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Plotino já havia abordado brevemente o problema da descida da alma em IV 7, 13, apresentando-o como um fato paradoxal. No presente tratado, cronologicamente o sexto (Vida 4, 32), o paradoxo é duplo: primeiro surge do contraste entre a natureza divina da alma, sentida como divina em uma experiência íntima e não mais conhecida apenas especulativamente, e sua descida ao corpo; segundo surge da dupla série de textos de Platão, uns pessimistas e outros otimistas, a respeito da vinda da alma ao cosmos. Ao longo do tratado, Plotino se esforça para mostrar que a aparente confusão decorre da própria complexidade do problema, que não admite uma solução simplista nem deve ser analisado unilateralmente, mas em todos os seus aspectos. Esses aspectos são: 1) a necessidade da procissão, desde o Um até a matéria, e da participação de todas as coisas no Bem; 2) a natureza intermediária da alma, na fronteira entre o inteligível e o sensível, que a obriga a se relacionar com ambos os mundos; 3) a diversidade de graus de perfeição nas almas, embora todas compartilhem a mesma essência; isso, aliado à diversidade dos respectivos corpos, explica a diversidade de comportamentos; 4) a diversidade de níveis na descida da alma: um é a “presença” no cosmos da Alma do cosmos, outro é a “queda” da alma particular em um corpo individual e, por fim, outro é sua “imersão” no mal; 5) finalmente, a diversidade de níveis psíquicos: em toda alma, mesmo na alma humana, há um nível indescendente e proeminente, pelo qual mesmo a queda da alma humana nunca é total1. Apesar das explicações de Plotino, não é fácil ver, no entanto, como a mera descida de uma alma particular a um corpo individual pode ser qualificada de “delito” imputável e merecedor de castigo, ao mesmo tempo que resultado forçado de uma lei inexorável. De fato, nos tratados médios e tardios, a concepção radical da descida como delito já não volta a surgir.