VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979
IV Da primeira à segunda Weltseele. Bruno, filosofia e religião
1. Cabe agora determinar as transformações da noção de alma do mundo até a segunda edição da Weltseele em 1806, acrescida de importante discurso introdutório sobre as relações entre o ideal e o real, passando por duas etapas intermediárias representadas pelo Bruno de 1802 e por Filosofia e Religião de 1804.
2. O Bruno está inteiramente sob o signo de Platão, e o grande discurso de Bruno, tratando da filosofia da natureza, aprofunda a cosmogonia do Timeu ao desenvolver a noção de imagem e reflexo em relação a um arquétipo, de modo que o corpo orgânico é apenas imagem de um arquétipo no Absoluto, esquema platônico duplicado pelo esquema böhmiano do modelo ao seu reflexo, de inspiração antes teosófica e renascentista do que propriamente platônica.
3. A alma do mundo reaparece na cosmologia exposta por Bruno, em que o universo é o animal absoluto e os astros animais divinos, retomando o Timeu e sobretudo as Leis quanto à alma dos astros como partes da alma do mundo e ao papel dos planetas como instrumentos do tempo, imagem móvel da eternidade, sendo o elogio do sol especialmente marcado pela inspiração das Leis.
4. Alexandre, porta-voz do verdadeiro materialismo, retoma o tema da alma do mundo a partir da noção de matéria extraída de Giordano Bruno através de Jacobi, mostrando que Platão e seus sucessores, pela teoria do receptáculo material, perderam o sentido dessa matéria verdadeira que só pode ser apreendida pelos olhos da razão, forma das formas que não se opõe à matéria mas com ela forma unidade, evocando assim a tese de Maimon sobre a alma do mundo como substância única através de manifestações individuais passageiras.
5. Não é fácil interpretar o Bruno, pois se tomado ao pé da letra pareceria contradizer a Weltseele ao abandonar o movimento de dedução transcendental das categorias em favor de uma cosmogonia inspirada, mas assim como no Timeu a fabricação histórica do mundo é recurso narrativo para descrever uma cosmologia, também aqui Schelling utiliza a fabulação cosmogônica sem abandonar a perspectiva transcendental, ainda que menos aparente do que na Weltseele.
6. Uma carta de 1804 ao tradutor do Timeu, Windischmann, revela que Schelling então duvidava da autenticidade do diálogo, chegando a sugerir tratar-se de obra tardia e cristã, o que contrasta com sua posição seis anos antes, mas o que importa é sua afirmação da modernidade do Timeu e de sua proximidade com o cristianismo, tese desenvolvida em Filosofia e Religião ao condenar as representações da emanação e da criação como falsas continuidades entre o mundo das Ideias e o mundo fenomênico.
7. A doutrina positiva exposta em Filosofia e Religião permanece, contudo, próxima do ensinamento do Timeu quanto à alma do mundo, que pertence ao mundo das ideias e não implica de modo algum a divinização do mundo sensível, sendo os astros símbolos privilegiados dessa alma como reflexos imediatos do universo intelectual, concepção comum a Platão e a Schelling desde o Bruno, e que faz do mundo decaído um espaço ainda atravessado pelos clarões das essências que representam o universo intelectual.