Figura proeminente do neoplatonismo tardio, ativo durante os reinados de Diocleciano e Constantino, combinando rigor filosófico com o papel de mistagogo religioso.
Estabelecimento de um cânone pedagógico para o estudo sistemático de Platão, organizando dez diálogos como um guia progressivo para a vida espiritual.
Sequência inicia com Alcibíades I, focado no autoconhecimento, prossegue com Górgias, sobre virtudes políticas, e culmina no Parmênides, tratando do princípio supremo.
Doutrina da alma desenvolvida em fragmentos de caráter histórico, preservados por Estobeu, enfatizando a distinção entre tradição platônica pura e acréscimos posteriores.
Rejeição da visão de Numênio, de influência estoica, que identifica a alma com a essência da realidade superior, tratando-a como fragmento da inteligência divina.
Defesa da doutrina genuína de Platão, Aristóteles e Pitágoras, que postula a alma como substância distinta, dotada de características próprias e irredutíveis.
Traço distintivo do neoplatonismo jambliqueano: tendência à multiplicação e hierarquização rigorosa dos termos da realidade suprassensível.
Este método, seguido por Proclo, substitui a tripla hipóstase plotiniana (Uno-Bem, Inteligência, Alma) por uma complexa série de ternários (triádicas) sobrepostos.
Esta abordagem não constitui mera continuação ou refinamento do projeto plotiniano, mas uma reação consciente contra seu espírito filosófico.
Crítica jambliqueana (via Proclo) à suposta confusão plotiniana entre Inteligência (nous) e Eternidade (aion).
Proclo acusa Plotino de, ao admitir apenas a Inteligência entre a Alma e o Bem, ser forçado a identificar Inteligência e Eternidade.
Esta crítica revela um mal-entendido fundamental: Plotino não hipostasia a Eternidade como termo separado, mas a encontra no movimento dinâmico de retorno (epistrophe) da Inteligência ao Uno.
O método de Jâmblico e Proclo preferiu fixar e hipostasiar esses momentos dinâmicos em entidades ontológicas estáticas.
Objetivo metodológico fundamental de Jâmblico: síntese entre classificação conceitual aristotélica (do geral ao particular) e dialética platônica.
Aplicação desta metodologia para deduzir e sistematizar, dentro do mundo inteligível, toda a pluralidade de formas religiosas do paganismo (deuses, demônios, heróis).
Resultado: um vasto sistema classificatório, visto como esvaziado da vida espiritual dinâmica que animava as Enéadas de Plotino, em favor de uma teologia aplicada e de uma prática teúrgica.
Transformação radical da estrutura metafísica: da triada plotiniana ao ternário (triádica) jambliqueano.
Análise do processo plotiniano de produção hipostática: de um princípio emana uma processão (proodos); esta cessação, e o procedente, convertendo-se (epistrophe) para contemplar sua origem, constitui uma nova hipóstase, enquanto algo do princípio permanece (menein).
Jâmblico hipostasia estas três condições dinâmicas em princípios ontológicos fixos: to menon (o que permanece), to proion (o que procede), to epistrephon (o que se converte).
Cada ternário forma um sistema (diacosmos) completo, contendo em si os princípios de unidade, diversificação e reunificação.
A realidade total é uma hierarquia de tais sistemas ternários, cada inferior sendo uma especificação ou concretização do superior.
Exemplo da estrutura ternária matemático-ontológica.
Primeiro ternário: Unidade (princípio de identidade), Díade (princípio de processão e distinção), Tríade (princípio de conversão e unificação).
Segundo ternário: composto por três tétrades, cada uma exemplificando um dos três princípios sob forma aritmética (subsistência como 2², processão como 2×2, conversão como soma 1+2+3+4=10).
Terceiro ternário: princípio de semelhança (participação na identidade), princípio de expansão anímica, princípio de retorno às origens.
Substituição da triada dinâmica plotiniana (Uno, Inteligência, Alma) pela triada estática Ser (on), Vida (zoe), Inteligência (nous).
Inversão da ordem hierárquica: a Inteligência é posterior à Vida, que é posterior ao Ser, refletindo a sequência observável no devir (ser, viver, inteligir).
A Inteligência corresponde ao momento da conversão (epistrophe): sua função não é produzir, mas ordenar e organizar o que foi produzido pela Vida, que por sua vez procedeu do Ser.
Mudança do ritmo metafísico: do progresso contínuo rumo à divisão e expansão (Plotino) para o ciclo de expansão (processão) e retorno sobre si (conversão) dentro de cada sistema ternário.
Consequência geral: o sistema de Jâmblico representa uma formalização, rigidificação e multiplicação hierárquica da dinâmica espiritual plotiniana, transformando processos vivos em estruturas ontológicas fixas para fundamentar uma teologia sistemática e a prática ritual da teurgia.