistérios Egípcios) e fragmentos de comentários.
    • Proclo (412–485 d.C.): expoente máximo e sistemático. Sua vasta obra, incluindo os Elementos de Teologia, constitui a expressão mais completa do platonismo antigo. Extremamente influente na Idade Média através do Liber de Causis.
    • Limitações do volume: exclusão de filósofos posteriores a Proclo (Filopono, Olimpiodoro, Simplício, Damáscio), apesar de suas contribuições únicas.
  • O termo “Neoplatonismo” e a autocompreensão dos autores.
    • Termo cunhado no século XIX pela erudição alemã, com conotação de novidade (neo-).
    • Autopercepção dos autores (Plotino, Porfírio, Jâmblico, Proclo): consideravam-se expositores e defensores da filosofia platônica tradicional, não inovadores. A “originalidade” surge mais da exegese do que de um desejo consciente de novidade.
  • As fontes do pensamento neoplatônico: o cânone e a tradição.
    • O Corpus platônico conforme estabelecido por Trasilo (século I d.C.): 9 tetralogias (35 diálogos + 13 Epístolas como uma obra).
      • Diálogos centrais no currículo neoplatônico: Alcebíades I (iniciação), Górgias, Fédon, Crátilo, Teeteto, Sofista, Político, Fedro, Banquete, Filebo, Timeu, Parmênides.
      • Ordem de estudo culminando em Timeu (estrutura do mundo sensível) e Parmênides (estrutura do mundo inteligível).
      • Omissões significativas: Diálogos “socráticos” apreendidos (visão não-desenvolvimentista) e a República (ainda que central, especialmente os livros metafísicos).
    • A doutrina não-escrita de Platão: os neoplatônicos aceitavam o testemunho de Aristóteles e outros sobre ensinamentos orais de Platão sobre princípios últimos, reforçados por passagens como Fedro 274C–277A e a Sétima Carta.
    • Tradição pré-platônica: crença de que a verdade platônica já estava presente em filósofos egípcios, persas, indianos (Plotino), na tradição pitagórica (Jâmblico) e nos mistérios gregos (Proclo). Plato é o maior expositor, não o inventor original.
    • Aristóteles e o Peripatetismo: assimilação crucial.
      • Pressuposto da harmonia fundamental entre Platão (mundo inteligível) e Aristóteles (mundo sensível). As críticas aristotélicas são explicadas ou minimizadas.
      • Introdução formal de Aristóteles no currículo platônico atribuída a Jâmblico.
      • Apropriação de terminologia e conceitos aristotélicos para expressar o platonismo (ex.: uso de energeia (atividade) vs. kinesis (movimento) para descrever o pensamento divino).
  • Exemplos da síntese neoplatônica entre Platão e Aristóteles.
    • Atividade (energeia) vs. Movimento (kinesis): adoção da distinção aristotélica para descrever a atividade imutável do intelecto divino, tornando mais plausível a causalidade do inteligível sobre o sensível.
    • Intelecto (nous) e Alma (psyche): uso da especificação aristotélica de que a imortalidade pertence ao intelecto para esclarecer o compromisso platônico com a imortalidade da alma.
    • Formas imanentes (enula eide): adoção da noção aristotélica de forma imanente (causa formal) como generalização de exemplos platônicos (ex.: “a grandeza em nós” vs. “a Grandeza em si” no Fédon). Isso permite integrar a causalidade formal no sensível e aceitar conceitos como o de matéria (hyle) como legítimos no platonismo.
  • Contexto histórico-religioso: o desafio do Cristianismo.
    • O neoplatonismo desenvolve-se em crescente confronto com a filosofia cristã.
    • Evento simbólico do fim: fechamento da escola de Atenas por Justiniano em 529 d.C., marcando o fim do neoplatonismo “pagão”.
    • Resposta neoplatônica ao desafio cristão:
      • Maior esforço de sistematização e reconciliação interna para apresentar uma frente unida.
      • Intensificação do aspecto soteriológico e integração de elementos teúrgicos (especialmente em Jâmblico) para contrapor a oferta de salvação do Cristianismo.
  • Princípios centrais (core principles) comuns a todos os neoplatônicos.
    • Distinção e hierarquia entre o Sensível e o Inteligível.
      • Não é um dualismo crudo: o mundo sensível possui inteligibilidade, que é explicada pelo mundo inteligível.
      • Prioridade ontológica e explanatória do inteligível: o explanans (ex.: a Grandeza em si) deve existir e pode existir sem o explanandum (a grandeza nos corpos), mas não o inverso.
    • O mundo inteligível é ele próprio uma hierarquia ordenada pela simplicidade.
      • Princípio absolutamente primeiro (o Uno, em Plotino e outros) deve ser absolutamente simples.
      • Ordem do mais simples ao mais complexo: o princípio primeiro emana ou produz níveis subsequentes (Intelecto, Alma) sem se alterar.
      • Apesar de divergências sobre os detalhes desta hierarquia, o princípio da simplicidade primaz é compartilhado.