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Observação: a numeração incomum de cinco dos capítulos deste tratado (81 a 85) deve-se à sua ausência nos manuscritos de Plotino com os quais trabalhava M. Ficino, a quem se deve a primeira numeração dos capítulos. Os cinco capítulos aparecem, no caso dos quatro primeiros, em alguns manuscritos hoje conhecidos e na citação que deles faz a Preparação Evangélica de Eusébio (XV, 22), e, no caso do último, apenas na Preparação Evangélica (XV, 10; sobre o problema que essa anomalia suscita, ver a nota 102).
Capítulo 1: Somos inteiramente ou parcialmente imortais?
O corpo é mortal, mas aquilo que nós mesmos somos, nossa alma, não o é.
Capítulo 2: A alma não é um corpo e não é corpórea.
A alma é a causa da existência dos corpos.
Capítulo 3: Refutação da definição epicurista da alma.
1-6. A alma não é corpórea e é desprovida de partes.
Capítulos 3 a 8³: Refutação da definição estoica da alma.
Cap. 3, 6-fim. A alma não é um corpo material.
Cap. 4. A alma não é nem um sopro nem uma “maneira de ser”.
Cap. 5, 1-15. O corpo não pode ser o princípio nem da existência nem do movimento.
Cap. 5, 15-fim. Na alma, a parte é idêntica ao todo.
Cap. 6 e 7. Se a alma fosse um corpo, não haveria sensação.
Cap. 8. Se a alma fosse um corpo, não haveria pensamento.
Cap. 8¹. A alma não é uma quantidade.
Cap. 8². A alma não penetra inteiramente nos corpos.
Cap. 8³. A alma e o intelecto são anteriores à natureza e ao corpo.
Capítulo 8-4: Refutação da definição pitagórica da alma como “harmonia”.
Capítulo 8-5: Refutação da definição aristotélica da alma como “entelequia”.
Capítulos 9 a 12: A natureza da alma.
Cap. 9. A alma é princípio da vida: ela tem o ser e a vida por si mesma.
Cap. 10. A alma é de natureza divina: ela desfruta eternamente de uma vida boa e reflexiva.
Cap. 11-12. A alma é imortal, indestrutível, indivisível e imutável.
Capítulo 13: Como a alma entra no corpo?
A alma do mundo entra no corpo sem estar no corpo: ela produz, embeleza e dirige todas as coisas no mundo.
Capítulo 14: As almas dos seres vivos individuais subsistem separadamente dos corpos.
Capítulo 15: As almas sobrevivem ao desaparecimento dos corpos.
(I-V) Para saber se a alma é imortal, é preciso examinar se ela é independente do corpo.
A. A ALMA NÃO É CORPÓREA.
1° Nem uma molécula material nem uma agregação de moléculas materiais poderiam possuir vida e inteligência. 2° Uma agregação de átomos não poderia formar um todo que fosse uno e coeso consigo mesmo. 3° Todo corpo é composto de matéria e forma, enquanto a alma é uma substância simples. 4° A alma não é uma simples forma de ser da matéria, porque a matéria não poderia dar a si mesma uma forma. 5° Nenhum corpo subsistiria sem o poder da Alma universal. 6° Se a alma é outra coisa que a simples matéria, ela deve constituir uma forma substancial. 7° O corpo exerce uma ação uniforme, enquanto a alma exerce uma ação muito diversa. 8° O corpo tem apenas uma única maneira de se mover, enquanto a alma tem movimentos diferentes. 9° A alma, sendo sempre idêntica, não pode, como o corpo, perder partes nem adquirir outras. 10° Sendo uma e simples, ela está inteiramente presente em toda parte, e suas partes são idênticas ao todo; o mesmo não se aplica ao corpo.
(VI-VIII) 11° O corpo não pode possuir nem a sensação, nem o pensamento, nem a virtude. — [Impossibilidade do corpo sentir.] O sujeito que sente deve ser único e imaterial para perceber o objeto sensível em sua totalidade de uma só vez, para ser o centro no qual convergem todas as sensações que ele compara e julga. Se a alma fosse corpórea, deveria ter tantas partes quanto o objeto sensível e perceber uma infinidade de sensações; além disso, cada sensação seria uma impressão material, o que tornaria a memória impossível. O mesmo se pode dizer das afeições: na dor, há o sofrimento que é próprio do corpo e o sentimento desse sofrimento que pertence à alma; esse sentimento não é transmitido de forma gradual [como ensinam os estóicos], mas produzido instantaneamente; consequentemente, pressupõe a unidade do princípio que sente. — [Impossibilidade do corpo pensar.] A alma pensa: ora, o pensamento do inteligível, que é indivisível e incorpóreo, pressupõe um sujeito da mesma natureza. — [Impossibilidade do corpo possuir a virtude.] A Beleza e a Justiça, não tendo extensão, só podem ser concebidas e guardadas por um princípio indivisível. Se a alma fosse corpórea, as virtudes, tais como a prudência, a justiça e a coragem, não seriam mais do que uma certa disposição do sangue ou do sopro vital; ora, tal hipótese é inadmissível.
12° Os corpos agem apenas por meio de potências incorpóreas que recebem da alma. Esta deve, portanto, ser ela própria uma força incorpórea. 13° A alma penetra todo o corpo, enquanto um corpo inteiro não pode penetrar outro corpo inteiro. 14° Se [como afirmam os estóicos] o homem fosse primeiro um hábito, depois uma alma e, finalmente, uma inteligência, o perfeito nasceria do imperfeito, o que é impossível.
B. A ALMA NÃO É A HARMONIA NEM A ENTELÉCHIA DO CORPO.
A alma não é a harmonia do corpo[21]: pois a harmonia é um efeito; pressupõe, portanto, uma causa; ora, essa causa não é outra senão a alma.
A alma também não é a entelequia do corpo natural, organizado, que possui a vida em potência. De fato, essa hipótese levanta uma série de dificuldades. Em primeiro lugar, o pensamento puro pressupõe um princípio separado do corpo. Em seguida, a lembrança da sensação, a menos que seja assimilada a uma impressão corporal, deve ser concebida como independente do organismo. Por fim, as próprias funções da vida vegetativa não poderiam ser explicadas por uma força completamente inseparável da matéria que ela molda.
C. A ALMA É UMA ESSÊNCIA INCORPÓREA E IMORTAL.
(IX-X) Visto que a alma não é nem um corpo nem uma forma de ser de um corpo, e que, no entanto, é o princípio da força ativa, é preciso admitir que ela é uma essência verdadeira, que dá ao corpo o movimento e a vida porque ela própria se move e possui a vida por si mesma. Ela é, portanto, imortal. Para se convencer disso, basta considerar a afinidade que ela tem com a natureza divina e eterna, quando, separando-se do corpo, ela se dedica a pensar e se eleva a Deus[22]
(XI-XII) A vida pressupõe um princípio, e esse princípio deve ser imperecível: sem isso, não haveria mais no universo senão uma sucessão de fenômenos sem causa real. Se quisermos que a Alma universal seja a única imortal, enquanto a alma humana seria perecível, estamos propondo algo impossível: pois, sendo a alma humana um ato único, simples, indivisível e inalterável, ela não poderia perecer por decomposição, divisão ou alteração.
(XIII) Pura e impassível enquanto permanece no mundo inteligível, a alma deca um pouco quando vem aqui abaixo para moldar uma porção da matéria à imagem das ideias que contemplou lá em cima; mas, mesmo assim, por meio de sua inteligência, ela permanece ainda impassível e independente do corpo.
(XIV) A alma não é composta, embora se distingam nela várias partes: pois, quando se separa do corpo, ela retoma para si as potências que havia produzido para lhe comunicar a vida[23].
As almas que animam os corpos dos animais são igualmente imortais, seja qual for a sua natureza.
(XV) Às provas anteriores, que se dirigem exclusivamente à razão, pode-se, se assim se desejar, acrescentar provas históricas, como os ritos observados em relação aos que já não estão entre nós, as respostas dos oráculos, etc.
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I. INTRODUÇÃO (cap. 1).
1. Problema: o homem individual é imortal ou corruptível?, ou em parte imortal e em parte corruptível? (1, 1-4).
2. Problema prévio: o que é o homem? Ele é composto de alma e corpo: o corpo é corruptível, mas a parte mais importante é a alma, e a alma é o próprio homem (1, 4-25).
II. A ALMA NÃO É CORPO: CONTRA OS EPICÚREOS E OS ESTOICOS (cap. 2-83).
1. A alma é essencialmente portadora de vida, enquanto o corpo não o é (cap. 2):
a) A vida não é inerente aos corpos simples, nem quando tomados isoladamente, nem quando combinados (2, 1-19).
b) Os corpos vivos são corpos organizados: pressupõem, portanto, um princípio organizador, que é o que terá o status de alma (2, 19-22).
c) Mesmo os corpos simples se originam pelo advento de uma “razão” sobre a matéria; essa razão provém de uma alma (2, 22-25).
2. A alma não é um conglomerado de átomos: a) a justaposição dos átomos não pode dar origem à simpatia; b) da soma de indivisíveis não pode resultar nem um corpo nem uma magnitude (3, 1-6).
3. A alma não é uma afecção da matéria: essa afecção não seria suficiente para dar vida à matéria ou ao corpo; é necessário um princípio transcendente (3, 6-18).
4. Sem uma alma transcendente, não existiria nenhum corpo (talvez nem mesmo a matéria) e o universo se dissolveria (3, 18-35).
5. A alma não é um «pneuma em determinado estado»: esse «determinado estado» ou não é algo real, caso em que apenas a matéria seria real, ou, se for algo real, será uma «razão» imaterial e incorpórea (4, 1-21).
6. A alma produz efeitos distintos em animais distintos e efeitos contrários no mesmo animal; logo, não é um corpo (4, 21-34).
7. A cada corpo corresponde um único movimento; a alma produz movimentos variados; logo, não é um corpo (5, 1-7).
8. Se a alma fosse corpo, não poderia fazer crescer sem crescer ela mesma, o que implicaria muitas dificuldades (5, 7-24).
9. A alma está inteira em muitas partes, e cada parte da alma é idêntica ao todo; logo, transcende a quantidade; logo, não é corpo (5, 24-52).
10. Se a alma fosse corpo, não seria possível explicar:
a) nem a percepção sensível: requer-se um centro receptor indiviso (6, 1-37),
b) nem a memória: as sensações se apagariam ou se bloqueariam umas às outras (6, 37-49),
c) nem a sensação de dor: a teoria da “transmissão” é absurda (cap. 7),
d) nem a inteligência: o sujeito intelectivo deve ser incorpóreo e imaterial (8, 1-23),
e) nem as virtudes, que, sendo incorpóreas e permanentes, devem residir em um sujeito incorpóreo e permanente (8, 24-45).
11. Não vale conceber a alma como um corpo ativo argumentando que também os corpos são ativos: a) a operatividade dos corpos provém de potências incorpóreas; b) a alma possui atividades próprias distintas das realizadas pelos corpos (cap. 81).
12. A alma atravessa totalmente o corpo; mas não poderia atravessá-lo se ela própria fosse corpo; logo, não é corpo (cap. 82).
13. A teoria estoica de uma evolução progressiva (pneûma → coesão → natureza → alma → inteligência) vai contra a natureza: do inferior não pode surgir o superior (cap. 83).
III. A ALMA NÃO É UMA ARMONIA: CONTRA OS PITAGÓRICOS (cap. 84).
1. Exposição da teoria (84, 1-9).
2. Refutação: a) a alma é anterior ao corpo; b) ela o domina; c) é substância; d) seria saúde; e) haveria uma multidão de almas para cada ser vivo; f) exigiria uma alma prévia, autora da harmonia e análoga ao músico; g) implicaria a gênese espontânea do perfeito a partir do imperfeito (84, 9-28).
IV. A ALMA NÃO É UMA REALIDADE INSEPARÁVEL: CONTRA ARISTÓTELES (85, 1-43).
1. Exposição da teoria (85, 1-5).
2. Refutação: a) se o corpo fosse dividido ou mutilado, a alma ficaria dividida ou mutilada; b) a alma não poderia se retirar durante o sono, nem haveria sono; c) não haveria oposição entre a razão e os apetites; d) a alma intelectiva não pode ser atualidade do corpo: não haveria intelectões; e) nem a sensitiva: não reteria as impressões; f) nem a desidérativa de realidades incorpóreas; g) nem a vegetativa: a planta não se desenvolveria; h) a alma indivisa não pode ser atualidade de um corpo divisível; i) seriam impossíveis as transmigrações e as metamorfoses (85, 5-43).
V. A ALMA É UMA SUBSTÂNCIA REAL E ETERNA: TESE PLATÔNICA (85, 43-15, 12).
1. Duas classes de natureza: a do Ser real e a do ser em devir, a do Vivente primário e a do vivente derivado; o Ser primário identifica-se com o Vivente primário (85, 43-9, 29).
2. Parentesco da alma com a natureza divina: deduz-se de sua incorporeidade e manifesta-se na alma purificada (cap. 10).
3. Imortalidade da alma (caps. 11-12):
a) A vida compete essencialmente à alma, não como propriedade acessória nem como forma advinda de um substrato (cap. 11).
b) Se a alma fosse corruptível, há muito todas as coisas teriam perecido; logo, a alma é imortal, tanto a do universo quanto a individual: ambas são «princípio de movimento» (12, 1-8).
c) A reminiscência demonstra a pré-existência da alma (12, 8-11).
d) A alma não pode perecer nem por dissolução, pois é simples e vive em ato, nem por fragmentação, pois carece de quantidade, nem por modificação destrutiva, pois esta é própria de uma natureza composta (12, 12-20).
4. Questões conexas (cap. 13-14):
a) Por que a alma se encarna em um corpo?
—Porque não é inteligência pura, mas inteligência acompanhada de um desejo de criar, ordenar e governar (cap. 13).
b) Todas as almas, mesmo as que caíram em corpos de animais, as dos animais e as das plantas, são imortais (14, 1-8).
c) Objeção: se a alma é tripartida, será dissolúvel. —Não. As almas puras se desfarão da parte inferior; as não puras conviverão com ela por muito tempo; mas mesmo a parte inferior é imperecível (14, 8-14).
5. Provas não filosóficas da imortalidade da alma: baseiam-se nos oráculos que ordenam apaziguar a ira dos mortos e prestar-lhes honras, e nos benefícios que as almas dos falecidos nos conferem, o que prova sua sobrevivência (cap. 15).
APE
O homem não é uma entidade simples, mas um conjunto de alma e corpo; o corpo perece, mas a alma, que é o verdadeiro eu, sobrevive (cap. 1). A alma não é um corpo: refutação detalhada da posição corpórea estoica (e, aliás, de passagem, da epicurista) (cap. 2-83). Refutação da teoria da harmonia da alma supostamente defendida pelos pitagóricos (cap. 84). Refutação da teoria de Aristóteles de que a alma é a “entelequia” do corpo ou sua forma inseparável (cap. 85). Exposição e defesa da doutrina platônica (cap. 9-14). Aqueles que precisam desse tipo de evidência podem encontrar apoio para a doutrina da imortalidade nos oráculos e no culto aos mortos (cap. 15).
LPE
§1. Um capítulo introdutório, que expõe a natureza do ser humano e os respectivos papéis do corpo e da alma.
§§2–4. Plotino passa a refutar, em primeiro lugar, a psicologia materialista dos estóicos (e, incidentalmente, no início do §3, dos epicuristas), refutando a noção de que a alma seja qualquer tipo de entidade material, atômica ou não, nem uma entidade pneumática (no sentido estóico), nem um “modo” do corpo (§4).
§5. O corpo não pode ser um princípio nem da existência nem do movimento.
§§6–7. Se a alma fosse um corpo, não possuiria percepção sensorial, pelo menos de forma consciente ou coerente, nem poderia analisar adequadamente a origem das dores ou de outras sensações; isto contra os estóicos.
§8. Se a alma fosse um corpo, não seria capaz de pensar.
§81. A alma não é uma quantidade.
§82. Se a alma fosse material, não penetraria inteiramente nos corpos, como de fato o faz; isto serve como uma rejeição da doutrina estoica da mistura total.
§83. A alma e o intelecto são naturalmente anteriores à natureza e ao corpo.
§84. Refutação de (um equívoco da) doutrina pitagórica de que a alma é uma ἁρμονία ou “sintonização” do corpo, e nada mais do que isso (a sugestão de Símias no Fédon de Platão).
§85. Refutação da doutrina aristotélica (em Sobre a Alma 2.1) de que a alma é entelekheia, ou “atualidade realizada” do corpo.
§9. A alma como princípio da vida, sendo vida em si mesma.
§10. A alma é de natureza divina; quando descobre sua própria natureza verdadeira, isso a dota de felicidade.
§§11–12. A alma é, por natureza, imortal e indestrutível; não tendo partes, não está sujeita a alteração ou, portanto, à dissolução.
§13. A parte puramente intelectiva da alma não desce para o corpo; apenas aquilo que adquire o desejo entra em relação com o corpo, sem estar realmente no corpo; ela produz, embeleza e dirige todas as coisas neste mundo.
§14. Mesmo as almas dos seres vivos não humanos subsistem separadamente de seus corpos, embora um elemento de suas almas derive da natureza.
§15. Posfácio teológico conclusivo. Evidências apresentadas a partir de pronunciamentos divinos, santuários proféticos e similares.