Importância medieval da classificação dos sonhos proposta por
Macróbio em seu comentário, que lhe conferiu título de
Ornicensis ou
Onocresius, interpretado como
quasi somniorum iudex ou
somniorum interpres, sendo esquema derivado da
Oneirocritica de Artemidoro e estabelecendo existência de cinco categorias oníricas.
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Três categorias consideradas verídicas e dotadas de valor divinatório.
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Somnium ou oneiros, caracterizado por revelação de verdades ocultas através de linguagem alegórica, exemplificado pelo sonho do faraó sobre as vacas gordas e flacas, servindo como modelo estrutural para poemas alegóricos medievais e correspondendo ao termo dreem empregado por Geoffrey Chaucer.
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Visio ou orama, definido como previsão literal e direta de evento futuro, tema central de obras como An Experiment with Time de J. W. Dunne, correspondendo ao termo avisioun na obra de Chaucer.
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Oraculum ou krematismos, no qual ocorre aparição onírica de figura paterna ou pessoa venerável que profere declaração explícita sobre o futuro ou oferece conselho, correspondendo aos órneles referidos por Chaucer.
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Duas categorias consideradas inúteis e desprovidas de valor profético.
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Insomnium ou enupnion, limitado à repetição de preocupações e atividades quotidianas, exemplificado pelo sonho do carretero com seus carros, conforme descrito por Chaucer, e associado ao termo sweven.
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Visum ou phantasma, que ocorre no estado hipnagógico, onde se vêem fantasmas ou espectros que se abalam sobre o observador, incluindo a pesadilla (Epialtes), correspondendo ao fantom de Chaucer.
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Capacidade de um sonho combinar características de mais de uma categoria, conforme exemplificado pelo Somnium Scipionis, que se apresenta simultaneamente como oraculum, visio e somnium, sendo este último aspecto referente à sua altitudo ou significado profundo e oculto.
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Distância filosófica e teológica entre a visão original de Cícero e a interpretação neoplatônica oferecida por
Macróbio.
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Defesa de
Macróbio sobre o uso da narrativa ficcional (
figmentum) em filosofia, em resposta a críticas sobre o caráter imaginário do
Somnium Scipionis.
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Distinção entre dois tipos de figmentum: aquele em que tudo é fingido, como na comédia, inaceitável para filósofo; e aquele que estimula a mente a observar uma forma de virtudes ou poderes (ad quandam virtutum speciem).
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Subdivisão deste último tipo em duas categorias: narrativa completamente inventada, como as fábulas de Esopo; e narrativa baseada em verdade unânime, mas exposta mediante invenções, como os mitos teogônicos de Hesíodo e Orfeu.
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Apenas esta segunda subcategoria é admitida pela filosofia, funcionando como véu piedoso que oculta conhecimento das coisas sagradas, sendo, porém, vedada sua aplicação ao falar de Deus (tagathon, proton aition) ou da Mente (nous) divina, onde residem as Ideias.
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Abismo ontológico introduzido por
Macróbio entre a Causa Primeira transcendente e as demais realidades divinas ou criadas.
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Diferença de gênero e inconmensurabilidade entre Deus e os outros deuses, entre a Beatitude suprema e a beatitude das coisas sagradas (sacra) mitológicas.
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Transmutação do paganismo em teologia religiosa plena, onde mitologia e filosofia são absorvidas e ressignificadas.
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Exposição da tríade neoplatônica em
Macróbio e seu contraste com a teologia cristã.
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Processo de emanacionismo: Deus cria a Mente (Mens, Noys) de Si mesmo; a Mente, ao voltar-se para trás e apartar sua contemplação do Pai, cria a Alma (Anima); a Alma, por sua vez, ao afastar sua atenção, degenera e gera os corpos, surgindo a Natureza.
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Contraste com a doutrina cristã da criação como ato de vontade e sabedoria da Segunda Pessoa, permanecendo esta perfeitamente unida ao Pai.
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Concepção neoplatônica da criação como série de descensos, diminuições ou quase flaquezas, embora a glória de Deus ainda ilumine todo o universo, como rosto refletido em múltiplos espelhos.
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Reinterpretação forçada (
tour de force) por
Macróbio de uma passagem de Cícero para inserir uma ética neoplatônica de renúncia ao mundo.