BP
BCG57
Neste tratado do último período, o antepenúltimo na ordem cronológica (Vida 6, 20), Plotino retoma um tema de grande atualidade no mundo antigo e já abordado por ele em dois tratados anteriores: a astrologia[1]. Na astrologia antiga, é possível distinguir três componentes[2]: um componente científico, constituído pela astronomia então em voga, que era a tolemaica; um componente filosófico, baseado na simpatia cósmica ou «conspiração unitária» dos estoicos, e um componente mitológico, que atribuía aos astros um complicado sistema de relações entre si e com o mundo sublunar, no qual entravam em jogo o sexo, o temperamento, o caráter e as afinias e fobias de cada astro, e, no que diz respeito aos planetas, seus caprichos e humores mutáveis em função de sua passagem por cada signo do zodíaco, de suas fases dentro de sua própria órbita, de sua “casa” ou morada favorita de cada um e de seus “aspectos”, ou configurações poligonais que formavam uns com os outros. Desses três componentes, Plotino, que não era especialista em astronomia, mas dedicou muita atenção à astrologia (Vida 15, 21-26), admite o sistema tolemaico sem questioná-lo; aceita, embora com reservas, a simpatia cósmica do estoicismo, e rejeita categoricamente a tabulação mitológica dos astrólogos como contrária aos próprios dados da astronomia científica, como indigna da divindade e imutabilidade dos astros e como oposta à subordinação universal do mundo sensível ao princípio do fim. A posição adotada por Plotino neste tratado, assim como nos anteriores, baseia-se, no que diz respeito à astrologia, em quatro distinções fundamentais: 1) Distinção entre presságio e influência. Os astros pressagiam o futuro, mas sua influência é muito restrita. 2) Distinção entre as partes e o todo: a influência astral afeta ou pode afetar as partes enquanto partes, mas não altera a perfeição do conjunto. 3) Distinção no homem, nos astros e no cosmos, entre o composto psicossomático e o eu transcendente, imune às influências emitidas pelos astros e alheio a elas. 4) Distinção, enfim, entre Fatalidade e Providência: a Fatalidade tem seu campo de ação no mundo sublunar, nas partes enquanto partes e nos compostos psicossomáticos. Mas Plotino rejeita o determinismo universal; o mundo em seu conjunto é regido pela Providência de uma Alma sábia e transcendente, que governa o cosmos por meio de um sistema de «razões» (lógoi) derivadas da Inteligência e retifica os desequilíbrios provocados por interferências da matéria ou pela perversidade de algumas almas individuais[3].
APE
Este tratado tardio (n.º 52 na ordem cronológica de Porfírio) retoma e desenvolve as objeções às ideias dos astrólogos sobre as estrelas “que Plotino já havia apresentado na obra inicial Sobre o Destino (III. 1: n.º 3 na ordem cronológica)”. Plotino não nega que as estrelas prevejam o futuro, nem mesmo que as influências provenientes delas possam contribuir de forma limitada para nossa sorte e constituição física. Ele considera os astrólogos questionáveis porque: (1) eles tornam as estrelas malignas e causas do mal para nós; (2) eles as tornam mutáveis, variando em humor e atividade de acordo com seu aspecto e posição, uma visão que Plotino demonstra ser anticientífica, incompatível com as descobertas dos astrônomos, bem como heterodoxa do ponto de vista da teologia astral platônica; (3) reduzem o universo a um caos desordenado ao fazer as estrelas agirem de forma independente e caprichosa, em vez de vê-lo como um todo orgânico vivo no qual os movimentos e influências das estrelas, assim como tudo o mais, fazem parte do padrão de sua direção racional pela Alma Universal; (4) exageram muito o grau em que as estrelas são responsáveis por nossa constituição física e nosso destino; as influências estelares são apenas um tipo de causa entre muitos, e não a mais importante. Além disso, Plotino sustenta neste, como em outros tratados (notadamente aquele que escreveu em seguida, I. 1), que nosso verdadeiro eu superior transcende o universo físico e está além do alcance de sua necessidade.
Um pequeno problema curioso é apresentado pela seção impressa entre colchetes no cap. 12 (se realmente pertence a este tratado, caberia melhor onde a tradução de Ficino e a editio princeps de Perna a colocam, imediatamente antes da última frase do cap. 5). Isso parece ser mais favorável às visões dos astrólogos do que o restante do tratado, e até mesmo tentar responder às objeções científicas levantadas contra eles no cap. 5, embora expresse a visão do universo como um todo orgânico que se encontra em outras partes do tratado e é sempre adotada por Plotino. Parece quase como se fosse um fragmento de um ensaio escrito por um membro da escola em defesa da astrologia, um pouco como os artigos escritos por Porfírio em defesa da doutrina de Longino e respondidos por Amélio, mencionados no cap. 18 da Vida. Mas, se fosse realmente isso, seria muito difícil explicar como ele entrou no texto deste tratado — não há paralelo em nenhum outro lugar nas Enéadas.
LPE
É provável que Porfírio tivesse este tratado em mente quando, em sua *Vida de Plotino* (§15), relatou que Plotino investigou a teoria e os métodos dos astrólogos contemporâneos — embora não de forma matematicamente rigorosa — e concluiu que suas práticas e crenças apresentavam sérias falhas. No entanto, esse breve relato é potencialmente muito enganador. Plotino é de fato muito crítico em relação às crenças astrológicas, tanto neste tratado quanto em outras partes das Enéadas, mas está longe de rejeitar a astrologia tout court como uma pseudociência (cf. 2.9.13; 3.1.5–6; 3.2.10.12–19; 3.4.6; 4.3.12.21–30; 4.4.31.10–16; 4.4.33–35 e 38–39). Como vemos neste tratado, Plotino não apenas aceita que as estrelas e os planetas possam sinalizar eventos futuros, como também admite que eles desempenham um papel causal significativo nos acontecimentos sublunares. Sua crítica aos astrólogos contemporâneos é direcionada à forma e ao alcance dessa influência astrológica, bem como às suas implicações para a liberdade e a responsabilidade humanas. Plotino quer mostrar que, quando compreendida corretamente, a astrologia é compatível tanto com a responsabilidade humana quanto com a divindade e a bondade das estrelas e do universo.