Platonismo de 1806

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

V O vínculo e a alma do mundo, ou o platonismo de 1806

1. A segunda edição da Weltseele, publicada em 1806, é precedida de nova introdução que não apresenta o texto de 1798, mantido inalterado, mas o reinterpreta à luz de conhecimento mais íntimo das fontes antigas e renascentistas, ensaio sobre a relação do real e do ideal na natureza que integra o que o padre Tilliette chama a segunda filosofia da natureza.

2. Os aportes teosóficos que aqui se mesclam ao platonismo repousam na ideia fundamental, proclamada por Paracelso e Boehme, de que a natureza é linguagem e Verbo de Deus, contendo em si assinaturas divinas, tema que os Aforismos de 1806 exprimem pela imagem da fulguração, auto-criação de Deus cara a Boehme e ecoada no Zeus fulgurante dos hinos órficos já presente em Heinse.

3. Longe de afastar Schelling de Platão, essa inspiração mais nitidamente teosófica situa a introdução de 1806 ainda mais fortemente sob o signo platônico, ao propor nomear, com Platão, o princípio que ordena e aperfeiçoa tudo de sabedoria universal e alma régia do Todo, sendo a ideia de vínculo, e não mais apenas a de organismo, o verdadeiro fio condutor do ensaio introdutório.

4. Embora à primeira leitura o texto pareça carecer de articulação lógica em contraste com a firme armadura do texto de 1798, é preciso aprofundar novamente a noção de alma do mundo para nele reconhecer mais que uma sucessão de teses, buscando a inspiração especificamente platônica sem exigir rigor histórico, já que o próprio Bruno assimilava indevidamente a alma do mundo à matéria originária que o Timeu distingue cuidadosamente.

5. Proclo, em seu Comentário ao Timeu, desenvolve amplamente a noção de vínculo distinguindo três sentidos, o vínculo-causa, o vínculo orgânico e o verdadeiro vínculo que cria identidade e unidade entre todas as partes pela proporção, sendo esse último exatamente o vínculo tal como Schelling o concebe, distinguindo-se de Proclo apenas quanto ao organismo, que se torna em Schelling símbolo da alma do mundo.

6. Aplicando sua teoria do vínculo à constituição do mundo, Proclo distingue fogo e terra como termos fundamentais unidos por um terceiro termo que faz o universo avançar da díade à tríade, esquema que Schelling retoma insistentemente ao unir luz e peso, forma e matéria, masculino e feminino, numa mesma triplicidade do Todo.

7. O que Schelling acrescenta ao texto de Proclo sobre o vínculo é eminentemente platônico, a saber a relação entre tempo e eternidade, sendo o ensaio introdutório uma espécie de dialética descendente que parte do vínculo absoluto até a cópula universal através dos fenômenos da natureza, retomando a doutrina do Timeu segundo a qual os astros, marcando o tempo, fazem dele a imagem móvel da eternidade.

8. Ainda que se costume situar o conhecimento schellinguiano de Proclo apenas após os trabalhos de Creuzer em 1820, a Bibliotheca graeca de Fabricius, as edições basileenses do Comentário ao Timeu, a edição de Portus utilizada por Hegel e as citações de Hamann no Konxompax tornam bastante provável que Schelling já conhecesse, em 1806, não apenas Platão mas também seus intérpretes antigos.