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BCG57
Já havíamos observado na introdução ao III 1 que, dos três fatores que ali concorriam como causas concomitantes das coisas e dos eventos do cosmos — a Alma do universo, a alma individual e a fatalidade —, o primeiro deles permanecia bastante obscuro nesse tratado inicial. Em contrapartida, todo o interesse deste magnífico tratado Sobre a providência, dividido — e mal dividido¹ — em dois livros na edição de Porfírio, concentra-se precisamente na atividade providencial da Alma do cosmos e em sua relação com as outras duas causas concomitantes. Vista como propriedade imanente ao cosmos, a providência consiste na conformidade deste com a Inteligência², para o que é necessário, em primeiro lugar, que todas e cada uma das coisas do mundo estejam bem dispostas e, em segundo lugar, que o conjunto de todas elas esteja perfeitamente coordenado. Por isso, considerada em sentido estrito como atividade da Alma, a providência compreende duas grandes operações: uma de «diordenação» (diátaxis) de todas as coisas consideradas individualmente, e outra de «coordenação» (sýntaxis) do conjunto de todas elas, incluindo as que não são causadas diretamente pela providência, mas pelas outras duas concausas. Ora, embora ambas as operações apareçam descritas de forma entrelaçada ao longo de III 2-3, não é menos verdade que, se nos orientarmos pelos pontos tratados e ainda pelo vocabulário empregado, o tema dominante de III 2, 4-14 (após a introdução dos três primeiros capítulos) é o da “diordenação”, e o tema dominante em III 2, 15-18 e III 3 é o da «coordenação». Por isso, ao dividir o tratado em dois livros, o segundo deveria ter começado em III 2, 15, 1, que é precisamente o ponto de transição do tema da “boa disposição” das coisas consideradas individualmente para o de seu “entrelaçamento” (symplokḗ)3. Tanto a «diordenação» quanto a «coordenação» são operações da Alma concebida como Logos em seus dois níveis: o superior e o inferior4. Por isso, Plotino distingue, de modo correspondente, na «providência total» dois níveis, um superior e outro inferior, constituídos por dois Logoi5. É importante perceber que o Logos cuja gênese e natureza são descritas detalhadamente em III 2, 16, nada mais é do que o Logos da Alma inferior, ou seja, o componente inferior da providência total e não o Logos total nem o constitutivo da providência total⁶, já que tanto a «diordenação» quanto a «coordenação» pressupõem uma sabedoria maravilhosa e uma presciência que não se dão na Alma inferior, mas sim na superior⁷. A proeminência dada ao Logos da Alma inferior em III 2-3 deve-se precisamente, embora pareça paradoxal, ao fato de ele ser inferior. Esclareçamos este ponto: Plotino aplica à constituição dos graus de realidade inferiores ao Um-Bem uma concepção quase-hilomórfica inspirada em Aristóteles8. A Inteligência autosustentável consiste em Matéria e Forma inteligíveis9. A Alma superior consiste em uma matéria psíquica e no Logos primário como princípio formal10. Por sua vez, a Alma inferior é constituída pela vida como matéria e por um Logos de segunda ordem como forma11. Por fim, o mundo sensível é um composto sui generis de matéria como substrato e da soma dos Logoi de terceira ordem como forma12. O princípio dominante na concepção dessa gradação escalonada, ao mesmo tempo que quase-hilomórfica, é o da degradação progressiva da realidade13, princípio no qual Plotino insiste no presente tratado14. Daí a proeminência do Logos da Alma inferior em III 2-3, porque, precisamente por ser inferior, é a causa próxima, ao mesmo tempo que justificativa, do cosmos como composto multiforme e integrado por elementos díspares e até contrários. A análise anterior nos serve, além disso, para precisar a relação existente entre a Alma, a providência e o Logos: o Logos superior ou inferior é o princípio formal constitutivo, respectivamente, da Alma superior ou inferior. É o ato da Alma perfeita em ato; é para a Alma em ato o que a Forma é para a Inteligência autosubsistente em ato. De acordo com isso, pode-se dizer que, de certa forma, o Logos é distinto da Alma e está na Alma; mas precisamente porque o Logos é o princípio formal da Alma, também se pode dizer que a Alma é seu Logos ou que o Logos é Alma. Os dois pontos de vista são igualmente legítimos15. Por outro lado, a providência é a atividade da Alma em ato orientada para o cosmos; por isso, a providência se identifica com o Logos da Alma; e por isso, também, a providência total, assim como a Alma total e o Logos total, existe em dois níveis, um superior e outro inferior. Finalmente, como a Inteligência não é Logos, mas é o princípio do Logos16, também não é, estritamente falando, providência, mas é o princípio da providência17. Cronologicamente, o tratado Sobre a providência pertence ao terceiro período (Vida 6, 7-10) e segue imediatamente após I 4, Sobre a felicidade, com o qual apresenta não poucas afinidades. Plotino inspira-se, antes de tudo, no Timeu e nas Leis de Platão e, em grande medida também, nos estoicos18. Os adversários que ele tem em mente são os epicuristas e os gnósticos, bem como os estoicos, na medida em que estes identificavam a providência com a fatalidade.
APE
Esses tratados (n.º 47 e 48 na ordem cronológica) são as divisões feitas por Porfírio de uma única obra extensa sobre a Providência, escrita por Plotino no final de sua vida. O tema era tradicional: muitos estoicos e platônicos do período intermediário já haviam escrito sobre a Providência antes dele; mas essa obra austera, honesta e profunda é a melhor de todas as contribuições gregas à teodiceia. O objetivo de Plotino é explicar como a crença na existência e na bondade da providência divina pode ser justificada diante de todos os males aparentes no mundo: os oponentes que ele tem em vista são os epicuristas, que negavam a providência; os peripatéticos, que negavam que ela se estendesse ao mundo abaixo da lua; e talvez, acima de tudo, seus inimigos íntimos, os gnósticos, que sustentavam que o universo material era obra de um criador maligno. Muitos dos argumentos que ele utiliza são tradicionais, herdados dos estoicos ou desenvolvidos a partir da grande teodiceia de Platão no Livro X das Leis (cf. a introdução de Bréhier aos tratados). Mas há muito de original em seu uso e elaboração desses argumentos. A obra não é sistemática: temas e argumentos se repetem e são tratados de maneiras diferentes a partir de pontos de vista distintos, nem sempre sem alguma inconsistência. É uma das obras em que temos a impressão mais vívida de Plotino pensando em voz alta, discutindo o assunto consigo mesmo enquanto escreve.
Uma característica notável da obra é que Plotino fala nela, e somente nela, de um logos, um princípio formador racional, de todo o universo, que à primeira vista parece uma hipóstase distinta, incompatível com a hierarquia normal de três e apenas três — o Um, o Intelecto e a Alma —, na qual ele insiste tão fortemente em outros lugares. Mas Brehier, em sua introdução (pp. 18-22), está quase certamente certo ao entender o logos aqui, não como uma hipóstase distinta, mas como uma forma de se referir ao padrão formativo e diretivo vivo, derivado do Intelecto por meio da Alma da maneira usual, que mantém o universo material na melhor ordem possível e o leva a uma unidade na diversidade de forças contrastantes e conflitantes que, embora muito inferior à unidade do mundo inteligível, é sua melhor imagem possível no mundo nitidamente dividido do espaço e do tempo.
LPE
Originalmente um único tratado, o 3.2–3 foi dividido por Porfírio para se adequar ao seu esquema de enéadas (conjuntos de nove tratados). Fruto do pensamento maduro de Plotino, ele levanta a questão da providência divina. Plotino tenta, sob diversos ângulos, demonstrar a bondade relativa do universo físico e explicar como tanto o mal natural quanto o humano podem ser conciliados com a providência, que assegura que o mundo reflita, embora de maneira necessariamente inferior, seu arquétipo inteligível. Isso leva Plotino a desenvolver aqui, de forma mais extensa do que em qualquer outro lugar, o conceito de λόγος (“princípio expresso”) como o veículo dinâmico da devolução ordenada do Intelecto, passando pela Alma, até o mundo físico.