IV, 2 SOBRE A REALIDADE DA ALMA (I)

Tratado 4

Brisson & Pradeau

  • O tratado 4 dá continuidade ao tratado 2 (IV, 7), propondo uma definição de alma.
    • O tratado 4 persegue a conclusão do tratado 2.
    • Plotino afirma que a alma é indivisível, incorruptível e imortal, conforme já oportunizado pelos últimos capítulos do tratado 2.
    • Essa tese é defendida com a autoridade platônica do Timeu, no qual Platão explicou que a alma do mundo foi gerada pelo artesão divino a partir de uma mistura “entre a realidade indivisível e que permanece sempre a mesma e a realidade divisível que se torna nos corpos” (35a1-3).
  • A fórmula platônica permite a Plotino explicar como a alma, sem ser corpórea nem divisível como os corpos, é todavia divisível de uma maneira não quantitativa que lhe permite estar presente em todos os corpos.
    • Deve-se conceder, seguindo Platão, que a alma é uma realidade intermediária, ao mesmo tempo indivisível e divisível: indivisível na medida em que não é uma quantidade extensa e corpórea, mas divisível na medida em que pode exercer sua atividade em corpos distintos, múltiplos e separados.
    • O capítulo único que Porfírio isolou como primeiro tratado da quarta Enéada (tratado 21 (IV, 1), intitulado Sobre a realidade da alma II) precisará novamente esse ponto, e tudo leva a crer que ele era apenas a última palavra de um texto que reunia, quando redigido, os tratados 2, 4 e 21.
    • A principal lição desse conjunto é a definição da alma como realidade inteligível mas ao mesmo tempo intermediária: ela é uma realidade inteligível capaz de se levar até seus produtos sensíveis para informá-los, ordená-los e dar-lhes vida.
  • A definição da natureza intermediária da alma é emprestada do Timeu, ao testemunho do qual Plotino acrescenta ainda uma expressão do Parmênides (155e5) que caracteriza o que se costuma chamar de terceira hipótese do Parmênides (155e3-157b4) – a qual, em sua interpretação da segunda parte do diálogo, corresponde à Alma –, para afirmar que a alma é também una e múltipla ao mesmo tempo.
    • Isso significa, como precisa o segundo capítulo, que a alma não é mais absolutamente divisível do que é absolutamente indivisível: ela não perde sua unidade ao multiplicar sua atividade nos corpos, mas não é absolutamente una e indivisível como seria uma realidade que consistisse apenas em um único ponto.
    • Esse é um privilégio que o final do tratado, se a última frase é bem autêntica, reserva ao “que é o mais elevado”, isto é, ao princípio do qual a alma provém, o Intelecto.
    • Plotino introduz então, associando o motivo da divisibilidade ao da multiplicidade, um duplo critério que lhe permite ao mesmo tempo distinguir e comparar diferentes níveis de realidade.
  • As metáforas tópicas que Plotino emprega situam, no mais elevado, o princípio do qual a alma provém e que é um; abaixo dele, a própria alma, ao mesmo tempo una e múltipla; e, por fim, seus produtos, que são uma multiplicidade.
    • Os tratados ulteriores darão a essa hierarquia uma figura mais complexa e mais precisa, ao menos situando em seu topo um princípio ainda mais eminente do que aquele do qual a alma provém, “o Um”.
    • Os tratados ulteriores conservarão o uso desse duplo critério: o que distingue entre si todas as realidades ou todos os modos de existência possíveis são os diferentes graus de unidade em que cada um deles consiste.

Gredos

  • Utilização de um novo método para o aprofundamento da investigação ulterior sobre a essência da alma.
  • Inspiração nos diálogos Platônicos Fedon e Fedro para a tese de que a alma é substância transcendente, simples, imortal, ingênita e imperecedera.
  • Diferenciação do ser da alma em relação ao corpo corruptível e a necessidade de distinção frente à segunda Hipóstase.
  • Inspiração no Timeu para a aplicação de uma subdivisão dicotômica dos graus de ser estabelecidos por Platão.
  • Estabelecimento de uma escala de quatro grados de ser mediante uma dupla bipartição que contra-distingue este tratado de IV 7 e IV 1.
  • Exclusão do Uno-Bem como supra-ser e da matéria como infra-ser na perspectiva desta divisão quatripartita.
  • Adoção do critério de divisão quantitativa para definir a Inteligência como absolutamente indivisa, ainda que considerada uni-múltipla.
  • Equiparação da fórmula do Timeu indivisa e dividida com a expressão uma e múltipla presente no Parmênides.
  • Ordenação descendente dos quatro graus na recapitulação final: o Ser supremo ou Inteligência é somente uno e absolutamente indiviso.
  • Caracterização da alma como uma e múltipla por ser primariamente indivisa e secundariamente divisível.
  • Definição das qualidades somáticas como múltiplas e umas, sendo primariamente divisíveis e secundariamente indivisas.
  • Classificação dos corpos como somente múltiplos em razão de sua divisibilidade absoluta.