Revivificação da Alma do Mundo

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

VI Os efeitos da revivificação schellinguiana da alma do mundo

1. O eco suscitado pelo pensamento de Schelling sobre a alma do mundo merece exame tanto filosófico quanto filológico, sendo a filosofia da natureza um movimento de pesquisa em que Schelling desempenhou papel decisivo, como atestam os fragmentos manuscritos do físico Johann Wilhelm Ritter, que já em 1799 citava Boehme e sua teoria do relâmpago fundando a simpatia universal, chegando três anos depois a identificar a alma do mundo com a luz sob influência direta de Schelling e Boehme, sem que se possa mais reconhecer aí a marca de Platão.

2. Friedrich Schlegel, conhecedor de Platão a ponto de cogitar traduzi-lo com Schleiermacher, não revela contudo leitura aprofundada do Timeu, considerando em 1798 a religião da alma do mundo mero politeísmo elevado ao extremo e objeto de fé irracional, ainda que lhe atribua valor poético como divindade em devir.

Schubert

3. A bela obra romântica de Schubert, Aspectos noturnos das ciências da natureza, publicada em 1808, retoma profundamente a noção de alma do mundo na esteira de Schelling, mas com nota bem pessoal, buscando em todos os fenômenos do universo duas séries opostas, ascendente e descendente, situando o homem no centro dessas séries por poder conhecer na alma individual a alma universal do mundo.

Böckh

4. Muito distante dos voos schubertianos está o austero estudo filológico de August Böckh sobre a formação da alma do mundo no Timeu de Platão, publicado em 1807, trabalho ainda hoje insuperado quanto à estrutura harmônica, matemática e musical da alma do mundo, cuja erudição percorre desde os pré-socráticos até Ficino, passando por Plutarco e Proclo.

5. Assim se configurou, entre 1770 e 1810, a figura desse grande filosofema platônico da alma do mundo, cada vez mais precisado filologicamente e revivificado filosoficamente, ainda que nem sempre permanecesse notação propriamente platônica, biologizada em Herder, leibnizianizada em Maimon, fortemente tingida de teosofia em Schelling, sem que a época do idealismo alemão tenha reinterpretado a grande teoria hermética e gnóstica valentiniana do éon, conhecida através de Beausobre mas deixada de lado, o que mostra que a filosofia da natureza foi menos eclética do que se costuma dizer.

6. O essencial é que Schelling compreendeu do interior, sem preocupação de precisão histórica mas com bela vigor conceitual, o sentido filosófico da alma do mundo no Timeu, força de organização do mundo segundo modelo vivo e intermediário indispensável entre o um e o múltiplo, condição a priori da unidade do mundo em 1798, tornada vínculo unificador do universo intelectual em 1806, sem que se deva opor essas duas interpretações, unidas tanto em Platão quanto em Schelling pela recusa comum de toda interpretação ateia da alma do mundo.

7. A alma do mundo nunca é, nem em Platão nem em Schelling, divinização do mundo material, pois a verdadeira matéria é Ideia e a alma do mundo é exigência de unidade no universo intelectual, de modo que, apesar do rigor filológico do trabalho de Böckh, foi a interpretação schellinguiana que, sozinha em sua época, permaneceu verdadeiramente platônica quanto ao espírito, senão sempre quanto à letra.