BP
BCG57
Simplificando o tema do presente tratado, desde o início da segunda etapa (Vida 5, 18), podemos dizer que nele se cumpre o ditado de que os extremos se tocam. A matéria, último grau da realidade existente, coincide com as três Hipóstases transcendentais nas quais é «incorpórea» e, por sê-lo, é também, como elas, «impassível». Mas, embora o título do tratado aluda à impassibilidade das coisas incorpóreas em geral, a discussão do autor centra-se, na verdade, em apenas dois casos: a alma humana e a matéria do mundo sensível. A razão é óbvia: ninguém questionaria a impassibilidade das Hipóstases divinas; pelo contrário, a impassibilidade da alma humana e da matéria poderia ser questionada, e de fato era1. Daí as duas seções paralelas que o autor dedica a demonstrar, na primeira, a impassibilidade da alma humana e, na segunda e mais longa, a da matéria (capítulos 1-5 e 6-19, respectivamente). Ao mesmo tempo, o paralelismo entre a alma e a matéria não deve nos desorientar, como aconteceria se deixássemos passar despercebida a outra face: a diferença entre ambas no que diz respeito à impassibilidade. É verdade que a matéria é «incorpórea», mas o é «de outro modo» (6, 3-4) e por outro título: por ser «infracorpórea», ao contrário da alma, que é «supracorpórea». Por isso mesmo, embora ambas sejam impassíveis por serem incorpóreas, o são de modo distinto²: a alma é ativamente impassível; a matéria, por outro lado, passivamente impassível; impassível, mas «omnipasiva»³. Ao tratar da impassibilidade da alma humana, Plotino distingue nela dois níveis: a parte superior e a chamada «parte afetiva» ou «passional»4. Para a demonstração da impassibilidade da parte superior, nosso autor inspira-se, em grande medida, na distinção aristotélica entre o pathos perfectivo e preservativo e o destrutivo5; para a impassibilidade da parte afetiva, em sua própria análise da gênese e natureza das paixões⁶; e, finalmente, para a relativa à matéria, em sua própria concepção da mesma à luz da razão e em uma exegese profunda dos textos do Timeu platônico⁷.
APE
Este tratado é o nº 26 na ordem cronológica de Porfírio e, portanto, precede imediatamente o grande tratado Sobre os Problemas da Alma (dividido por Porfírio em duas partes, IV. 3 [27] e IV. 4 [28]). Parece que, nessa época, Plotino estava muito interessado em questões de psicologia e, na primeira parte do tratado (capítulos 1-5), ele se propõe a demonstrar que a alma não está sujeita a afetos ou modificações. Na segunda parte (capítulos 6-19), ele passa a considerar um tipo muito diferente de impassibilidade: a da matéria. À primeira vista, as duas partes do tratado parecem ter pouca conexão entre si. Mas não há dúvida de que o próprio Plotino as compôs como partes de uma única obra, já que ele faz referência à primeira parte na segunda (9. 6). E há mais conexão entre elas do que pode parecer à primeira vista. O que mais preocupa Plotino neste tratado é elaborar e expor as implicações da incorporeidade, a fim de excluir da filosofia formas de falar e pensar sobre coisas incorpóreas como sujeitas a impressões, modificações ou contaminações que, na verdade, implicam que elas são corpóreas (como o Deus e a alma estóicos). E a matéria, tanto para os platônicos quanto para os aristotélicos, é, evidentemente, incorpórea. Na primeira parte, onde Plotino se preocupa em mostrar que a alma é impassível por ser incorpórea, ele consegue utilizar ideias aristotélicas para combater o corporeísmo estoico. Mas na segunda parte ele difere nitidamente de Aristóteles e vai, tanto quanto podemos perceber, muito além de quaisquer platônicos anteriores (e certamente além de sua própria discussão anterior sobre a matéria em II. 4 [12]) em sua afirmação de que a matéria é absolutamente impassível no sentido de que não é afetada, modificada ou alterada de forma alguma pelas formas que nela entram, as quais são, segundo ele, meros fantasmas de forma, impotentes para agir sobre ela. Aqui, novamente, há uma conexão de pensamento com a primeira parte do tratado. A afirmação de Plotino sobre a impassibilidade da alma incorpórea é parte essencial de sua afirmação geral sobre a primazia e a independência radical da alma, sua insistência de que ela é a única responsável pela realidade tal como existe neste mundo, e está sempre ativa nos corpos, nunca passiva em relação a eles nem afetada por eles; isso é fundamental para toda a sua maneira de pensar sobre o homem e como ele deve viver. E a apresentação da matéria como radicalmente impassível, totalmente imune à forma, traz consigo o inverso: que a matéria é totalmente impotente para, de qualquer forma, afetar ou capturar a forma. E a imagem do mundo físico como um mundo de fantasmas no vácuo, onde fantasmas de forma voam para dentro e para fora como reflexos em um espelho inexistente, serve para enfatizar sua incapacidade de afetar a alma de qualquer maneira. (Alma e matéria são várias vezes comparadas e contrastadas na segunda parte do tratado.) Alguns leitores podem sentir, ao chegarem ao fim do tratado, que Plotino tornou a matéria não apenas impassível, mas impossível; isto é, que sua eliminação até mesmo da ideia de potência positiva deixou o conceito sem qualquer conteúdo, tornou a “matéria” apenas uma palavra sem sentido. Mas não apenas neste tratado, mas até o fim de sua vida (ver o tratado Sobre o que são e de onde vêm os males I. 8 [51]), ele insiste na necessidade de postular a matéria, principalmente para que, por sua negatividade absoluta e total incapacidade de receber qualquer grau de bem, ela possa fornecer uma explicação para o mal.
LPE
Este tratado procura explicar como a alma, enquanto realidade incorpórea, não é afetada pelo físico, sem, ao mesmo tempo, excluir a noção de que ela pode sofrer mudanças no sentido moral e espiritual. A segunda parte do tratado apresenta um tipo de impassibilidade completamente diferente: a da matéria, que também é incorpórea, mas de uma forma bem distinta da alma.