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* O primeiro tratado de Plotino, intitulado Sobre o belo, não é um tratado de estética no sentido contemporâneo, mas uma introdução geral à filosofia platônica que Plotino busca ensinar, e à atitude psicológica que ela implica.
Este famoso tratado é um dos que melhor ilustram como Plotino utiliza os diálogos platônicos, introduzindo entre eles uma ordem sistemática; toda a série de questões sobre o Belo, que abre o tratado, provém do Hipias Maior. Segundo Plotino, são as questões do Hipias que encontram sua solução no Banquete e no Fedro, como ele demonstra a partir do capítulo IV. Mas, antes de abordar essa solução, Plotino encontra primeiro a teoria estoica do Belo, que, partindo da beleza plástica, a de uma estátua, e definindo a beleza pela simetria, assimilava completamente a beleza intelectual à beleza sensível; e ele a critica, porque ela se recusa a admitir, entre as diversas ordens de beleza, essa hierarquia ascendente que constitui o cerne da doutrina platônica. A partir do capítulo II, ele toma como guia o discurso de Diotima no Banquete, passando da beleza sensível para a beleza das almas, e desta para o Belo em si. Mas, sobre a beleza dos corpos, ele encontra em Platão apenas indicações bastante vagas; sem dúvida, ele vê ali que a beleza sensível provém da participação numa ideia, e que a alma reconhece e ama essa beleza porque se lembra das ideias; mas a participação equivale à informação da matéria pela forma; e essa já não é a linguagem de Platão, mas de Aristóteles, pela qual Plotino, em toda essa parte, é visivelmente seduzido, como em todos os casos em que um neoplatônico tem de tratar das coisas sensíveis. Quando passa a falar das belezas não sensíveis, ele recorre ao Fedro e ao Banquete. Ainda assim, é preciso notar que ele mistura intimamente, como se vê no capítulo V e no final do capítulo IX, ideias morais emprestadas do Fedão e do Teeteto sobre a virtude da purificação e sobre a fuga do mundo sensível, ideias que, nos diálogos platônicos, estão longe de estar tão intimamente unidas à dialética do amor. Por fim, uma última interpretação, alheia ao platonismo original: o Belo, termo da ascensão da alma no Banquete, é identificado com o mundo das Ideias; além disso, está subordinado ao Bem, que se torna o termo último do amor. Esse é o resultado de um longo esforço, iniciado sem dúvida muito antes de Plotino, para introduzir uma coerência doutrinária no conjunto dos diálogos de Platão.
O objetivo deste livro é mostrar como, através da contemplação do Belo, é possível, ao purificar a alma e separá-la do corpo, elevar-se do mundo sensível ao mundo inteligível e contemplar o Bem, que é o princípio do Belo.
(§ I-III) A beleza não consiste na proporção nem na simetria, como ensinam os estoicos, mas na ideia, na forma ou na razão. Um corpo é belo quando participa de uma ideia, quando recebe do mundo inteligível uma forma e uma razão, quando as partes que o compõem são reunidas em unidade. Ao contemplar esse corpo, a alma reconhece a imagem visível da forma invisível que ela porta em si mesma e experimenta um sentimento de simpatia pela beleza que impressiona seus sentidos.
(IV-VI) Acima dos objetos sensíveis, que só são belos por participação, existem os objetos inteligíveis, que são belos por si mesmos: tais são a virtude e a ciência, cuja contemplação inspira sentimentos de amor e admiração. Isso porque, pelo vício e pela ignorância, a alma se afasta de sua essência e cai no lodo da matéria, enquanto, pela virtude e pela ciência, ela se purifica das manchas que havia contraído em sua união com o corpo, e se eleva à inteligência divina, da qual deriva toda a sua beleza.
(VII-IX) Ao examinar a que princípio cada ser deve a forma que constitui sua beleza, remonta-se do corpo à alma, da alma à Inteligência divina e da Inteligência divina ao Bem. De fato, é para o Bem que tudo aspira, é do Bem que tudo depende, que tudo recebe a vida e o pensamento; é ele que, embora permaneça imóvel em si mesmo, faz com que os seres que o contemplam participem de sua perfeição. Para ter a intuição dessa Beleza inefável, diante da qual todos os bens da terra não são nada, é preciso desviar nosso olhar das coisas sensíveis, que oferecem apenas pálidas imagens das essências inteligíveis, e retornar à região onde habita nosso Pai. Para alcançar esse objetivo, devemos voltar para dentro de nós mesmos, purificar nossa alma pela virtude e adorná-la pela ciência; depois, após termos tornado nossa alma semelhante ao objeto que ela aspira contemplar, elevar-nos à Inteligência divina, na qual residem as ideias ou formas inteligíveis: então, acima da Inteligência divina, encontraremos o Bem, que faz irradiar ao seu redor a Beleza soberana.
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Nesta obra, a primeira composta por Plotino (Vida 4, 22), a mais traduzida e a mais divulgada, os dois temas fundamentais da filosofia plotiniana — a metafísica e a mística — se entrelaçam de maneira característica. A identificação decidida da beleza com a forma marca uma revolução na história da estética e permite ao seu autor estabelecer a seguinte gradação: a beleza sensível identifica-se com uma forma imanente; a da alma, com uma forma transcendente, mas secundária; a própria da Inteligência, com a Forma transcendente e primária, enquanto o Bem, como princípio da forma, é também princípio da beleza, mas não é, estritamente, a Beleza. Ora, o que prometia ser uma dissertação metafísica transforma-se de repente, a partir do cap. 7, em uma exortação apaixonada à união mística pela via da beleza, deixada a meio no I 3. Plotino se inspira profundamente nos diálogos mais místicos de Platão (O Banquete, o Fedão, A República e o Fedro), mas difere de seu mestre pela maior «nitidez» com que distingue o Bem da Beleza e pela maior ênfase com que recomenda o caminho da interioridade[1].
LPE
Este tratado é o primeiro na ordem cronológica das Enéadas estabelecida por Porfírio. Embora a obra tenha servido frequentemente como uma introdução relativamente acessível ao complexo pensamento sistemático de Plotino, não há motivos para acreditar que Plotino a tenha concebido com esse propósito. A obra centra-se na natureza da beleza física e na sua relação com a beleza moral e intelectual. Baseia-se fortemente na interpretação que Plotino faz do Simpósio e do Fédro de Platão. O Tratado 5.8 (31), “Sobre a Beleza Inteligível”, apresenta um argumento complementar. Um tema central desta obra é a inseparabilidade das considerações estéticas e éticas. A beleza é aqui apresentada como manifestações hierarquicamente ordenadas de uma propriedade da realidade inteligível, a saber, sua atratividade para nós.