A ideia fundamental retomada de
Platão é que a virtude é uma katharsis, uma “purificação” da alma, por meio da qual
Plotino concebe o processo de assimilação ao divino e seu cumprimento até o termo da démarche ética.
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Essa katharsis apresenta dois aspectos inseparáveis: um aspecto negativo, consistindo num processo de desprendimento (aphairesis) das realidades corporais, e um aspecto positivo, consistindo no retorno (epistréphein) da alma ao seu princípio, o Intelecto.
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Pelo primeiro aspecto, a alma se desprende de opiniões e afetos ligados à vida no mundo sensível, aos temores e desejos sempre cambiantes do corpo; a virtude é então um processo de despojamento que não traz à alma nenhum bem novo, mas a libera do que a sobrecarrega e a desvia de sua verdadeira natureza.
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Pelo segundo aspecto, a alma se volta para o Intelecto, reconhecendo nele sua origem e o princípio de sua verdadeira identidade; esse movimento produz nela uma iluminação proveniente dos vestígios do inteligível que ela contém, vestígios que haviam sido esquecidos ou permaneciam encobertos enquanto a alma estava absorvida pelos cuidados do corpo, mas que reaparecem quando ela se volta para o Intelecto, num movimento chamado epistrophe.
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Nesse estágio, as virtudes não consistem mais em impor medida às paixões, mas em suprimi-las completamente, reencontrando-se o ideal de impassibilidade (apatheia) desenvolvido também pelos estoicos; mas aqui a impassibilidade não é um fim em si: numa perspectiva platônica, é a contemplação do inteligível pela alma que dá sentido à démarche ética e constitui verdadeiramente seu fim.
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A assimilação ao divino pode então se cumprir plenamente, a alma restabelece-se em sua verdadeira natureza, que é divina, e
Plotino não hesita em dizer que o homem virtuoso tornou-se “pura e simplesmente um deus”.
Igal
Cronologicamente, este tratado pertence ao grupo dos vinte e um primeiros que Porfírio encontrou escritos na época de sua chegada a Roma, no verão de 263 d.C. (Vida 4). Uma vez assegurado o autoconhecimento pelo tratado anterior (I 1), é urgente «fugir daqui», como havia dito Platão, e empreender a marcha ascendente que reconduzirá a alma não ainda à meta final, mas sim à sua semelhança com Deus e à recuperação de seu verdadeiro eu pela virtude. Essa marcha compreende três etapas: 1) controle dos apetites e paixões da parte animal por meio da implantação das virtudes cívicas; 2) purificação da alma, tanto da parte superior quanto da inferior, até alcançar um estado de perfeita pureza por meio de sua separação afetiva do corpo; 3) iluminação, por meio da reminiscência, dos inteligíveis latentes na alma; conversão da alma à Inteligência e, como culminação, contemplação das impressões do mundo inteligível. Nesta contemplação consiste a virtude superior. Plotino extraiu dos diálogos de Platão a distinção entre dois graus de virtude. Porfírio, por sua vez, extrairia do presente tratado sua famosa e, com o tempo, clássica divisão quatripartida das virtudes em cívicas, purificativas, contemplativas e paradigmáticas (PORFÍRIO, Sententiae ad intelligibilia ducentes, cap. 32)[1].