Interioridade, método

Ucciani (UPGA:145-155)

A tarefa imposta ao filósofo de extrair-se da opinião consiste, em sua generalidade, na busca do princípio; no caso particular do amor, a intervenção filosófica dá à opinião o que lhe falta por definição, conferindo-lhe princípio — e é nesse sentido que a filosofia seria ela mesma imagem.

Quanto ao desejo, Plotino o interioriza radicalmente como constitutivo da alma antes de qualquer coisa, ao contrário de Platão, que insiste na presença desencadeante da beleza fenomenal.

Quanto à reminiscência, Plotino a formula de maneira sucinta como “reconhecimento da beleza”, retomando a tese geral do Fedro, mas eliminando a hesitação que Platão nela inscrevia.

Quanto ao comportamento, a dimensão de ruptura com os costumes que Platão descreve como loucura vinda do exterior é recolocada por Plotino no registro puramente interior do sentimento irracional.

A quarta componente da energeia marca a diferença mais profunda: ao arrebatamento fora de si platônico, Plotino prefere a noção de parentesco, deslocando a referência do Fedro para a República.

A centralidade do corpo em Platão é tornada transparente em Plotino, e com ela se apaga a singularidade da fase amorosa e a dimensão social da dissolução que Platão mantinha como potencial.

A prova do que é o belo passa, em Plotino, por aquilo a que se opõe seu contrário — o feio — articulando Deus e a Natureza como trama central do sistema, em que a perspectiva aristotélica complementa a platônica.

A equivalência fundamental entre o belo e o bem, estruturada pela natureza e sua medida, difere da perspectiva platônica, que privilegia o par belo-verdadeiro e não belo-bem.

O essencial do discurso de Diotima insiste na afinidade entre o ser amoroso e o ser filósofo, enquanto o Fedro insiste numa dimensão pedagógica do amor — e é nesse ponto que se localiza o deslocamento operado por Plotino.

A diferença decisiva entre Platão e Plotino situa-se no lugar conferido à pluralidade: enquanto Platão esboça uma perspectiva pluralista das condutas a partir da multiplicidade dos deuses, Plotino reduz os caracteres diferenciadores ao princípio único que os veicula — Deus e a Natureza.