Radicalidade ontológica do saber

Mesquita

O saber como pergunta e resposta em Platão se define inteiramente pela questão “o que é”, que orienta ao mesmo tempo o proceder filosófico e a vida humana em sua busca de sentido.

A ignorância radical é o ponto de partida necessário e inaugural do verdadeiro saber platônico, pois não saber “o que é” equivale a não saber coisa alguma.

A ignorância generalizada aparece em múltiplos diálogos como condição infamante que ameaça o sentido da vida, conforme Sócrates declara em várias ocasiões.

No Hípias Maior, a ignorância atinge sua formulação mais radical, sendo comparada à morte pelo interlocutor interno que Sócrates chama de “terrível adversário”.

Quatro traços fundamentais definem a ignorância em Platão e seu valor maiêutico como situação germinal do verdadeiro saber.

A ignorância tem uma dupla função no pensamento platônico: expõe seu caráter infamante e indica ao mesmo tempo o caminho para superá-la.

Na Apologia, a questão “o que é” se autonomiza de seu vínculo exclusivo com a excelência e passa a abranger a totalidade dos possíveis saberes humanos.

A descoberta da ignorância universal abala o mundo desde suas raízes, revelando que as coisas não são como se julgava e que a própria noção de “coisa” se torna estranha.

Quem ignora “o que é” vive como se o conhecesse, e sua vida torna-se ilusória, participando do estatuto fluido do sonho e da sombra.

Os diálogos socráticos visam mostrar que nada sabemos e apontar simultaneamente o que há a saber, revelando a alternativa entre o verdadeiro caminho e os falsos caminhos.

O Hípias Maior divide-se estruturalmente em prólogo, onde se caracteriza o sofista, e diálogo propriamente dito, onde se discute a natureza do belo — sendo seu tema real o saber e suas condições.

A contraposição entre sofista e filósofo no Hípias Maior é a contraposição entre saber aparente e saber real, expressa na exigência socrática do “próprio belo” diante das meras “coisas belas”.

A ignorância e o saber em Platão não se opõem de modo simples, mas se articulam em uma circularidade dialética que define o lugar próprio da filosofia.