HLADKÝ, Vojtěch. The philosophy of Gemistos Plethon: Platonism in late Byzantium, between Hellenism and orthodoxy. Farnham: Ashgate, 2014.
As Formas partilham de uma semelhança mútua, mas diferem em graus decrescentes de ser, cabendo a cada deus de segunda ordem presidir uma porção maior ou menor do universo.
-
As Formas mais elevadas são ordenadas por um número menor de Formas superiores e exercem efeitos mais amplos no cosmos.
-
As Formas menores são ordenadas por um número maior de Formas superiores e produzem efeitos mais limitados.
-
A divisão principal separa as Formas em dois grupos: as que produzem entidades eternas (gênero legítimo dos Olímpicos) e as que produzem apenas entidades mortais (gênero ilegítimo dos Titãs, habitantes do Tártaro).
Olímpicos
Nos comentários aos Oráculos Mágicos, Plethon denomina a mais elevada das Formas — criada por Zeus como a primeira e presidindo sobre todos os demais deuses supracelestiais — de “segundo deus”, “poder do Pai”, “poder intelectivo do Pai” e “intelecto paterno”.
Nas Leis, Plethon compara a geração das Formas por Zeus à procriação humana, valendo-se da proibição universal do incesto para ilustrar a impossibilidade de o primeiro princípio se misturar com o nível ontológico das Formas.
-
O primeiro princípio utiliza as Formas já criadas como modelo (paradigma), não como princípio feminino com o qual geraria as demais.
-
A mesma separação vale entre as Formas e as coisas do mundo sensível, que jamais se unem para produzir algo novo.
-
Diferentemente da geração humana, na qual pais e filhos existem no mesmo nível ontológico, o produto da criação de Zeus e dos deuses de segunda ordem situa-se sempre um degrau abaixo de seu princípio.
Nas Leis — ao contrário dos Oráculos Mágicos — a Forma mais elevada, deus supremo da segunda ordem entre os Olímpicos, recebe de Plethon o nome de Posêidon, o mais antigo de todos, gerado “sem mãe”, encarregado da liderança dos demais deuses de segunda ordem.
-
Posêidon é descrito como imagem (eikon) de Zeus, semelhante a ele na medida do possível.
-
É ordenado apenas por Zeus e, por sua vez, ordena toda a hierarquia inteligível.
-
Por conter implicitamente em si todas as Formas, Posêidon é a Forma por excelência — não esta ou aquela Forma particular, mas “o próprio gênero das espécies-Formas que contém em unidade e conjuntamente todas as Formas”.
-
É denominado “Forma em si” (autoeidós), “limite em si” (autopéras) e “beleza em si” (autokálon).
-
É chamado de “limite da perfeição de toda geração das coisas”, “pai deste céu” e “segundo criador” (demiurgo deuteros).
-
Está associado ao princípio masculino que confere forma às coisas geradas.
Hera, a Forma que segue imediatamente após Posêidon, é a Forma da matéria, representando a passagem da potencialidade ativa para a passiva no percurso descendente dos níveis de realidade.
-
Assim como Posêidon, Hera é chamada de “mãe sem mãe” (amétôr métér), gerada sem contribuição de um princípio material.
-
Hera contém em si as demais Formas de modo atual, pois não há matéria nem potencialidade na ordem inteligível.
-
Diferentemente de Posêidon, Hera não é causa atual de nenhuma Forma no mundo sensível — é apenas causa da matéria primária mais antiga, que contém todas as Formas em potência, não em ato.
-
É responsável pela produção do corpo (soma) de todas as coisas criadas no mundo sensível.
-
No casal divino supremo de segunda ordem, Posêidon é a Forma da forma (pai segundo) e Hera é a Forma da matéria (mãe); juntos, por sua união, produzem principalmente as coisas eternas do mundo sensível.
A razão para Hera não ser a esposa de Zeus, mas de Posêidon, reside no fato de que o primeiro princípio, por ser supremamente uno, não pode entrar em contato com nada, ao passo que Posêidon, como representante imediato de Zeus no nível das Formas, pode substituí-lo como marido de Hera.
-
Na mitologia grega tradicional, o marido de Hera é sempre Zeus, e Posêidon não possui esposa definida — o que torna a associação mitologicamente possível, embora incomum.
Hera é também o princípio da matemática, pois o número matemático e as grandezas matemáticas estão presentes nela “em modo de unidade”, como em seu princípio.
-
O número, por sua natureza, pode estender-se ao infinito, vinculando-se à matéria.
-
A alma recebe os objetos matemáticos já desenvolvidos, como “sombras e reflexos das coisas divinas”, adequados para elevar os seres humanos ao conhecimento preciso.
-
Os objetos matemáticos ocupam uma posição intermediária entre o mundo sensível e o inteligível — situação análoga à do texto da
República de
Platão.
-
No hino de
Plethon dedicado a Hera, ela é chamada de “sede das formas aqui” (hédre toîs têd' eídessin), designação que remete ao espaço (khôra) do
Timeu de
Platão.
-
Diferentemente do espaço platônico — algo radicalmente distinto do mundo inteligível —, Hera é modelo ideal e fonte da matéria do mundo sensível, derivada diretamente dela.
Sobre os demais deuses de segunda ordem, Plethon distingue, além da divisão entre Olímpicos e Titãs, uma classificação em divindades masculinas (responsáveis pela forma e atividade) e femininas (responsáveis pela matéria e passividade).
O terceiro deus mais elevado é Apolo, doador de identidade (tautótes) no mundo sensível, introduzindo unidade entre coisas mutuamente diferentes e estabelecendo “uma harmonia” no universo de muitas partes.
-
Nas almas, Apolo produz a concórdia, da qual emergem a prudência e a justiça.
-
Para os corpos, é fonte de saúde e beleza.
Ártemis, irmã gêmea de Apolo, é naturalmente a patrona da diferença (heterótes), contendo tudo em unidade e depois distinguindo-o inteiramente na pluralidade das Formas.
-
Ártemis procede do todo às partes e membros.
-
Por separar as almas de seu apego “ao pior” — o corpo —, é invocada para conceder força e temperança aos corpos.
-
Plethon deriva a etimologia do nome Ártemis do último de seus dons: a “solidez” (artemíe).
Após os dois primeiros casais divinos, seguem-se três deuses que formam um grupo independente: Hefesto, patrono do repouso (stásis) e do “permanecer no mesmo”, Dionísio (ou Baco) e Atena.
-
Hefesto confere a tudo “espaço”, “sede” e “eternidade”.
-
Dionísio é o doador do “automovimento” (autokinesia) e do “puxar em direção ao mais perfeito”, sendo chamado de “criador de todas as almas racionais” — celestes, demoníacas e humanas — e causa do “movimento puxado pelo desejo do bem”.
-
Atena representa o “movimento e empurrão causados por coisas diferentes” e a “separação do supérfluo”, administrando e criando “a forma que não está de modo algum separada da matéria”.
-
Os três movimentos — repouso (associado ao permanecer, moné), automovimento (associado ao puxar, holké) e movimento por outras coisas (associado ao empurrar, ôsis) — correspondem aos três momentos constitutivos da metafísica neoplatônica: permanência, processão (próodos) e retorno (epistrophé).
Os sete deuses olímpicos mais elevados nas Leis de Plethon parecem corresponder às distinções ontológicas mais gerais — os “maiores gêneros” (mégista tôn genôn) — tomados dos diálogos Sofista (identidade, diferença, movimento e repouso) e Filebo (o limitado, o ilimitado) de Platão.
-
O
Filebo pode ter inspirado a diferenciação básica de
Plethon entre Posêidon (o limitado, princípio de unidade) e Hera (o ilimitado, princípio de multiplicação), bem como a identificação de Zeus com a causa que mistura esses dois princípios para gerar o ser.
-
No
Filebo,
Platão distingue quatro “gêneros”: o ilimitado, o limitado, a mistura de ambos e a causa dessa mistura — sendo esta última identificada por
Plethon com Zeus.
-
“Na natureza de Zeus há uma alma régia, assim como razão régia, em virtude desta potencialidade manifestada pela causa, enquanto prestam tributo por outras belas qualidades nas outras divindades…” (
Platão,
Filebo 30d).
-
Identidade (Apolo), diferença (Ártemis), repouso (Hefesto) e os dois tipos de movimento (Dionísio e Atena) correspondem a quatro dos cinco maiores gêneros do
Sofista de
Platão; o quinto — o ser — pode ser identificado com Zeus.
-
A distinção entre automovimento e movimento por coisas diferentes remete ao livro X das
Leis de
Platão, onde o automovimento é identificado com a alma como fonte de todo movimento.
-
O hino de
Plethon aos Olímpicos e o título de um capítulo perdido das
Leis — “Sobre os sete deuses mais antigos e os demais deuses supracelestiais” — sugerem que os sete deuses mais elevados de segunda ordem formam um sistema fechado, possivelmente análogo aos sete planetas no cosmos visível.
Os demais deuses olímpicos são, primariamente, fontes das entidades celestes de terceira ordem situadas dentro do cosmos.
-
Atlas administra as estrelas em geral (koinê).
-
Titono, mais especificamente (idia), é encarregado dos planetas.
-
Dione produz as estrelas fixas.
-
Hermes é criador dos demônios terrestres e de “toda a raça divina mais baixa e servidora”.
-
Plutão é o originador da parte imortal e principal da natureza humana — a alma humana — e o soberano do lugar para onde todas as almas retornam após a morte.
-
No hino a Plutão, ele “possui em unidade tudo o que nos aconteceria ou ocorreria de modo dividido”, sendo invocado para “administrar-nos bem também aqui, e sempre ao nos conduzir daqui para cima”.
-
Ao redor de Plutão reúnem-se os heróis, descritos como “a natureza que nos supera” e “nossos bons e virtuosos amigos”.
-
Plutão contém em si, em modo de unidade, todas as Formas dos artefatos humanos — pois “possui todas as coisas humanas presentes em si em modo de unidade” —, de modo que quem fabrica algo “recebe pelo pensamento” o que está presente em Plutão já separado e distinto.
Os deuses olímpicos mais baixos são as divindades dos elementos, representados por deusas por sua proximidade com a matéria passiva, embora as massas elementais como um todo sejam eternas — nem geradas nem perecíveis — e por isso ligadas aos Olímpicos.
-
Reia preside os elementos em geral (koinê).
-
Leto cria o éter — quente e separador (diakritikón).
-
Hécate preside o ar — frio e conector (synektikón).
-
Tétis preside a água — úmida e dissolvente (diárryton).
-
Héstia preside a terra — seca e fixadora (pêktón).
-
Essa lista dos filhos legítimos de Zeus parece ser completa nas
Leis, sem possibilidade de acréscimos.
Titãs (Tártaro)
Após os deuses olímpicos, Plethon coloca os Titãs — filhos ilegítimos de Zeus e Formas inferiores, tão distantes do primeiro princípio que só produzem seres sujeitos à geração e à corrupção.
-
Os dois deuses mais elevados entre os Titãs são Cronos e Afrodite, com papéis análogos aos de Posêidon e Hera entre os Olímpicos.
-
Cronos é o mais antigo dos Titãs, encarregado de sua liderança, e junto com o Sol — o deus mais elevado do mundo sensível — é responsável pela criação de toda a natureza mortal.
-
Cronos confere a forma às coisas mortais, Afrodite lhes confere a matéria.
-
A matéria de Afrodite não é a matéria primária e indestrutível, mas aquela “separada dos corpos mais antigos e dos demais elementos”, que recebe as formas subsistentes nos corpos inteiros — por isso é mortal.
Plethon distingue dois tipos de matéria em sua filosofia: a matéria eterna, produzida por Hera e pelas deusas dos elementos, e a matéria mortal, administrada por Afrodite.
-
A matéria eterna é a matéria primeira (aristotélica) — a mais antiga —, que sofre mudanças durante a criação das coisas sensíveis, mas jamais deixa de existir.
-
A matéria mortal está presente nos corpos compostos de formas e matéria especificada, sendo sempre instável e deixando de existir com a destruição do corpo.
-
A matéria mortal é “separada” (apokrinomené) da matéria primeira indefinida, que admite apenas a determinação primária nos quatro elementos por meio de sua conexão com uma Forma.
-
Plethon descreve Afrodite também como “patrona da eternidade por sucessão nas coisas mortais”, referindo-se ao seu papel em assegurar a sucessão de formas de um indivíduo a outro ao longo das gerações.
Outros Titãs desempenham papéis nas Leis após o casal supremo de Cronos e Afrodite, embora Plethon não enumere todos — pois os Olímpicos, mais próximos de Zeus, são em número menor do que os deuses inferiores, mais distantes do primeiro princípio, que é puramente uno.
-
Pã é patrono da Forma dos animais não racionais.
-
Deméter é patrona da Forma das plantas.
-
Coré é patrona do nosso lado mortal — o corpo humano.
-
Plethon alude ao mito antigo em que Coré (ou Perséfone) é raptada por Plutão — união “concluída sob os mandamentos do pai Zeus” —, estabelecendo uma ligação entre o Olimpo e o Tártaro.
-
O ser humano é assim concebido como a junção de alma e corpo, constituindo uma fronteira entre a parte imortal e a mortal do mundo sensível.
Fontes da Mitologia de Plethon
O relato mitológico de Plethon é, em muitos aspectos, incomum no contexto do pensamento religioso antigo, inclusive o dos neoplatônicos, tendo crescido de considerações filosóficas sistemáticas — e não de uma tentativa de revelar a natureza racional da mitologia grega tradicional oculta sob um véu poético, como acreditavam os neoplatônicos.
-
Para
Plethon, os poetas que narram histórias mitológicas na tradição grega não são fontes confiáveis sobre os deuses.
-
O fato de que, em sua época, o panteão grego antigo não fazia mais parte de nenhuma experiência religiosa viva — sendo derivado de textos de autores antigos — ajuda a explicar por que
Plethon distorce as funções de alguns deuses em comparação com a mitologia grega antiga.
-
A conta filosófica platônica das Formas é provavelmente baseada em vários diálogos de
Platão.
A identificação de Zeus, atuando separado dos demais deuses como criador supremo e soberano, com o primeiro princípio é evidente, e por trás da distinção entre Olímpicos legítimos e Titãs ilegítimos parece estar o relato de Hesíodo sobre a luta entre os deuses olímpicos e os Titãs.
-
Os Titãs são localizados no Tártaro também por Homero.
-
Na versão platônica de
Plethon, os deuses do submundo são colocados entre as Formas platônicas — não são deuses malignos ou ctônicos, mas apenas um nível inferior de divindade.
-
Plethon parece ter em mente a sequência das três gerações divinas de Hesíodo: (I) Urano (Céu), derrubado por (II) Cronos, soberano dos Titãs, e estes derrotados por (III) os Olímpicos, com Zeus escolhido como soberano supremo.
-
Os deuses de terceira ordem (Sol, planetas e estrelas) fazem parte do Céu (ouranos); os de segunda ordem dividem-se em (II) Titãs no Tártaro sob Cronos e (III) deuses Olímpicos.
-
O Oráculo Mágico XXX expressa a mesma ideia: “Pois o Pai (patér) completou tudo e o entregou ao segundo intelecto (nous deuteros), que as raças dos homens chamam de primeiro.”
O aspecto mais enigmático da segunda ordem dos deuses é a posição de Posêidon como Forma de todas as formas e marido de Hera — pois na mitologia grega o marido de Hera é sempre Zeus, e não é claro por que o segundo deus mais elevado seria Posêidon.
-
Na mitologia, Zeus, Posêidon e Hades eram três irmãos que sortearam a divisão do poder: Zeus ficou com os céus, Posêidon com o mar e Hades com o submundo (Homero, Ilíada XV).
-
Platão menciona essa passagem homérica no
Górgias, embora ela esteja apagada na cópia do diálogo feita pelo próprio
Plethon.
-
No Comentário ao
Crátilo de
Platão,
Proclus oferece uma divisão interessante: o Zeus primordial é Demiurgo de todo o universo; o Zeus coordenado com os três filhos de Cronos administra um terço do universo; “o segundo recebe dois títulos, 'Zeus do mar' e 'Posêidon'; e o terceiro tem três títulos, 'Zeus do submundo', 'Plutão' e 'Hades'. O primeiro preserva e engendra vida nas coisas mais elevadas (ta akrótata); o segundo realiza as segundas coisas (deutera); e o terceiro, as terceiras (trita). Por isso o terceiro é dito raptar Coré, a fim de animar (psychôsê) com ela os limites inferiores do universo.”
-
Essa divisão em três Zeus correspondendo a três ordens de realidade pode ajudar a compreender por que é Posêidon o deus masculino mais elevado e Plutão o mais baixo entre os Olímpicos de
Plethon.
-
A associação de Hera com Posêidon é possível porque, na tradição mitológica grega, Posêidon não tem esposa definida.
No Comentário ao Crátilo de Proclus, Hera é posicionada abaixo de Zeus e em conexão com Posêidon, sendo sua relação com Zeus complexa: em um sentido ela está separada do Demiurgo, em outro está unificada a ele, pois Zeus contém uniformemente tanto a causa paterna quanto a materna do cosmos.
-
“Zeus é separado e transcendente em relação ao âmbito encósmico como um todo. Por essa razão, até os mais universais e majestosos dos outros deuses, embora pareçam de certo modo igualmente dignos a Zeus por causa de sua processão das mesmas causas, o chamam de Pai. Pois tanto Posêidon quanto Hera o dirigem por esse título honorífico.” (
Proclus, Comentário ao
Crátilo 99)
-
“Pois Zeus contém uniformemente a causa paterna assim como a materna do cosmos, e diz-se que a fonte das almas reside em Zeus, assim como a intelecção (noesis) de Zeus é dita ser participada primeiramente por Hera.” (
Proclus, Comentário ao
Crátilo 169)
-
No Comentário à
República de
Platão,
Proclus conecta Hera à Primeira Ilimitabilidade — da qual deriva a matéria no mundo — e Zeus ao Limite, princípio formador.
Em Orígenes, no Contra Celso, encontra-se a mais clara apresentação da tradição estoica de exegese alegórica que identifica Zeus com a causa formativa e Hera com a matéria.
-
“… Crisipo de Solis… expõe o significado de uma pintura em Samos, na qual Hera está representada realizando obscenidades inenarráveis com Zeus. Este honrado filósofo diz em seu tratado que a matéria recebe os princípios gerativos (spermatikoi logoi) de Deus e os contém em si para a ordenação do universo. Pois na pintura de Samos Hera é a matéria e Zeus é Deus.” (Orígenes, Contra Celso IV,48 = SVF II,1074)
-
Diógenes Laércio apresenta uma tradição estoica similar.
A identificação de Apolo com a identidade e Ártemis com a diferença é provavelmente derivada do Crátilo de Platão, onde Apolo é descrito como “simples” (haplous) e o nome Ártemis é derivado da “solidez” (to artemés) da deusa virgem.
A associação de Hefesto com o repouso parece derivar das histórias mitológicas em que ele imobiliza sua mãe Hera ou apanha sua esposa Afrodite em flagrante com Ares.
-
No Comentário ao
Crátilo de
Proclus, os dois deuses restantes — Dionísio e Hefesto — são ambos conectados a Atena no hino de
Proclus a essa deusa, que
Plethon certamente estudou.
-
“você, que guardou o cinturão invencível de sua virgindade / fugindo do desejo do amoroso Hefesto.” (
Proclus, Hinos VII.9–10)
-
Esse episódio mitológico em que Atena afasta o Hefesto sexualmente excitado pode explicar por que, nas
Leis de
Plethon, ela está associada ao empurrar (ôsis).
A identificação de Atena com o movimento por coisas diferentes é compatível com a explicação de Platão no Crátilo, que conecta seu epíteto Pallas ao “fazer oscilar” (pállein) ou “ser oscilado” (pállesthai).
-
Platão explica o nome Atena como “a intelecção de Deus” (theou noesis).
-
No hino de
Proclus a Atena, após mencionar o episódio com Hefesto,
Proclus recorre à história órfica de Dionísio despedaçado pelos Titãs e diz que foi Atena quem salvou seu coração “ainda não cortado” — vínculo que pode ter levado
Plethon a fazer Atena (movimento por coisas diferentes) receber o movimento de Dionísio (automovimento).
A associação de Dionísio com o automovimento é sustentada pela explicação de Proclus no Comentário ao Crátilo, segundo a qual o vinho revela “todos os poderes de Deus” e opera de modo análogo nos diferentes níveis do ser.
-
“Assim o vinho opera analogamente nos vários níveis do ser — no corpo opera como imagem por meio da crença e da falsa imaginação, enquanto no âmbito intelectual atividade e criação ocorrem intelectualmente; razão pela qual, quando os Titãs despedaçaram Dionísio, diz-se que apenas seu coração permaneceu indiviso, isto é, a essência indivisível de seu intelecto.” (
Proclus, Comentário ao
Crátilo 181–182)
-
Tal explicação é ao menos compatível com a descrição de Dionísio por
Plethon como aquele que puxa as coisas em direção ao bem.
Atlas, que deve ser a Forma das estrelas em geral, é descrito por Hesíodo como aquele que “sustenta o amplo céu… com sua cabeça e mãos infatigáveis” — candidato natural à Forma dos céus.
-
Titono, na mitologia grega, é um mortal raptado por Eos, deusa da aurora, que lhe obteve a imortalidade mas esqueceu de lhe obter também a juventude eterna — o que pode ter levado
Plethon a associá-lo aos planetas, que no
Timeu de
Platão são everlasting mas não eternos, e participam da criação dos seres mortais.
A identificação de Dione com a Forma das estrelas fixas é realmente enigmática, pois Dione é a mãe da Afrodite Comum — podendo ser ela a Afrodite Celestial (Ourania) de Platão.
-
No Simpósio de
Platão, distinguem-se duas Afrodites: a mais velha, nascida sem mãe como filha de Urano (Celestial), e a mais jovem, nascida de Zeus e Dione (Comum), mais orientada aos corpos.
-
Plethon, em sua cópia do texto platônico, apagou as informações sobre os pais das duas Afrodites, mas manteve a distinção entre Celestial e Comum.
-
No Comentário ao
Crátilo de
Proclus, a Afrodite Comum, nascida de Dione, “administra todas as coordenações no cosmos uraniano e terrestre, vincula-as umas às outras e aperfeiçoa suas processões geradoras com uma conjunção inteligível comum.”
Hermes, mensageiro dos deuses na mitologia grega, é naturalmente associado aos demônios — seres intermediários entre deuses e mortais, conforme a famosa definição de Platão no Simpósio.
-
A posição de Plutão e as possíveis razões para ela têm como fonte provável o Comentário ao
Timeu de
Platão de
Proclus.
As cinco deusas dos elementos — Reia, Leto, Hécate, Tétis e Héstia — são tratadas conjuntamente, pois no Crátilo de Platão Héstia, Tétis e Reia aparecem juntas.
-
O nome Reia é conectado ao fluxo (rheîn) de todas as coisas em
Heráclito, e o nome Tétis é explicado de modo similar — o que corresponde à natureza dos elementos que, embora eternos como massas elementais, mudam continuamente.
-
Segundo Hesíodo, Reia não é uma deusa olímpica, mas uma Titã e esposa de Cronos — embora, no esquema de
Plethon, ela seja a mais baixa das Olímpicas e próxima de Cronos.
-
No Comentário ao
Crátilo de
Proclus, Leto “emana toda luz portadora de vida, iluminando tanto as essências intelectivas dos deuses quanto as ordens das almas, e em última instância ilumina ao redor o cosmos” — o que corresponde bem à associação de Leto com o éter.
-
Hécate e Leto são parentes segundo Hesíodo: Leto é filha de Febe e Coeu; sua irmã é Astéria, mãe de Hécate, que tem participação na terra, no mar e no céu.
-
No Comentário ao
Crátilo de
Proclus, Hécate é feita filha de Leto com base em um fragmento órfico — o que pode explicar sua associação com o ar por relação familiar com Leto.
-
A associação de Tétis com a água é mais evidente, pois ela é esposa de Oceano e mãe principalmente dos rios.
-
Héstia, associada à terra e à fixidez, é no
Fedro de
Platão a única deusa olímpica que permanece “na casa dos deuses” quando os demais viajam acima do véu celeste; no
Crátilo, está ligada à estabilidade e à essência (ousia).
Cronos lidera os Titãs como Forma da forma mortal, e Plethon pode também estar utilizando a explicação alegórica tradicional de Cronos como tempo (chronos), já que tudo o que ele cria é temporal — alegoria encontrada em Plutarco, no Ísis e Osíris, e em Proclus, no Comentário ao Crátilo.
-
Afrodite, esposa de Cronos em
Plethon, é logicamente a Forma da matéria mortal — associação incomum, pois a esposa tradicional de Cronos é Reia.
-
Em Hesíodo, Afrodite está de algum modo associada a Cronos, indiretamente responsável por seu nascimento ao castrar Urano.
-
Plutarco, no Ísis e Osíris, registra que povos do Ocidente chamavam o inverno de Cronos e o verão de Afrodite, “e pensam que de Cronos e Afrodite tudo nasce”.
-
Coré (ou Perséfone) também é colocada entre os Titãs como Forma do corpo humano — o que se alinha ao relato de
Proclus no Comentário ao
Crátilo sobre seu rapto por Plutão.
Pã e Deméter são os mais naturais e compreensíveis candidatos para as Formas dos animais não racionais e das plantas, respectivamente, e as razões para Coré ser a Forma do corpo humano derivam claramente da história de seu rapto por Plutão no Comentário ao Crátilo de Proclus.
Plethon conseguiu localizar em seu panteão filosófico quase todos os deuses olímpicos tradicionais gregos, com a exceção mais notável de Ares — o deus da guerra —, pois em seu platonismo não há espaço para nenhum princípio antagônico, agindo todos os deuses em harmonia.
-
As alterações mais notáveis em relação à mitologia grega antiga são: fazer Posêidon o marido de Hera; agrupar Atlas, Titono e Dione, bem como Leto e Hécate; e colocar Deméter, Afrodite e Coré no Tártaro.
-
Entre as fontes de
Plethon estão os relatos tradicionais de Homero e Hesíodo, o
Crátilo de
Platão, o Ísis e Osíris de Plutarco, os Hinos de
Proclus e, de modo mais massivo, o Comentário ao
Crátilo de
Proclus — cuja presença é tão intensa que se pode concluir que
Plethon o utilizou ao estudar o
Crátilo platônico.
-
Mesmo que
Plethon tenha usado o comentário de
Proclus, não o seguiu servilmente: focou nos detalhes que considerava importantes para sua obra, sem assimilar toda a complexa estrutura da metafísica procleana.