Plotino alinha-se decididamente com os defensores da eternidade do cosmos no sentido de duração no tempo sem início nem fim. Até aqui, ele coincide com Aristóteles frente aos platônicos conservadores como Plutarco e Ático, que originavam o mundo no tempo, e frente aos estoicos, que o reeditavam indefinidamente. Ele também concorda com o estagirita em distinguir duas zonas cósmicas: a celeste e a sublunar e, correspondentemente, dois tipos de perpetuidade: aquela que envolve identidade numérica, própria do céu e dos astros, e aquela que envolve mera identidade de forma ou específica. O principal interesse deste tratado da segunda etapa (Vida 5, 47) centra-se na fundamentação do primeiro tipo de perpetuidade. Aristóteles havia explicado isso recorrendo ao seu famoso “quinto corpo” ou “quinta essência”, a matéria incorruptível dos astros. Plotino rejeita essa explicação e estabelece, por sua vez, duas causas conjuntas: como causa principal, a alma do céu, que é excelentíssima, e, como causa subordinada, o corpo do céu, que, embora corruptível em si mesmo, é incorruptível de fato porque consiste apenas em fogo e porque o fogo de que consiste é de qualidade excepcional: brilha, mas não arde, nem se desgasta, nem é vulnerável, nem queima combustível, pelo que a sua diferença em relação ao «quinto corpo» de Aristóteles é menor do que parece à primeira vista. Plotino deduz essa teoria do Timeu platônico por meio de uma exegese engenhosa, mas não pouco forçada, de alguns textos[1].
I. PROBLEMA. — O cosmos existe sem começo nem fim. Por quê? (1, 1-2).
II. DUAS EXPLICAÇÕES INSUFICIENTES (1, 2-31).
1. A vontade de Deus: não esclarece o problema e explica, no máximo, a perpetuidade específica; não, simplesmente, a numérica do céu (1, 2-12).
2. A ausência de agentes destrutivos externos: basta para explicar a perpetuidade específica, mas não a numérica do céu (1, 12-31).
III. PLANO PARA UMA EXPLICAÇÃO SATISFATÓRIA (1, 31-2, 28). — É preciso:
1. Mostrar se a vontade divina é suficiente para explicar a perpetuidade (1, 31-37).
2. Justificar a diferença entre o céu e o mundo sublunar (1, 37-40).
3. Admitir com Platão a corrupção intrínseca do corpo do céu (2, 1-12).
4. Rejeitar o “quinto corpo” de Aristóteles (2, 12-17).
5. Dar primazia à alma, mas mostrar ao mesmo tempo a idoneidade do corpo do cosmos (2, 17-28).
IV. CAUSAS DA IMORTALIDADE DO COSMOS (cap. 3-4).
1. O corpo do cosmos flui dentro de si mesmo (3, 1-5)
2. As massas cósmicas são fundamentalmente permanentes, embora reste saber se há desgaste e combustão no céu (3, 54, 13).
3. A alma mantém a coesão do universo (4, 14-25).
4. A existência sem início garante a duração sem fim (4, 25-33).
V. CAUSAS DA PERPETUIDADE NUMÉRICA DO CÉU (cap. 5-8).
1. Causa principal: a alma celeste, que é excelentíssima (cap. 5).
2. Causa subordinada: o corpo do céu, porque (a) contém apenas fogo, como se vê à luz da razão e do Timeu (6, 1-7, 33), e (b) porque esse fogo é excepcional: luz que brilha, mas não queima (7, 33-49), nem se desgasta (8, 14), nem é vulnerável (8, 4-15), nem é instável (8, 15-19), nem queima combustível (8, 19-28).