Bréhier
Plotin
I. — AS CATEGORIAS DE ARISTÓTELES
A questão dos gêneros do ser pressupõe, segundo Plotino, duas questões preliminares: se o termo “ser” tem o mesmo sentido em todos os gêneros e se as categorias de mesmo nome se aplicam igualmente a sensíveis e inteligíveis — Aristóteles tratou bem a primeira, ignorou completamente a segunda.
O tratado das Categorias de Aristóteles havia sido comentado muitas vezes antes de Plotino, e o grande Comentário de Simplício preserva pelo menos quinze comentários anteriores, incluindo os de Alexandre de Afrodísia, Andrônico e Nicostrato.
A crítica de Plotino às categorias aristotélicas era, em grande parte, antecipada por comentadores anteriores — as objeções de Lúcio e Nicostrato, conhecidas por Simplício, coincidem frequentemente com as do próprio Plotino.
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O tratado gerou debates intensos entre os neoplatônicos que buscavam reconciliar
Platão e
Aristóteles.
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Dexipo, discípulo de
Jâmblico, compôs um diálogo a dois personagens — um apresentando as objeções de
Plotino, o outro refutando-as — sem acrescentar nada além do que encontrou em
Porfírio e
Jâmblico (conforme Simplício, 2, 28).
Havia desacordo entre os intérpretes sobre o caráter mesmo do tratado das Categorias: alguns o tomavam por um estudo dos termos simples, parte da lógica; outros o viam como estudo dos próprios seres; outros ainda o entendiam como análise das noções simples.
Plotino admitia como óbvia a interpretação que faz das Categorias um estudo das próprias coisas, e colocava os peripatéticos diante de uma questão metafísica fundamental: em que domínio da realidade — sensível ou inteligível — se encontram os gêneros do ser aristotélicos?
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Lúcio e Nicostrato haviam chegado à mesma conclusão de
Plotino: os gêneros aristotélicos pertencem apenas ao sensível, em oposição aos gêneros do
Sofista de
Platão.
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Simplício não reconhecia essa oposição, argumentando que as categorias se aplicam também aos inteligíveis por analogia — até categorias como relativo, sofrer e estar situado teriam correspondentes no plano inteligível (Simplício, p. 75, l. 12).
O tipo geral de crítica de Plotino a Aristóteles é acusar o caráter factício da unidade de cada categoria, que abarcaria coisas demasiado diversas sob um mesmo nome.
Aristóteles emprega o termo “substância” para substâncias sensíveis e inteligíveis, para forma, matéria e o composto dos dois, e ainda distingue substâncias primeiras (indivíduos) e segundas (gêneros) — Plotino nega que essa unidade nominal indique unidade de gênero.
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Admitir que substância inteligível e substância sensível são duas espécies de um gênero implicaria uma substância que não seria nem corpórea nem incorpórea.
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A própria Metafísica de
Aristóteles (Ζ, 1029 a 1-3; 5-7; 18-19) afirma que forma e matéria não são igualmente substâncias, o que seria impossível se fossem espécies de um mesmo gênero.
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A substância segunda deve esse título apenas à substância primeira da qual é abstraída, sem que haja gênero comum entre ambas.
Em todos esses termos — substância inteligível, forma, matéria, composto — Plotino propõe ver não espécies de um mesmo gênero, mas uma hierarquia de termos que derivam uns dos outros, substituindo a classificação lógica por uma hierarquia de realidades.
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Nas Categorias (cap. V) e na Metafísica (1029 a 28; 1029 a 1; 1024 b 4-6), as fórmulas aristotélicas designam apenas propriedades da substância, não sua quididade.
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Essas propriedades não são válidas para todos os termos chamados de substância e referem-se, em sua maioria, à substância “em sua relação com as outras coisas”, isto é, como sujeito possível de atributos.
Aristóteles divide a categoria da quantidade em contínuo (linha, superfície, corpo, lugar, tempo) e descontínuo (número e discurso) — Plotino questiona o caráter factício dessa unidade genérica.
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O contínuo não pode ser definido pela quantidade, pois, se a quantidade fosse o contínuo, o descontínuo — que lhe é oposto — já não seria quantidade.
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O contínuo, enquanto tal, é grandeza; é quantidade apenas porque pode ser medido e suas partes contadas — portanto, é quantidade apenas por acidente.
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A grandeza contínua é quantidade da mesma forma que qualquer coisa mensurável, sem ser propriamente um “quanto”.
Apenas o número seria propriamente um quanto — mas com ressalva: o número ideal não é quantidade, mas substância, ao passo que o número que é quantidade é o número numerante, aquele que usamos no ato de contar.
Os relativos são definidos por Aristóteles como “as coisas que, sendo, são ditas ser de outra coisa ou, de alguma maneira, em relação a outra coisa” (Cat., 6 a, 36-37) — Plotino examina primeiro a questão da existência mesma dos relativos antes de atacar a unidade da categoria.
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A lista aristotélica inclui: maior e menor, duplo e metade, estado, disposição, ciência, sensação, posição deitada ou sentada, senhor e escravo, semelhante e dessemelhante, igual e desigual.
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Plotino distingue dois grupos: os relativos em que os termos se relacionam como agente e paciente (coisa sabida e ciência, sensível e sensação) e os que não implicam nenhuma ação efetiva entre os termos (semelhante, igual).
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Um terceiro grupo — pseudorrelativos que pertencem a outra categoria, como o estado (que pertence ao ter) — é de imediato excluído da discussão.
A tese negativa (cap. VI) sustenta que os relativos do segundo grupo existem apenas em nosso espírito que julga, pois não afetam em nada a realidade dos termos — essa tese admite o que os realistas americanos modernos chamam de relações externas.
A questão fundamental para Plotino é a da unidade da categoria do relativo: a fórmula aristotélica é insuficiente, pois, se a disposição é um relativo por ser disposição de um corpo, então a alma, sendo alma de um corpo, também seria relativo.
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Os relativos deveriam ser definidos por uma dependência recíproca tal que nascessem e perecessem juntos — com um e dois nascem simultaneamente as relações de duplo e metade (cf. cap. VII, 7 b 15).
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Os relativos do primeiro grupo (pai-filho) realizam-se pela ação de um agente sobre um paciente; os do segundo (igual, maior e menor) existem sem nenhuma atividade dos termos em relação.
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Para os relativos do segundo tipo,
Plotino segue
Platão, que no
Fédon (74 a-d) mostrou a razão das relações de igualdade na participação ao Igual em si.
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Os correlativos que são também opostos apresentam uma dificuldade: grandes e pequenos devem sua existência à participação em duas formas opostas, enquanto outros, como mais feio ou menos feio, provêm de participação desigual a uma única e mesma forma.
Aristóteles inclui na categoria do relativo coisas heterogêneas — sensação e conhecimento (que são formas), disposição e medida (que são atos), e ainda os paronímicos desses relativos e suas negações — de modo que a unidade da categoria do relativo, como a das duas precedentes, é apenas nominal e não a de um gênero.
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Plotino parece remeter não ao texto de
Aristóteles diretamente, mas a peripatéticos posteriores cujo rastro não se encontra em Simplício.
A qualidade é definida por Aristóteles em quatro classes: estado ou disposição; capacidades ou incapacidades naturais; qualidades passivas (doçura, amargura, calor, frio, brancura, negrura); figura e forma — Plotino questiona o caráter factício dessa unidade.
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O termo “capacidade” abarcaria razoavelmente a primeira e a segunda classes, mas não a quarta.
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Mesmo admitindo que toda qualidade seja capacidade, nem toda capacidade (como a diferença específica, pertencente à natureza da substância) é uma qualidade.
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A qualidade seria então a capacidade que se acrescenta à essência de um ser — mas essa definição também não se aplica ao quarto gênero, o da figura.
Para resolver a primeira objeção (a qualidade compreende também incapacidades), Plotino propõe uma definição mais geral da qualidade, sugerida pelo próprio Aristóteles (Cat., VIII): “aquilo segundo o qual as coisas estão dispostas”.
As diferenças específicas pelas quais Aristóteles separa as classes de qualidades têm, segundo Plotino, valor nulo como princípios de classificação.
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Na primeira classe,
Aristóteles distingue estado e disposição: “o estado se distingue da disposição por ser mais durável e mais estável” (Cat., VIII, 8 b 27-28) — mas a duração é, para
Plotino, simples acidente da qualidade.
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Na segunda classe,
Aristóteles admite apenas as capacidades naturais (9 b, 15-16) —
Plotino responde que é impossível distinguir talento natural e talento adquirido.
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Na terceira classe,
Aristóteles escreve: “elas são ditas passivas não porque as coisas que as recebem experimentem alguma paixão… mas porque cada uma delas produz, nos órgãos sensíveis, um estado passivo” (Cat., VIII, 9 a 35-b 13) —
Plotino afirma que se trata da origem ou do efeito das qualidades, não das qualidades mesmas.
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Na quarta classe,
Aristóteles distinguia “a figura e a forma que está em cada coisa” (VIII, 10 a 11-12) — termo ambíguo porque há em cada coisa uma forma específica que é essência e uma forma posterior à essência (como belo ou feio) que é qualidade.
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Aristóteles incluía na mesma classe qualidades como denso e raro: “o denso vem de as partes estarem próximas umas das outras, o raro de estarem afastadas” (Cat., VIII, 10 a 20-24) —
Plotino reconhece aí a explicação da origem das qualidades, não das qualidades enquanto tais.
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Jâmblico (em Simplício, 267, 27) propunha distinguir entre raridade essencial (como a do ar) e raridade adquirida (como a de uma esponja), sustentando que
Aristóteles falava apenas da segunda, afastando-o assim de
Demócrito.
O texto de Aristóteles — “talvez haja outra espécie de qualidade; mas as que enumerei são sem dúvida as que mais merecem esse nome” (Cat., VIII, 10 a 25-26) — gerou grande embaraço entre os comentadores.
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Andrônico introduzia um quinto gênero, incluindo densidade e raridade, leveza e peso, sutileza e grossura.
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Eudoro incluía grossura e sutileza, mas não as demais.
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Achaicos incluía as qualidades que
Aristóteles nomeia no tratado Sobre a geração e a corrupção (II 2, 329 b 18): pesado e leve, duro e mole, liso e áspero, grosseiro e sutil.
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O pseudo-Arquitas via em pesado e leve quantidades, por serem capazes de igualdade e desigualdade.
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Alexandre de Afrodísia, baseando-se na Metafísica (Δ, 14, 1020 b 10), declarava que “a respeito das coisas pesadas, igual ou desigual não se empregam no sentido próprio, mas por comparação” (Simplício, 151, 32-152, 14).
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Intérpretes mais recentes mostraram que a crítica de Alexandre não levava em conta o peso específico.
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Admitia-se finalmente (Simplício, 269, 29 sq.) dois tipos de peso: o medido pela balança (quantidade) e o peso específico dos corpos (qualidade).
As três divisões provisórias das qualidades propostas por Plotino são: qualidades do corpo versus qualidades da alma; propriedades segundo as ações que exercem; propriedades úteis versus propriedades nocivas.
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Os dois últimos esquemas, que consideram as qualidades exclusivamente como agentes ativos, têm grande afinidade com a doutrina estoica.
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Simplício critica essas divisões com relativa extensão (273, 5-275, 9).
A qualidade e o qualificado não podem pertencer ao mesmo gênero — Plotino sugere que o qualificado (o branco) é uma substância, não uma qualidade.
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Aristóteles havia escrito: “a qualidade de que falo é aquela segundo a qual os seres são ditos qualificados” (8 b 25) e “os qualificados são paronímicos das qualidades, como branco que vem de brancura” (10 a 27).
A aptidão para agir de certa maneira (como correr ou lutar), colocada por Aristóteles na qualidade, parece exigir ser colocada também no relativo — mas Aristóteles havia dito explicitamente (VII, 11 a 20-24; 37-38) não haver inconveniente em colocar uma noção em duas categorias simultaneamente.
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A disposição (hexis) é explicitamente colocada por
Aristóteles a um só tempo no relativo e na qualidade.
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Toda arte estaria em duas categorias: na qualidade, por referir-se a uma certa disposição da alma; no relativo, por operar efetivamente apenas em sua relação com um paciente.
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As capacidades de agir dos seres inanimados (a capacidade de aquecer do fogo) pertencem exclusivamente ao relativo, pois o fogo só exerce sua ação se encontra algo a aquecer.
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A arte ou disposição para o pugilato supõe uma tendência positiva anterior à ação e independente dela — diferentemente das capacidades dos inanimados.
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Plotino havia lembrado, com base no
Fédon (100 e), que os correlativos grande e pequeno existem nas coisas sensíveis apenas por participação nas formas opostas da grandeza e da pequenez.
A ciência e a virtude são colocadas por Aristóteles entre as qualidades (VIII 8 b 29) — mas Plotino insinua que o termo qualidade não convém mais quando se está no inteligível: a Sabedoria “de lá” é, como tudo que é lá, ser e substância.
A categoria quando designa o conjunto das palavras que respondem à questão “quando?” — advérbios e complementos circunstanciais de tempo como ontem, no ano passado — e Plotino contesta não sua unidade, mas sua existência independente e irredutibilidade.
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Platão havia dito, no
Timeu (38 a), que as formas verbais “era”, “é”, “será” designam “espécies do tempo” — o que levaria o quando a se reduzir ao tempo.
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O tempo, por sua vez, pertence à quantidade segundo
Aristóteles (Categorias, VI, 4 b 24) — logo, o quando se reduziria a uma categoria já conhecida.
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O quando é tempo afetado de uma certa determinação, mas permanece sempre tempo; se não se reduz ao tempo, pelo menos o contém como elemento, e portanto não é uma categoria, isto é, um termo simples.
A categoria onde — o conjunto dos complementos circunstanciais de lugar (na Academia, no Liceu) — comporta as mesmas críticas: reduz-se ao lugar, pois esses complementos designam espécies ou partes do lugar.
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O conteúdo é relativo ao continente — o onde e o quando seriam então relativos (XIV, 10-13).
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O conteúdo sendo inseparável do continente, os atributos onde e quando não seriam atributos simples ou categorias (XIV, 8-10; XIII, 29-32).
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O onde e o quando são apenas duas espécies de uma noção mais geral — “uma coisa em outra” — e não há razão para fazer dessas duas espécies duas categorias quando há tantas outras espécies do mesmo gênero: o que está num recipiente, a parte no todo etc. (XIV, 19-24).
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Simplício (349, 19-31) registra uma resposta de
Jâmblico: o que distingue as relações de lugar e tempo de todas as outras relações de continência é que os corpos podem permanecer idênticos a si mesmos enquanto essas relações mudam — mas essa resposta parece fazer o onde e o quando recair nos relativos externos.
Agir e padecer são examinados por Plotino em oito capítulos (XV a XXII), enquanto Aristóteles deles só trata brevemente: “agir, como cortar, queimar; padecer, como ser cortado, ser queimado” (2 b 3-4).
Uma vez admitido o ato como categoria, não há razão para não admitir também o movimento — mas Plotino se choca com a tese de Aristóteles de que o movimento está para o ato como o imperfeito para o perfeito, como o temporal para o intemporal.
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Aristóteles concebia o movimento como totalidade, do início ao fim, como o crescimento de um ser vivo desde o germe até o estado adulto.
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Plotino considera o movimento em cada instante, independentemente de seu resultado: o movimento, tomado assim, é em cada instante completo, e é temporal apenas por acidente.
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Plotino apoia-se implicitamente na terceira hipótese do
Parmênides de
Platão (156 d), onde
Platão descreve o “instantâneo”: “enquanto muda, ele não poderia estar em nenhum tempo” — o oposto exato da tese de
Aristóteles (Física, VI, 6, 237 a 14): “não pode haver mudança em curso de realização no instante”.
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Simplício (306, 13) e
Jâmblico (307, 12) assinalaram a afinidade dessa tese com a dos estoicos.
Jâmblico, em seu comentário, apresentou seis razões pelas quais o movimento seria de natureza inferior ao ato:
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O movimento tende para uma finalidade, enquanto o ato é imóvel nessa finalidade.
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O movimento caminha para a forma completa que o ato já possui.
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O movimento é contínuo e divisível ao infinito; o ato é estável e encerrado em seus limites.
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O movimento é divisível, ilimitado e indefinido; o ato é indivisível, limitado e idêntico a si.
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O movimento vai de um contrário a outro; o ato é imóvel segundo um dos contrários.
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O movimento é progresso; o ato é imobilidade.
As seis razões de Jâmblico não respondem à argumentação de Plotino — elas se limitam a enunciar as teses aristotélicas discutidas por Plotino, sem enfrentar as objeções que ele lhes fez.
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A continuidade do tempo (terceira razão) pertence tanto ao ato quanto ao movimento.
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A divisibilidade infinita do movimento (quarta razão) é refutada pelo enunciado dos absurdos que dela resultam.
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A sexta razão funda-se na ideia errônea de que o ato precisa de tempo.
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Jâmblico acusou
Plotino de se orientar para a ideia — presente em certos pensadores (os estoicos) — de identificar o ato ao movimento, “o que está bem longe da verdade” (Simplício, 304, 28 sq.).
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A intuição de
Plotino — considerar o movimento no instante, completamente definido a cada instante — tornava possível uma mecânica racional e matemática independente de considerações qualitativas sobre a totalidade e a causa final do movimento, prefigurando a mecânica que triunfará no século XVII sobre os escombros do aristotelismo.
O movimento, assimilado ao ato, não se reduz a uma categoria precedente — alguns aristotélicos colocavam o ato nos relativos: “o ato é ato do ativo em potência, e o movimento, movimento do móvel em potência” (Simplício, 309, 29-32).
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Plotino responde que esse argumento comete a própria falta que
Aristóteles queria evitar: tomar como relativos tudo o que se diz de alguma coisa.
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Se o ato é espécie de relativo e o agir é uma categoria, então, por analogia, o ser movido deveria ser uma categoria — e, como consequência inesperada, agir e padecer, sendo duas maneiras de ser movido, não seriam mais duas categorias distintas.
As quatro classificações sucessivas de agir e padecer propostas por Plotino corrigem-se mutuamente:
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Primeira (XVIII, 1-6): distingue atos e movimentos; nos movimentos, distingue ações sobre um paciente (cortar) e ações “livres” sem ponto de aplicação (a marcha, a palavra).
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Segunda (XVIII, 6-8): considera como movimentos apenas as ações sobre um paciente; como atos, as ações sem ponto de aplicação externo.
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Terceira (XVIII, 8-12): distingue ações relativas a um paciente e ações livres, subdividindo estas em movimentos (como a marcha) e atos (como o pensamento).
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Quarta (cap. XIX, 5-12): toma o movimento como gênero e distingue movimentos provenientes do próprio ser (que compreendem ações sobre um paciente e ações livres) e movimentos provenientes de outros seres — agir designaria a primeira classe, padecer a segunda.
Agir e padecer são duas espécies do gênero movimento — mas esse esquema não é suficiente para distingui-los: no ato de cortar, o movimento do que corta é idêntico ao movimento do que é cortado.
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Agir seria idêntico a padecer, a menos que haja na coisa cortada um sofrimento, novo movimento distinto do corte, que poderia ser chamado de paixão (XIX, 12-38).
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Não é suficiente que uma coisa sofra a ação de outra para ser dita passiva (cf. XXI, 1-7).
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A paixão designa não apenas a modificação que vem de um ser em outro, mas aquela que torna esse outro pior do que era: não se pode dizer que o cisne padece ao receber a brancura de sua razão seminal, nem que o corpo padece sob a influência do alimento que o faz crescer, nem que, na liga de cobre e estanho, o cobre padece sob a influência do estanho que lhe dá brilho (XX, 18-32).
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Um mesmo fato — o aquecimento — é paixão quando destrói um ser, mas não o é quando, fundindo o bronze, permite moldá-lo em estátua (XXI, 23-33).
Nos capítulos XX e XXI, Plotino opera na hipótese de que a paixão seja algo diferente da ação — nesse caso, agir e padecer se reduzem a uma única categoria: a do movimento.
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No final do capítulo XXI e início do XXII, toma agir e padecer como os dois aspectos inseparáveis de um único e mesmo movimento — e então agir e padecer se reduzem a relativos (XXII, 1-22).
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Em ambos os casos, agir e padecer não designam categorias independentes.
Os atos livres — prever, pensar, caminhar — não podem pertencer à categoria do agir, pois não são potências capazes de produzir mudança em outra coisa, a não ser por acidente (como a caminhada que deixa rastros na areia) (XXII, 22-34).
As críticas de Plotino à categoria ter são sobretudo argumentos ad hominem contra Aristóteles.
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Nos capítulos IV (2 a 3) e IX (11 b 12-13) das Categorias,
Aristóteles restringia essa categoria a “ter armas ou vestes”; no capítulo XV e na Metafísica (Δ, 23), indicava muitos outros sentidos do termo: ter uma quantidade, uma grandeza etc.
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Por que a categoria ter não contém senão uma mínima parte dos sentidos que
Aristóteles atribui ao termo? (XXIII, 1-5).
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Ter armas não deveria fazer parte da categoria do ter, assim como a substância (da qual as armas são uma espécie) já foi tratada (XXIII, 14-18).
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Simplício (378, 12-26) atribui a Nicostrato uma argumentação muito semelhante à de Plotin, baseada no mesmo contraste entre os capítulos IV e XV das Categorias.
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Se se faz uma categoria de uma espécie do ter (ter armas), por que não fazer categorias das espécies do agir, como cortar ou queimar? (XXIII, 5-11).
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Por que, fazendo do ter (echein) uma categoria distinta,
Aristóteles admite a posse (hexis) na qualidade? (XXIII, 11-14).
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Por que, tendo definido a categoria pela simplicidade ou não composição, admite nas categorias uma proposição como “este porta armas”? (XXIII, 18-20).
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Por que, tendo tomado as categorias por gêneros universais, introduz um gênero de extensão tão restrita quanto o ter? (XXIII, 23-24).
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Há homonímia entre “ter armas” dito de um ser vivo e “ter armas” dito de uma estátua de homem armado? (XXIII, 20-23).
Os argumentos contra a décima categoria — estar situado — são da mesma natureza.
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Pequena extensão de uma categoria que se limita a verbos como estar de pé ou sentado (XXIV, 1-2).
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Complexidade desses termos, que indicam simultaneamente uma situação (que pertence à categoria onde) e uma atitude (que designa uma qualidade) (XXIV, 3-6).
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Eles designam um ato ou uma maneira de ser e pertencem às categorias de agir e padecer.
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Aristóteles colocou estar elevado mas não estar abaixado na categoria.
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Tendo admitido em princípio que os nomes derivados fazem parte da mesma categoria que aqueles dos quais derivam,
Aristóteles coloca “deitado” (anakeimenos) na categoria estar situado (Cat., IV, 2 b 2) e “ato de deitar-se” no relativo (VII, b 12-13).
II. — CRÍTICA DAS CATEGORIAS ESTOICAS
A crítica da teoria estoica das categorias tem tom diferente da precedente: por um lado, destaca as faltas lógicas dos estoicos; por outro, visa o materialismo implicado por essa teoria.
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Para
Aristóteles, as categorias eram os gêneros primeiros do ser, acima dos quais só existem termos “transcendentais” como ser ou um, que não são gêneros.
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Para os estoicos, as quatro categorias — substâncias, qualidades, maneiras de ser e maneiras de ser relativas — são espécies de um gênero supremo chamado ti.
É logicamente impossível admitir um gênero supremo único: as duas primeiras categorias estoicas (sujeito e qualidade) são corpos — portanto, para os estoicos, os únicos seres — e as duas últimas são incorpóreos, isto é, não seres; o gênero supremo deveria convir a um só tempo ao ser e ao não ser.
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Um gênero não pode se dividir em espécies senão por meio de diferenças tomadas fora de si mesmo — mas o gênero supremo compreende tudo, logo não se divide.
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Pela lei do terceiro excluído, o gênero supremo deve ser ou não ser: se é, é uma de suas espécies (os corpos); mas, como também se diz das duas últimas categorias (o não ser), segue-se que o não ser é o ser (XXV, 1-10).
A primeira categoria estoica — o sujeito ou substrato — designa a um só tempo a matéria sem qualidade e o corpo concreto, sendo a matéria anterior aos corpos.
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Pela regra de
Aristóteles (Metafísica, Β, 3, 999 a 6-14), onde há anterior e posterior não há gênero comum — logo, os estoicos não têm direito de fazer do sujeito um gênero comum à matéria e ao corpo (XXV, 11-23).
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Outra falta: a teoria das categorias busca gêneros, não princípios — mas os estoicos declaram que a matéria é um princípio (23-25).
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Se respondem que os corpos são apenas matéria afetada de certa maneira (XXV, 25-33), cometem uma falta contra o axioma fundamental da metafísica aristotélica: o ser em ato é sempre anterior ao ser em potência, e a matéria, ser em potência, deveria por si mesma passar ao ato (XXVI, 1-11).
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Contradição a respeito de Deus: dizem ao mesmo tempo, de modo contraditório, que ele é um corpo e que está desprendido da matéria (11-17).
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Se a matéria é um corpo, não pode ser princípio — pois todo corpo é composto de matéria e forma (17-23).
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A matéria não tem por si mesma nem dimensão, nem resistência (23-25), nem unidade (26-37), nenhuma das características que os estoicos atribuem ao corpo.
É contraditório fazer da matéria a um só tempo um sujeito e o princípio único do real: um sujeito é necessariamente sujeito de propriedades que lhe vêm de outra coisa; é um relativo cujo correlativo é o atributo.
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Se o atributo é não ser, a matéria também o é, em virtude do princípio de que os relativos devem juntos ser ou não ser (XXVII, 9-33).
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É contraditório dizer que a matéria é a única substância e que o corpo, a alma e o mundo são substâncias — pois é ininteligível reduzir a alma à matéria e contraditório buscar sua origem em algo estranho à matéria (XXVII, 33-47).
A gênese do materialismo estoico, segundo Plotino, é o conflito entre a convicção de que o corpo é a única realidade e a experiência do contínuo câmbio dos corpos — os estoicos imaginariam então, sob essa mudança, um corpo permanente: a matéria.
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Por que não escolher o espaço, que também é um permanente? — observação que faz entrever a teoria cartesiana da matéria ao cabo do movimento que conduziu à teoria estoica (XXVIII, 1-6).
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Duas contradições adicionais: afirmar a um só tempo que a realidade verdadeira é a matéria e que ela é também o universo que contém todos os corpos (6-17); e sustentar que o sensível é o único real enquanto a matéria, única realidade, é cognoscível pela inteligência e não pela sensação (XXVIII, 18-26).
A qualidade, primeira categoria submetida à mesma crítica: uma categoria deve ser uma noção simples e irredutível — mas os estoicos dizem que as qualidades são corpos, e os corpos são compostos de matéria e forma (XXIX, 1-6).
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As espécies de um mesmo gênero devem excluir-se reciprocamente — mas qualidade e substância, sendo duas espécies do gênero supremo estoico, deveriam se excluir, ao passo que os estoicos afirmam que a categoria de qualidade compreende a de substância, sendo substância mais algo (6-10).
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Não se pode dizer a um só tempo que a qualidade é forma ou razão e que é matéria qualificada; se respondem que a forma é uma maneira de ser da matéria, reduzem a qualidade (real, segundo eles) à maneira de ser (terceira categoria, que declaram irreal) (10-25).
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A afirmação de que o único ser é a matéria é uma afirmação da inteligência — mas a inteligência é, para os estoicos, um modo da matéria; seria, então, a matéria afirmando isso de si mesma, sem ter inteligência nem alma (25-36).
A maneira de ser não pode ser ao mesmo tempo uma categoria particular e todas as coisas exceto a matéria — pois os estoicos dizem que tudo é maneira de ser da matéria.
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Se o modo ou maneira de ser é, no sentido próprio, modo da qualidade, e a qualidade é modo da matéria, não se escapa à contradição.
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O modo é, em suma, nos estoicos, todas as categorias de
Aristóteles exceto a matéria (XXX, 1-20).
O relativo é feito pelos estoicos ao mesmo tempo uma categoria do ser e algo irreal — espécie do gênero supremo que deveria estar no mesmo nível das outras categorias, mas que declaram posterior a elas (XXX, 20-27).