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Capítulos 1 a 7: Terceira explicação.
Cap. 1. Todos nós temos a noção de um deus que está presente em toda parte e é idêntico em cada um; o bem e o Ser pertencem a cada ser na medida em que ele é um ser.
Cap. 2. É preciso discutir o inteligível utilizando os princípios próprios dos inteligíveis e deixando de lado os corpos.
Cap. 3. A verdadeira unidade permanece em si mesma; são as outras coisas que participam dela tanto quanto podem.
Cap. 4. É o mesmo acreditar em Deus e acreditar que a mesma coisa é idêntica em toda parte; onde quer que a alma esteja presente, o Um e o Intelecto também estão presentes.
Cap. 5. Advertências contra a metáfora do círculo e de seus raios.
Cap. 6. O inteligível é um, múltiplo e ilimitado; são as coisas que se aglomeram em torno dele, e não ele que vem às coisas.
Cap. 7. Não possuímos os inteligíveis: ascendemos até eles e nos tornamos nós mesmos os inteligíveis.
Capítulos 8 a 10: Quarta explicação.
Cap. 8. Participação da matéria nas formas: as formas não estão localmente separadas da matéria; esta, pelo contrário, se aglomera em torno da forma e apreende tudo o que pode.
Cap. 9. A esfera sensível possui apenas uma única causa, uma única vida e uma única alma; sobre a natureza da verdadeira unidade.
Cap. 10. É permanecendo em si mesma que a verdadeira unidade pode estar presente nas outras coisas, que se suspendem a ela; é necessário que o mundo inteligível difira do mundo sensível.
Capítulos 11 e 12: Quinta explicação e exortação final.
Cap. 11. É preciso ter em mente que o inteligível é ilimitado, sem grandeza, eterno e que possui um poder total.
Cap. 12. O inteligível está presente graças ao seu poder ilimitado e imaterial; podemos reencontrar o inteligível ao nos despojarmos do não-ser que se acrescenta a nós.
(I) Todos os homens reconhecem que o Ser único e idêntico está presente em toda a sua totalidade em toda parte: pois todos afirmam instintivamente que Deus está presente em cada um deles, único e idêntico. Se, por outro lado, considerarmos os seres em geral, vemos que todos aspiram à unidade. Ora, essa unidade é o Ser universal; ele está perto de nós, e nós estamos nele. Todos os seres são, portanto, um só, no sentido de que todos estão contidos no Ser único e idêntico, que é o princípio único de sua existência.
(II-III) Para conceber o Ser universal, é preciso extrair da inteligência os princípios da demonstração que se deseja apresentar: pois toda demonstração racional deve partir da definição da essência. Ao aplicar aqui esse método, vemos que o Ser inteligível, sendo essencialmente ser, não poderia estar em nada além de si mesmo, nem deixar nada fluir de sua substância. Ele produz, portanto, seres inferiores sem sair de si mesmo, e estes participam dele na medida em que são capazes. É nesse sentido que ele está em toda parte ao mesmo tempo, na sua totalidade. Tal é a natureza do Ser inteligível, deduzida apenas do estudo de sua essência.
(IV-V) A razão nos leva a admitir que Deus está em toda parte; portanto, Ele não está dividido: pois se aniquilaria nessa divisão. Daí resulta que sua natureza é infinita, uma vez que não tem limites e que nada lhe falta. Todos os seres dependem do Um e se relacionam com ele como raios com o centro de onde emanam. Da mesma forma, as essências e as potências inteligíveis, que não admitem separação como os raios, são tantos centros que estão unidos ao centro comum, isto é, ao Um, mantendo-se distintos por sua essência.
(VI) Os inteligíveis formam tanto uma multidão quanto uma unidade, porque sua natureza é infinita. Há unidade na multidão e multidão na unidade. Assim, a existência do homem sensível tornou múltipla a essência do homem ideal. Essa presença da unidade na multidão não é análoga à extensão da brancura, mas à presença da alma em todas as partes do corpo.
(VII) Podemos reduzir nosso próprio ser ao Ser universal, uma vez que dele derivamos a existência. Assim, pensamos os inteligíveis sem representá-los por meio de imagens, porque nós mesmos somos os inteligíveis. Todos juntos, somos esse Ser universal. Assim que voltamos nosso olhar para ele, não percebemos mais limites à nossa existência.
(VIII) Para compreender como as coisas sensíveis participam do mundo inteligível, não se deve conceber, de um lado, a matéria e, do outro, as ideias, cuja luz irradia sobre ela. Empregamos essa metáfora apenas para dar a entender que as coisas sensíveis são imagens das coisas inteligíveis. A matéria envolve a ideia por todos os lados, sem tocá-la, e, ao aproximar-se dela, recebe dela, em toda a sua totalidade, o que é capaz de receber, sem que a ideia deixe de existir em si mesma ou tenha uma extensão local. Assim, a ideia é uma, idêntica, indivisível, existe inteiramente em toda parte.
(IX) Que se imagine todas as coisas que existem reduzidas a uma única esfera: ela será produzida por um princípio único que a manterá suspensa a ele sem se espalhar nela. Assim, tudo depende de uma única vida, e todas as almas não são senão uma única Alma infinita, presente em todo o mundo para vivificá-lo, qualquer que seja a sua extensão. Pelo próprio fato de ser uma unidade absolutamente simples, ela não é suscetível nem de aumento nem de diminuição. E como essa unidade constitui sua essência, a Alma deve conter também em seu poder a natureza que lhe é oposta, sendo assim ao mesmo tempo infinita e múltipla. Por isso, ela é o princípio sobre o qual se edificam todas as coisas que se encontram no espaço.
(X) Os três princípios do mundo inteligível — a Alma universal, a Inteligência e o Bem — exercem um poderoso atrativo sobre a nossa alma. Pela sua beleza, a Inteligência desperta o nosso amor; a sua unidade e universalidade permitem-lhe comunicar-se a todos ao mesmo tempo, sem se entregar exclusivamente a nenhum. Da mesma forma, o Bem se deixa ver e abraçar por nossas almas quando nos identificamos com ele por meio do que há de inteligível em nosso ser.
(XI-XII) Para compreender como pode estabelecer-se uma relação entre este vasto corpo do mundo e o Ser inteligível que não tem extensão, é preciso considerar a natureza do Ser inteligível. Visto que não é uma quantidade, ele está fora do tempo e do espaço: possui ao mesmo tempo a ubiquidade e a eternidade. A eternidade, que é o poder infinito do ser idêntico e imutável, engendra o tempo, que é incapaz de igualá-la em seu curso, porque implica sucessão. Da mesma forma, a ubiquidade engendra e supera em grandeza o espaço, porque este é divisível. A relação do mundo inteligível com o mundo sensível é uma relação de presença. A vida simples e universal está presente em toda parte, é infinita, eterna. Para compreendê-la, é preciso, pelo pensamento, abranger a totalidade das coisas, separar-se dos insensatos que limitam o Ser ao particularizá-lo, e tornar-se universal; é preciso fixar o olhar no princípio sempre presente, mas muitas vezes invisível, porque estamos distraídos de sua contemplação. Embora sua presença nem sempre seja percebida, ela não deixa de ser eficaz. Tudo se volta para a fonte da existência; as cidades, a terra, o céu, o mar, tudo é vivificado e animado por seu poder.
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I. Introdução: a onipresença da alma é natural ou acidental? (VI 4, 1).
1. As duas alternativas (1, 1-8).
2. Objeções contra a onipresença natural (1, 8-13).
3. Objeções contra a onipresença acidental (1, 13-29).
4. Problema (1, 29-34).
II. Primeira fundamentação da onipresença (VI 4, 2-10).
1. Onipresença do Ser: natural, total e imediata (capítulos 2-3).
a) Onipresença natural (2, 1-39).
b) Onipresença total (2, 39-49).
c) Onipresença imediata (capítulo 3).
2. Onipresença e unimultiplicidade (cap. 4-6).
a) No Ser (4, 1-26).
b) Na Alma (4, 26-6, 20).
3. Onipresença e identidade indivisível (cap. 7-10).
a) Das analogias (cap. 7).
b) Onipresença e participação (cap. 8-10).
III. Objeções e respostas (VI 4, 11-16).
1. Primeira aporia: Onipresença, multiplicidade e participação (cap. 11-12).
2. Segunda aporia: Onipresença e indivisibilidade (cap. 13).
3. Terceira aporia: Unimultiplicidade da Alma (cap. 14-15).
4. Quarta aporia: Escatologia tradicional (cap. 16).
IV. Nova fundamentação da onipresença (VI 5, 1-10).
1. Argumento 1.º: Crença universal na onipresença de Deus (cap. 1).
2. Argumento 2.º: Natureza do Ser verdadeiro (capítulos 2-3).
3. Argumento 3.º: a onipresença, atributo da divindade (4, 1-13).
4. Argumento 4.º: Infinitude: «infinito, logo imenso» (4, 13-17).
5. Objeção contra a onipresença imediata e resposta (4, 17-24).
6. Unimultiplicidade e onipresença: novas precisões (cap. 5-10).
7. Onipresença e articipação: novas precisões (cap. 8).
8. Unimultiplicidade e onipresença da Alma: novas precisões (9, 1-10, 40).
9. Conclusão (10, 40-52).
V. Resolução de dificuldades (VI 5, 11-12).
1. Problema 1 (cap. 11).
2. Problema 2 (12, 1-15).
3. Problema 3 (12, 15-36).
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§§1–7 apresentam a terceira explicação:
§1. Todos nós temos a noção de um deus que é onipresente e o mesmo em cada ser; o Bem e o Ser pertencem a cada ser enquanto tal.
§2. O inteligível deve ser tratado utilizando seus próprios princípios e deixando de lado o corpo.
§3. A verdadeira unidade permanece em si mesma; outras coisas participam dela na medida em que são capazes.
§4. É a mesma coisa acreditar em Deus e acreditar que existe um ser que é idêntico em todos os lugares: em todos os lugares onde há Alma, há também o Um e o Intelecto.
§5. Advertências sobre a imagem do círculo e seus raios.
§6. O inteligível é um, e múltiplo e ilimitado. As coisas pressionam o Intelecto, em vez de este entrar nas coisas.
§7. Não possuímos os inteligíveis; ascendemos em direção a eles e nos tornamos eles.
§§8–10: Uma quarta explicação.
§8. Na participação da matéria nas formas, as formas não estão localmente separadas da matéria. A matéria exerce pressão sobre a forma e assume o que é capaz de assumir.
§9. O mundo sensível tem uma única causa, uma única vida e uma única alma.
§10. Ao permanecer dentro de si mesma, a verdadeira Unidade é capaz de estar presente nas outras coisas que dependem dela.
§§11–12: Uma quinta explicação.
§11. O inteligível é ilimitado, sem magnitude, eterno e detentor de todo o poder.
§12. Em virtude de seu poder ilimitado e imaterial, o inteligível está presente; e podemos encontrá-lo dentro de nós mesmos removendo o não-ser que nos foi acrescentado.