Prólogo

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

I Comparar e rotular

1. A noção de platonismo tornou-se vaga na filosofia moderna, mas de Platão a Proclo mantêm-se constantes que indicam uma orientação filosófica fundamental, distinta de simples afinidades superficiais como as atribuídas a Descartes ou Bergson.

2. As comparações externas entre Hegel e filósofos antigos, como a aproximação de Bachmann com Aristóteles ou de Feuerbach com Proclo, nada acrescentam à reflexão, pois reduzem um pensamento novo a um pensamento antigo sem juxtaposição equitativa e metódica.

3. A interpretação hegeliana de Platão opõe-se ao procedimento da comparação e situa-se entre os platonismos declarados da época moderna, de Pletão e Ficino a Henry More e Ralph Cudworth, mostrando-se, ao contrário do caso de Schleiermacher, um encontro real entre dois pensadores e não uma mera bandeira assumida.

II Os problemas da leitura

4. Estudar a leitura de um filósofo por outro possui interesse filosófico, e não apenas histórico, comparável à cópia que um grande pintor faz de outro, tal como Bélaval demonstrou ao examinar Leibniz como crítico de Descartes, situação distinta da de Hegel diante de Platão pela distância de séculos.

5. A leitura é condição primeira de toda interpretação verdadeira, o que distingue o caso de Fichte, cujo suposto platonismo carece de base textual sólida, dos casos de Schelling e sobretudo de Hegel, que leram Platão explicitamente e distinguiram com clareza Platão, Plotino e Proclo.

6. A fidelidade perfeita na interpretação não existe, e Hegel, sem teoria explícita de leitura textual, aproxima-se do texto platônico segundo os princípios hermenêuticos de Schleiermacher, combinando estudo textual e gramatical com uma compreensão interna de ordem quase divinatória.

7. A leitura hegeliana de Platão constitui um esforço construtivo e recíproco pelo qual Hegel se forma a si mesmo, num círculo hermenêutico em que a congenialidade conceitual entre os dois pensadores explica tanto a influência sofrida quanto a susceptibilidade prévia a essa influência.

III Diacronia e sincronia

8. A relação privilegiada entre Hegel e Platão só se compreende plenamente ao situar a leitura hegeliana no quadro sincrônico dos estudos platônicos entre 1770 e 1831, sem supor entre eles uma unidade epistêmica homogênea, dada a coexistência de correntes racionalistas, cristãs, herméticas e pré-românticas.

9. A pesquisa pressupõe três elementos: a unidade de pensar como condição de todo questionamento, a existência efetiva de uma corrente platônica na evolução do pensamento, e a sincronia como preâmbulo metódico necessário à compreensão diacrônica da vitalidade própria ao platonismo.

10. O descontinuísmo em história da filosofia, que reduz o estudo a um exame microscópico e isolado dos sistemas, revela uma filosofia implicitamente positivista, em contraste com o esforço de redomiciliar o pensamento hegeliano no movimento mais amplo do platonismo moderno, ao lado de Bruno, Böhme e Spinoza.

11. A hipótese continuísta, embora possa parecer retrógrada por conceder grande crédito ao platonismo, contrapõe-se à pretensão nietzschiana de inverter o platonismo, pois a leitura heideggeriana de Nietzsche como o platônico mais desenfreado da metafísica ocidental sugeriria antes que a dialética hegeliana constitui o lugar da filosofia mais profunda.

12. O erro fundamental de quem deseja inverter o platonismo consiste em tomá-lo como destino fatal do pensar, quando na verdade a ruptura kantiana com os últimos vestígios do platonismo escolástico e cartesiano permitiu que a leitura hegeliana se desse não sob o signo do destino, mas do encontro lúcido e consciente.

IV Por uma metafísica idealista

13. A via idealista aprofunda-se sem cessar de Platão a Hegel, revelando na filosofia hegeliana algo distinto da filosofia da história tentacular que lhe foi atribuída, apesar da crítica de Heidegger segundo a qual Hegel só teria visto em Platão e no pensar grego o signo da falta e do ainda não.

14. A recusa do historicismo em Nietzsche e Heidegger associa-se paradoxalmente à refutação de toda metafísica, quando na verdade a história da filosofia só possui sentido metafísico, e não meramente histórico, pois todo pensar mediado por uma cultura particular visa a universalidade do Espírito.

15. A exegese medieval do sentido alegórico da Escritura oferece uma analogia à metafísica idealista, cujo sentido é fixado por Platão desde o momento em que todo o seu pensamento se encontra suspenso a um absoluto indizível e primeiro, opondo o idealismo a toda filosofia que pretenda esgotar-se em seu próprio discurso.

16. O idealismo alemão, ao aprofundar Platão, opera uma ruptura fundadora da metafísica moderna, rompendo primeiro com o aristotelismo ainda presente em Suárez, Wolff e Kant, e abrindo-se em seguida à origem mítica e imaginativa do pensamento e ao seu fim no Espírito absoluto hegeliano, onde arte, religião e filosofia encontram unidade e diversidade.

17. Contra a pretensão de Schleiermacher de compreender objetivamente um texto colocando-se no lugar de seu destinatário contemporâneo, Gadamer demonstra que apenas uma tradição espiritual comum funda a contemporaneidade, de modo que o propósito da obra não é uma exegese objetiva, mas tornar presentes Platão e Hegel e justificar o fascínio que ambos exercem.