VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979
II A problemática da Alma do Mundo de 1798
1. Não se pode afirmar com certeza se Schelling havia lido os textos analisados, pois jamais gostava de citar suas fontes, mas seu tratado de filosofia da natureza distingue-se por extraordinária potência sintética ao reunir material científico, teosófico e filosófico, implicando, sem qualquer preocupação histórica, uma interpretação bem determinada do Timeu que interessa particularmente a esta análise.
2. A primeira página do tratado apresenta o mundo como teatro de conflito entre uma força positiva de impulso e uma força negativa de atração, exigindo um terceiro termo superior, a alma do mundo, princípio de organização que faz do conflito um sistema, referência aos antigos que resulta de análise sem qualquer dogmatismo e que, à maneira platônica, exprime a exigência de unidade do mundo tal como a ciência o conhece.
3. A dívida de Schelling para com Kant é, contudo, mais aparente do que aquela para com Platão, pois as duas forças de impulso e atração provêm dos Primeiros princípios de uma doutrina da natureza kantiana, sendo a antítese entre elas postulada absolutamente e submetida a uma dedução transcendental, termo jurídico retomado da Crítica da razão pura, ainda que essa dedução, objetiva por apoiar-se nas experiências científicas, tenha sua fonte na estrutura interna do espírito humano.
4. A virtuosidade de Schelling em assimilar outros pensamentos não correspondia a um temperamento de discípulo, como Fichte logo percebeu, pois a doutrina kantiana da natureza é assimilada e não copiada, e Schelling ultrapassa Kant ao realizar o que este apenas esboçara, construindo verdadeiramente a diversidade qualitativa da matéria a partir das duas forças fundamentais.
5. A Weltseele deve elucidar filosoficamente o que a química moderna experimenta e o que a imaginação das épocas anteriores pressentia, razão pela qual a luz, a combustão e o éter desempenham papel determinante na demonstração, noções fortemente desenvolvidas na tradição teosófica de Boehme e Oetinger, cujo conhecimento direto por Schelling só se confirma a partir de 1803, embora o interesse por esses autores remonte à juventude.
6. O éter, designado por Schelling como menstruum universale, evoca a matrix de Boehme e Gichtel e a antiga ideia nunca extinta de uma matéria originária que se estende em matérias inumeráveis, sendo sua característica dominante a onipresença já atribuída por Empédocles, cuja leitura Schelling conhecia através da obra de Beausobre sobre o maniqueísmo, substituindo à simples pressão do éter a combinação das forças de atração e repulsão.
7. Não se pode negar que a imaginação das épocas anteriores tenha carregado essa grande intuição da alma do mundo sob o aspecto do éter, segundo tradição platônico-órfica retomada por Bacon, Bruno e Boehme, ainda que Schelling não retenha o tema da afinidade entre alma e astros, preferindo hierarquizar as organizações naturais em que a alma do mundo se manifesta como exigência universal de organização, reinterpretação de sentido kantiano tanto da teosofia germânica quanto do platonismo.
8. A segunda parte da Weltseele mostra que a alma do mundo é causa positiva da vida, resultante do jogo entre irritabilidade e sensibilidade, e ainda que o conceito de organismo não seja propriamente platônico, remontando antes ao David Hume de Jacobi e à concepção de órgão exposta por Hemsterhuis no Sófilo, Schelling ultrapassa ambos ao abolir a separação rígida entre mecanismo e organismo, reencontrando assim o pensamento platônico segundo a qual a alma do mundo explica tanto a matéria quanto a vida.
9. Muito análoga à teoria da natureza plástica, a tese schellinguiana rejeita vigorosamente o atomismo em favor de uma atomística dinâmica na qual o produto precede os elementos, retomando a inspiração leibniziana da mônada e reencontrando também Maimon ao conceber a alma do mundo não como forma das formas mas como princípio superior a toda forma individual e organizada, garantindo a unidade da ciência exigida pelo espírito humano.