Circularidade ser-saber nos primeiros diálogos

Mesquita

Dada a natureza muito particular dos textos do período socrático e a relevância de suas características específicas para a compreensão da teoria platônica das ideias, convém esclarecer dois pontos preliminares de âmbito geral: o que se pode esperar encontrar nesses diálogos e o que se busca neles quando o problema é colocado em termos de uma circularidade entre o ser e o saber.

Os primeiros diálogos de Platão são diálogos aporéticos — neles não se encontra nenhuma doutrina positivamente proposta e, apresentando-se formalmente como debates em que sucessivas definições são expostas e exaustivamente testadas pelo elenchus, nenhuma delas resiste a esse teste (com a possível exceção da definição de coragem no Protágoras 360d).

Entre as duas primeiras alternativas e a terceira existe uma distinção de fundo imediata: aquelas leem todo o diálogo na perspectiva exclusiva das definições e das respectivas refutações, ao passo que esta inscreve o jogo de definição e refutação numa estratégia mais global, de que tal jogo é apenas o enredo exterior.

O essencial passa por valorizar o caráter pessoal do diálogo socrático — não na perspectiva de uma anulação psicologista do conteúdo do debate, mas na perspectiva de que o lugar da verdade não é estritamente a definição e o seu modo de descoberta não é estritamente o elenchus, pois o próprio jogo incindível de definição-refutação expõe um saber ou denuncia uma ignorância que se mostram nele como o saber ou a ignorância de quem assim define e de quem assim refuta.

Na mesma linha de raciocínio, a não refutação de uma definição não é garantia suficiente de sua validade, assim como a invalidade de uma definição não é garantia suficiente de sua refutação — basta que quem caiba a refutação não seja Sócrates, mas alguém menos sapiente na dupla arte da verdade e da refutação, ou menos habilidoso na simples arte da refutação.

A aporia platônica não pode ser confundida com uma rejeição pura e simples de todos os resultados alcançados no diálogo: ela só pode ser entendida como a consequência de um ponto de partida insuficiente, que não afeta necessariamente o valor dos resultados tomados em abstrato, mas apenas o seu valor concreto enquanto presumível saber dos interlocutores.


Uma objeção recorrente à identificação socrática da excelência com o saber prende-se com seu aparente absurdo empírico — na versão de Vlastos: “os homens mais corajosos que conheci teriam certamente reprovado o exame socrático da coragem”, pois “um homem pode possuir uma grande coragem e no entanto fazer figura de tolo quando abre a boca para explicar o que é isso que possui”.

Essa explicação pressupõe um determinado sentido de saber que não é o do uso corrente e realiza um determinado sentido de coragem que não se reduz ao da experiência habitual — e sua natureza explicativa mostra-se em não se limitar a descrever os termos que articula, mas em introduzir, nessa articulação, uma relação de explicação que ilumina a uma outra luz o que sem ela pareceria antinatural.

Perante uma explicação que traz consigo a transfiguração das realidades a explicar, uma simples “constatação” não basta — é necessário que ela constate antes de mais a ilegitimidade de tal transfiguração, reexaminando a empiria com os novos termos da explicação sob juízo.

A única forma apropriada de testar o valor da definição socrática seria usando de um modo dubitativo: “aquele homem é aparentemente corajoso e, no entanto, não é aparentemente sábio — será ele realmente corajoso? E, se sim, não será ele realmente sábio?”

Da declaração socrática de que a coragem é o saber do que há a temer e a ousar resulta de concreto para a prática que tal homem só é, em sentido socrático, corajoso se souber calcular o que é mais temível numa situação e o que, portanto, deve ousar para se furtar ao mais temível.

Essa identificação do corajoso com o que sabe o que há a temer e a ousar não redunda na drástica redução dos corajosos a um único presumível — o próprio Sócrates —, pois todos aqueles homens corajosos de que Vlastos falava podem sê-lo de um ponto de vista socrático: mas isso só é possível porque todos eles sabem, de algum modo, o que há a temer e a ousar.

Que tipo de saber pode ser esse que nem sequer se sabe como tal? — a perplexidade é em si mesma informativa: informa que o saber é sempre primariamente entendido como um “saber que se sabe”, de forma aperceptiva ou autorreflexiva, e que esse saber do saber é o que constitui o saber enquanto tal.

Só à luz dessa duplicidade de formas de saber — o saber naturalizado e imediatamente investido na prática, de um lado, e o saber que se sabe, de outro — se compreende e legitima o diálogo socrático como testar dos saberes, buscando na experiência prévia dos interlocutores (no seu natural saber) a base para a interrogação e exigindo deles uma verbalização penosa e radicalmente maiêutica por mediação da questão “o que é”.