Mesquita
O saber como pergunta e resposta em Platão se define inteiramente pela questão “o que é”, que orienta ao mesmo tempo o proceder filosófico e a vida humana em sua busca de sentido.
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A questão “o que é” não é um método entre outros, mas o único procedimento possível de um saber que não se abstrai da vida.
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O perguntar “o que é” corresponde à natureza intrínseca daquilo que se busca conhecer.
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A radicalidade dessa questão é tanto de exigência especulativa quanto de coerência e sentido existencial.
A ignorância radical é o ponto de partida necessário e inaugural do verdadeiro saber platônico, pois não saber “o que é” equivale a não saber coisa alguma.
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Não saber “o que é” implica não saber nada, porque sem esse saber nenhum outro se sustenta.
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A ignorância provoca simultaneamente um radical desejo de saber e um radical desejo de ser.
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Essa tomada de consciência percorre a totalidade dos diálogos platônicos, especialmente os do primeiro período.
A ignorância generalizada aparece em múltiplos diálogos como condição infamante que ameaça o sentido da vida, conforme Sócrates declara em várias ocasiões.
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No
Górgias, a instabilidade dos “pareceres” é sinal de uma ignorância monumental e infamante.
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No
Mênon, Sócrates declara jamais ter encontrado alguém que soubesse a excelência.
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No
Laques, o reconhecimento final da ignorância sobre a coragem vem acompanhado da proibição socrática de que os presentes permaneçam nesse estado.
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Na
Apologia, Sócrates declara a “sabedoria humana” como “algo de pouco ou mesmo de nenhum valor”.
No Hípias Maior, a ignorância atinge sua formulação mais radical, sendo comparada à morte pelo interlocutor interno que Sócrates chama de “terrível adversário”.
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Sócrates descreve esse adversário como alguém que habita sua casa e não o deixa descansar com a questão “o que é”.
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O adversário pergunta a Sócrates: “Como é que estabeleces que um qualquer discurso tem uma forma bela ou não, e do mesmo modo para os outros atos, desconhecendo o belo?”
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O adversário conclui: “Pensas tu, porventura, que, quando se está nesta situação, a vida seja muito melhor do que a morte?”
Quatro traços fundamentais definem a ignorância em Platão e seu valor maiêutico como situação germinal do verdadeiro saber.
A ignorância tem uma dupla função no pensamento platônico: expõe seu caráter infamante e indica ao mesmo tempo o caminho para superá-la.
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Por um lado, patenteia a ignorância, mostra seu caráter vergonhoso e incentiva a superá-la.
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Por outro, aponta o que justamente se ignora, ou seja, “o que é”, indicando a direção do verdadeiro saber.
Na Apologia, a questão “o que é” se autonomiza de seu vínculo exclusivo com a excelência e passa a abranger a totalidade dos possíveis saberes humanos.
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A declaração de que a sabedoria humana é “de pouco ou mesmo de nenhum valor” tem alcance absolutamente genérico.
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Sócrates examina políticos, poetas e artesãos, representando metonimicamente a totalidade dos homens.
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Nenhum dos examinados sabe em que consiste aquilo que diz saber, revelando uma ignorância total e opaca a si mesma.
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Não saber significa não saber nenhuma coisa, não saber as coisas tais como elas são — o que cada coisa é.
A descoberta da ignorância universal abala o mundo desde suas raízes, revelando que as coisas não são como se julgava e que a própria noção de “coisa” se torna estranha.
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O mundo familiar se transforma no inquietante mar do que provoca a saber, justamente porque mostrou primeiro que não era sabido.
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Apodera-se de quem descobre isso a vertigem de um mundo diferente que é, de modo mais inquietante ainda, o mesmo mundo.
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Essa ignorância recém-descoberta é já a ignorância do sábio, pois detecta um outro domínio de saber que supera e justifica o anterior.
Quem ignora “o que é” vive como se o conhecesse, e sua vida torna-se ilusória, participando do estatuto fluido do sonho e da sombra.
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O que não conhece “o que é” julga conhecê-lo, de modo que sua vida é ilusória duplamente: quanto ao ato de conhecer e quanto ao objeto que julga conhecer.
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Aquilo que o ignorante chama de ser não é; e do que verdadeiramente é, nem sequer suspeita.
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Só quem autenticamente sabe autenticamente é — e quem nada sabe na verdade nada é, sendo apenas uma pálida sombra de si mesmo.
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O ser de “nulo valor” é o ser da maior parte dos homens.
Os diálogos socráticos visam mostrar que nada sabemos e apontar simultaneamente o que há a saber, revelando a alternativa entre o verdadeiro caminho e os falsos caminhos.
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O que há a saber é justamente o que não se sabe e o que, por não ser sabido, faz de todo saber um puro nada.
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Esse que não se sabe, que há a saber e que faz do saber existente um nada, é “o que é”.
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O diálogo socrático coloca o homem diante da alternativa radical entre a filosofia e a sofística, entre o saber que é nada e o saber do que verdadeiramente é.
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A verdadeira aporia não é aquela a que os diálogos chegam — essa é simultaneamente o lugar do caminho; a verdadeira aporia é o estado de quem vive o “nada” sem o saber.
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Nenhum interlocutor sai do encontro com Sócrates sem ter escolhido: esse encontro foi o encontro com a própria escolha.
O Hípias Maior divide-se estruturalmente em prólogo, onde se caracteriza o sofista, e diálogo propriamente dito, onde se discute a natureza do belo — sendo seu tema real o saber e suas condições.
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As condições do saber expostas nesse diálogo correspondem ao que nos diálogos posteriores receberá o nome de “ideias”.
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O caráter aporético do diálogo advém da incapacidade de
Hípias de alcançar a compreensão da exigência contida nessa exposição.
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À progressiva caracterização do sofista como ignorante corresponde simetricamente a progressiva caracterização do filósofo como aquele que parte da ignorância assumida em direção ao projeto do saber.
A contraposição entre sofista e filósofo no Hípias Maior é a contraposição entre saber aparente e saber real, expressa na exigência socrática do “próprio belo” diante das meras “coisas belas”.
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Hípias não compreende que perguntar “o que é o belo” é absolutamente diverso de perguntar “o que é belo”.
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O saber verdadeiro está vinculado desde o início à dimensão do “próprio”, ou seja, à dimensão das ideias.
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É o desconhecimento dessa dimensão de “o que é” — mais do que o desconhecimento do que efetivamente é — que configura toda a espessura da ignorância sofista.
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O conhecimento dessa mesma dimensão, ainda quando desprovida do conhecimento do que efetivamente é, eleva a ignorância socrática ao estatuto de um saber germinal.
A ignorância e o saber em Platão não se opõem de modo simples, mas se articulam em uma circularidade dialética que define o lugar próprio da filosofia.
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A ignorância absoluta não é o mero desconhecimento do que as coisas são, mas a radical desatenção ao plano específico de “o que é”.
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O saber projetado começa pela assunção desse mesmo plano como campo a prosseguir e pesquisar.
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O verdadeiro saber é imediatamente filosofia porque não se dá como radical conhecer do que é, mas como simples projeto desse conhecer.
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Sabendo que se ignora, sabe-se o que se ignora — e só é possível saber que se ignora quando se sabe o que se ignora.
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A filosofia como projeto de adveniência ao saber nada mais é do que a tematização daquilo que a um tempo se sabe e se ignora — ou seja, da anamnese.