Natureza mortal e humana

HLADKÝ, Vojtěch. The philosophy of Gemistos Plethon: Platonism in late Byzantium, between Hellenism and orthodoxy. Farnham: Ashgate, 2014.

A Alma e a Situação Humana

Os demônios são a realidade mais baixa que não perece e possui ser eterno — definição plethoniana de divindade —, ao passo que os humanos, por causa do corpo mortal, não pertencem aos deuses; contudo, a natureza humana é dupla, composta de corpo e alma imortal, o que torna o homem parcialmente uma criatura divina.

A posição do homem é análoga à do Sol, que também é fronteira (horos) e vínculo (syndésmos) entre o mundo inteligível e o sensível; a alma, tendo a função específica de fronteira entre a parte mortal e a imortal do cosmos, deve ser eterna e passar por reencarnações sucessivas.

No comentário ao Oráculo Mágico XIV, Plethon expõe como a união de natureza mortal e imortal é possível, baseando-se nos pitagóricos e platônicos, que concebem a alma humana como nem totalmente separada de todo corpo nem totalmente inseparável.

A alma é permanentemente conectada ao corpo etéreo como seu veículo — doutrina elaborada pelos neoplatônicos em diversas formas.

A alma humana divide-se em duas partes: a racional (responsável pelo pensamento) e a não racional, que é a “imagem” da racional e é responsável pela imaginação, percepção e demais faculdades não racionais.

Plethon argumenta nas Leis que, se existissem outros seres mortais também dotados de razão, isso criaria dificuldades, pois haveria mais fronteiras análogas à humana; examina os animais que agem segundo a razão — como abelhas, formigas e aranhas — e conclui que não usam pensamento próprio.

Outra função da alma do mundo é a medição e diferenciação do tempo do universo: “o tempo começa a partir da alma que governa este universo”, sendo definido em termos platônicos como “imagem da eternidade” (eikon aionos).

Destino e Liberdade

A filosofia de Plethon é notoriamente famosa por seu determinismo; nas Diferenças, dois axiomas são apresentados como pressupostos pelo determinismo universal: “tudo que ocorre deve necessariamente ocorrer a partir de alguma causa” e “toda causa deve produzir qualquer efeito que tenha de modo necessário e determinado”.

Nas Leis, Plethon argumenta que todos os eventos futuros são determinados pelo destino, pois, caso contrário, ou seriam sem causa ou sua causa não os produziria de modo necessário e determinado — ambas as hipóteses impossíveis.

O determinismo universal de Plethon é possível porque a matéria não é um princípio independente, mas deriva diretamente de sua Forma inteligível, Hera; nesse tipo de metafísica, a causalidade descendente do primeiro princípio estabelece um determinismo universal no qual tudo tem sua causa específica.

A questão da liberdade humana e da justiça divina sob o determinismo é discutida extensamente: Plethon refuta a objeção de que, se tudo é determinado, os humanos não seriam senhores de si mesmos, argumentando que o que governa os humanos é a “parte prudente” (to phronoun) em cada um.

Plethon rejeita a definição de liberdade como oposta à necessidade: a necessidade não é escravidão, que pressupõe dominação; a “necessidade mais antiga” é idêntica a Zeus, e servir ao bem — idêntico a Zeus — é lucrativo e agradável mesmo para um servo.

Quando os deuses punem as pessoas, desejam apenas corrigir seus erros; o homem não pode deixar de errar porque é composto de natureza divina e perecível.

Ética, Culto e Política

Em On Virtues, Plethon define a virtude como “a disposição segundo a qual somos bons”, acrescentando imediatamente que o único verdadeiramente bom é Deus, e os humanos tornam-se bons seguindo-o tanto quanto é possível ao ser humano.

Cada uma das quatro virtudes gerais divide-se em três virtudes específicas, resultando num sistema de doze virtudes ordenadas em escala crescente de perfeição.

A ética de Plethon é altamente intelectual: para adquirir virtude são necessários boa natureza e contribuição divina, além de compreensão e conhecimento, prática e treinamento.

O preceito ético central das Leis é a assimilação (aphomóiosis) com o mundo divino e a imitação (mímesis) de sua bondade; os humanos imitam o mundo divino eterno pela procriação de filhos, assegurando a sucessão das gerações mortais.

A atividade mais eminente pela qual os humanos se aproximam dos deuses é a contemplação do que realmente existe — as Formas inteligíveis; Plethon identifica o ápice da contemplação com adquirir a noção de Zeus, limite extremo que mesmo os deuses podem alcançar.

O corpo também não deve ser negligenciado: a matéria de que é composto é boa, como tudo criado por Deus; se o corpo parece mau, não é por causa de sua essência, mas por ocupar o último lugar entre todas as essências e, portanto, participar minimamente do bem.

No comentário ao Oráculo I, Plethon descreve a jornada da alma entre a vida e a morte: sendo imortal, ela desce “de cima”, conecta-se à matéria, serve por algum tempo ao corpo mortal animando-o e ordenando-o, e depois parte “daqui para lá”.

O núcleo do culto proposto por Plethon nas Leis consiste em recitar ou cantar alocuções e hinos aos deuses — as alocuções contêm uma teologia racional antes de uma exaltação poética do divino.

O calendário proposto por Plethon é notavelmente racional e regular: meses e anos devem ser fixados “segundo a natureza” — em relação ao movimento da Lua e do Sol respectivamente —, com o início do ano no solstício de inverno e o início de cada mês na lua nova.

A filosofia política ocupa pouco espaço nos escritos de Plethon sobre a filosofia perene; as Leis propõem uma “política ao estilo espartano”, mas com eliminação do rigor excessivo e com adição de filosofia a ser praticada principalmente pelos governantes.