Ideia e Realidade no Timeu

GADAMER, H.-G. Dialogue and Dialectic: eight hermeneutical studies on Plato. New Haven: Yale Univ. Pr, 1980.

1. Para estudar e interpretar com cuidado qualquer diálogo enigmático platônico, é essencial tornar-se consciente dos pressupostos hermenêuticos que nos deram a imagem de Platão, tendo a forma predominante de interpretação, com persistência quase absurda, advogado a teoria dos dois mundos, a separação completa do mundo paradigmático das ideias em relação ao fluxo do mundo sensível.

2. A terceira versão da teoria platônica dos dois mundos também deve ser posta em questão: o relato genético-histórico que domina a pesquisa platônica moderna, segundo o qual Platão mesmo, no curso de seu desenvolvimento intelectual, reconheceu insustentável a afirmação dogmática da doutrina das ideias, buscando então por meio da dialética superar a lacuna entre os dois mundos.

3. Compõe nossas dificuldades o fato de que o Timeu ocupa posição singular na periferia da obra platônica, devida em grande parte à disposição crítica em relação a ele, cuja origem está na física aristotélica e que nos levou a crer que o relato do demiurgo que faz o mundo não passa de metáfora vazia, tendo desde Aristóteles nos acostumado a ver a “física” platônica como secundária, algo periférico.

4. Tudo isso mudou com o interesse despertado da física moderna pelo Timeu, apoiando-se Galileu, Kepler e os atomistas do século XVII não tanto na ideia de criação, mas em sua matemática, sendo os atomistas particularmente justificados em seu recurso ao Timeu, mas mesmo isso não muda o fato de o Timeu ter permanecido na periferia da obra platônica e, mais especificamente, de sua narrativa mítica não ter sido integrada ao que, propriamente falando, se pode chamar dialética platônica, estando-nos, assim, precisamente posta a tarefa de compensar o que não foi feito e, ao penetrar por trás da forma do mito, esclarecer sua relação com a dialética platônica como um todo.

5. O Timeu apresenta, porém, exatamente nesse aspecto, problema metodológico específico relacionado de modo especial ao problema geral que hoje enfrentamos ao interpretar Platão: o problema da relação ainda não esclarecida entre os diálogos ficcionais platônicos e sua “doutrina”, conhecida apenas pela tradição indireta de fontes secundárias.

6. O tom em que a história aqui é contada tem algo bastante distintivo, sendo a verdade que a narrativa reivindica para si explicitamente limitada ao que é “provável” tanto quanto ao apresentado como história (mythos) quanto ao apresentado em argumento racional (logos), enfrentando-se assim o problema metodológico de extrair o conteúdo substantivo da narrativa, seus temas racionais, de um tipo de história peculiarmente solta, incoerente e alusiva, à maneira de conto de fadas.

7. O discurso efetivo de Timeu começa com espécie de proêmio metodológico, estabelecendo-se série de “axiomas” dos quais se tiram conclusões e segundo os quais se especificam as pretensões epistemológicas da narrativa subsequente, sendo a distinção entre Ser e Devir introduzida logo de início como fundamental.

8. Num segundo passo, menciona-se a coisa ou coisas que vieram a ser, o que já não continua na indeterminação anterior do Devir no sentido de constantemente tornar-se outro do que era (28a), olhando-se necessariamente, ao falar de tal devir, para aquilo em que se tornou, levantando, como um tornar-se-algo, a questão de sua causa.

9. A possibilidade de conhecer algo sobre o mundo como todo ordenado repousa precisamente sobre essa estrutura de dois níveis do Devir, sobre a ordem noética constante por trás da superfície, sendo o cosmos como um todo, tendo o caráter do Devir, acessível per se apenas à experiência sensível da visão.

10. Estes são os primeiros resultados do proêmio introdutório, contendo também algo como pressupostos axiomáticos completamente razoáveis para a narrativa subsequente, em consonância com o logos, observando-se que em nenhum lugar se pergunta pelo começo do movimento ou do Devir.

11. O começo da narração propriamente dita tem estilo distintivo, com certa solenidade hínica, mas ao mesmo tempo parando aquém de efetivamente mitologizar, sendo o demiurgo, já caracterizado em 28c como “fazedor e pai”, referido aqui apenas como produtor de algo.

12. Algo mais de significado se segue do começo que Platão faz aqui: o deus, por fazer algo bom e belo, deve trazer à existência algo que tenha noûs, sendo, como no Sofista em 249a, enfatizado sem questão e aparentemente evidente por si mesmo que noûs não pode existir sem psyche, vida, e ainda que o deus assim põe a alma (psyche) num corpo.

13. Seja qual for, a constituição de “nosso” mundo é derivada aqui do paradigma do ser ideal, unificado, vivo e abrangente de tudo, incluindo esse ser universal ideal toda ideia de seres vivos dentro de si, concluindo-se assim que o ser do mundo concreto produzido pelo demiurgo deve ser igualmente abrangente.

14. Um exame mais atento revela, porém, que ainda se ouve aqui algum raciocínio jônico antigo, embora em forma eleática: o Ser, a realidade, é um, dizendo respeito a preocupação aqui à unidade do abrangente-de-tudo.

15. Igualmente desnecessária — sobretudo depois do comentário preciso de Cornford — é outra investigação detalhada de como se realiza a construção da alma do mundo, o princípio de vida e movimento que, para ser lógico, deve preceder a feitura do corpo do Todo a partir dos elementos.

16. É compreensível e significativo, em muitos aspectos, que a autocinese do Todo, da alma do mundo, implique Mesmidade e Diferença, descrevendo-se explicitamente (36c) a função de Mesmidade e Diferença na alma, primeiro no movimento das estrelas fixas no céu, e, segundo, na divisão em seis partes daquele outro movimento astral, do sol, lua e planetas — a eclíptica, em outras palavras, para cuja significância nas mudanças periódicas da natureza os gregos eram singularmente sensíveis.

17. Mas agora, surpreendentemente, a ousia encontrada “em” (peri) os corpos, a ousia que “se torna” e na qual a psyche participa indiretamente, é ainda mais especificada como “divisível” (meriste), e a ousia do idêntico-a-si-mesmo, correspondentemente, como “indivisível” (ameriston) (35a), sendo essa clara referência à extensionalidade que subjaz a todo movimento, como o é, ainda mais claramente, a expressão skedasten (disperso) (37a), depois similarmente justaposta a ameriston.

18. A curiosa história da mistura em dois estágios que produz a alma do mundo e suas funções celestes tem sequência igualmente curiosa, que a maioria dos comentadores passa levianamente por alto: refiro-me à atribuição do noûs e do saber ao domínio da Mesmidade, e das opiniões e convicções firmes ao da Diferença.

19. É apropriado, então, que neste ponto, onde o φιλοσοφίας γένος (gênero da filosofia), o desejo humano de conhecer, se mostra ser potencial natural no homem, novo elemento teórico-científico se introduza na narrativa.

20. A primeira indicação dessa deficiência ocorre em 46cd, onde se diz que a exposição atolou-se em causas secundárias enquanto a causa primária, a da ordenação racional e lógica do todo, deveria ter sido enfatizada o tempo todo, voltando-se por isso a discussão da visão humana, iniciada de modo bastante detalhado, subitamente à questão do propósito racional da visão: a visão torna possível a percepção do tempo e consequentemente todos os outros modos de conhecer.

21. Doravante o interesse platônico concentra-se inteiramente nessa causa secundária, introduzindo-se novas e surpreendentes linhas de questionamento que mudam todo o curso da exposição, devendo-se conceder que essa nova orientação, especificamente caracterizada como busca de outro começo mais fundamental, não pode ser inserida imediata e discretamente na história contada.

22. Enfrentamos assim a tarefa de seguir não só o relato mítico, mas também a explicação teórica “para vós”, vós que sois treinados em matemática e podeis, por isso, seguir a lógica do argumento, devendo distinguir mythos e logos tal como se entrelaçam na exposição que se segue.

23. Como hipótese para nossa investigação, proponho que Platão deliberadamente combinou as coisas desse modo, contestando assim a interpretação de que Platão incorporou ideias estranhas à sua linha de pensamento por ser incapaz de fazer diferente, e que as incorporou de forma tão desajeitada que se tornam facilmente discerníveis ao olho crítico.

24. Em sua crítica a Anaxágoras no Fédon, Sócrates já elaborara o pensamento de que, junto à causa visando propósito razoável, há causa secundária ou, melhor dito, coeva, sendo a matéria tratada no Timeu exatamente do mesmo modo (46de), sendo a causa secundária o que chamaríamos conditio sine qua non.

25. A introdução da “persuasão pela Razão” dá à causalidade da Necessidade significado inteiramente novo, aprendendo o leitor logo no início desse novo começo aqui feito que se trata de começo que diz respeito (1) à natureza dos elementos antes da gênese do universo e (2) às condições que precedem esses elementos.

26. Esse novo começo, porém, a princípio parece não se relacionar de modo algum com a dedução prometida antes, fazendo-se antes distinção adicional segundo a qual os dois tipos anteriores de ser agora se diferenciam de um terceiro, sendo esse terceiro ser, a ser aqui apresentado, um eidos impenetrável e obscuro — algo como uma ama que recolhe em si tudo o que se torna.

27. O primeiro argumento é especificamente introduzido como discussão preliminar tratando do fogo e coisas semelhantes, sendo evidentemente a preocupação mostrar que os elementos aqui não são de modo algum os elementos estáveis e imutáveis que costumam figurar na cosmologia, não sendo nem fogo nem água suficientemente duradouros para que se possa dizer deles que são isto ou aquilo.

28. Num segundo argumento (50a ss.), fornece-se esclarecimento adicional: numa analogia com o ouro, esse “em que” é agora definido como um “a partir do que” — aquilo “a partir do que” se pode fazer as coisas mais variadas, assumindo qualquer forma desejada, já que ele mesmo não tem forma, sendo por isso caracterizado como algo parecido com matéria-prima (ekmageion).

29. Devemos manter em mente que esses argumentos sobre a ideia do “em que” ou “a partir do que” subjacente a todos os fenômenos são explicitamente desenhados para trazer à tona o caráter fenomênico e a mutabilidade dos quatro elementos, mas, no terceiro argumento, que começa em 51b, a consideração se amplia para questões mais gerais.

30. O interessante aqui é que, mais uma vez, o exemplo do fogo é tomado como ponto de partida, levantando-se de novo a questão de se se deve assumir que o fogo tem algum tipo de eidos puro, lembrando-se que o fogo desempenha papel especial na cosmologia grega, e também em Platão, na medida em que não é só luz e chama, fogo gentil e destrutivo, mas algo presente onde quer que haja calor, havendo fogo em todo ser vivo quente.

31. Em todo caso, a exposição do terceiro genos, o espaço, que se segue nesse terceiro argumento, pode ser chamada a mais logicamente precisa de todas, dizendo-se dessa chora que pode ser “tocada”, por assim dizer, em espécie de pensamento inautêntico, mas isso não significa que seja alcançada pelos sentidos.

32. Note-se o que essa discussão difícil e compressa exige de nós: devemos pensar o terceiro genos, o espaço, o puro “em que” como tal, precisamente ao pensar qualquer coisa que nele aparece, qualquer coisa que aparece não como a própria coisa, mas como cópia ou imagem de um paradigma.

33. Tende-se a esquecer o objetivo anunciado da discussão, que deve constantemente ser mantido em mente: os elementos, tal como nos aparecem, devem ser rastreados até algo que jaz por trás deles, o que se perde completamente de vista após a conclusão da discussão do terceiro genos.

34. Divirjo, neste ponto, da explicação usual da linha de pensamento platônica aqui por não ter conseguido chegar a nada razoável ao segui-la, parecendo-me óbvio que essa seção difícil só pode ser coerentemente integrada ao todo se interpretada da seguinte forma: o deus mitológico não participa em constituir os elementos geometricamente.

35. Não encontro aqui nada da dedução subsequente dos elementos a partir dos triângulos e sólidos regulares, fornecendo o texto nada mais que repetição do tema contínuo de que a razão do fazedor traz à existência a beleza do que é feito, mas imediatamente após essa repetição, que traz de volta ao foco o motivo mítico e que um leitor moderno por isso dificilmente esperaria, encontramos algo surpreendente e espantoso.

36. O fato de essa transição não ser enfatizada — a relação entre a doutrina do terceiro genos da realidade, a chora, e a constituição dos elementos a partir das estruturas matemáticas do triângulo e dos sólidos regulares nunca sendo esclarecida, embora se tenha claramente dito que seria (cf. 48b) — ajuda a explicar por que a questão irrelevante da individuação é frequentemente introduzida por comentadores na discussão da chora.

37. A discrição da transição aqui reforça, é claro, o ponto de que a Necessidade, tal como exibida em, e tornada compreensível pela, teoria que se segue, é subserviente ao propósito superior da ordenação do mundo pelo deus razoável, mas perde-se a intenção platônica se se deixa de ver que, para o que se segue, o deus mitológico já não é o originador e ordenador.

38. A teoria que se segue é assim tratada como teoria, um eikos logos, sem menção ao deus por ora, dizendo-se abruptamente, só ao fim da derivação dos sólidos regulares, que “há, decerto, ainda uma quinta figura, mas o deus faz uso dela ao pré-esquematizar o Todo” (55c).

39. Ter-se-ia razão de esperar que a aplicação real dos sólidos regulares ao fazer a transição das verdades da razão às verites de fait contingentes fosse realizada pelo deus mítico, mas mesmo isso parece não ser o caso, não estando Timeu preocupado com como os elementos reais surgem dos corpos estereométricos.

40. Ao fim dessa teoria da constituição do mundo, há de novo menção ao deus, dito colocar o que existe junto em proporção correta segundo número, movimento e outras dynameis (potencialidades) na medida em que a Necessidade permite, duvidando eu que mesmo aqui se deva atribuir ao deus insights preliminares em química molecular moderna.

41. Segue-se, então, que a constituição dos sólidos regulares e sua correspondência aos quatro elementos tradicionais (empedoclianos) é produto da Necessidade — Necessidade que, é claro, é razoável, logicamente compreensível e acomodatícia à Razão, sendo, decerto, toda essa exposição apenas uma teoria no sentido moderno da palavra, um eikos logos hipotético que por si não é necessariamente a verdade última.

42. Há no máximo uma passagem em que se poderia encontrar discussão substantiva explícita de nosso mundo contingente: a reformulação da questão de se há um mundo ou multiplicidade de mundos (55d), estando certo de que o fato de se permitirem cinco mundos possíveis deriva, ao menos em parte, da tese dos cinco sólidos regulares, e não primariamente de antigos ensinamentos pitagóricos, como muitos estudiosos eruditos afirmaram.

43. Isso, contudo, não tem consequência em nossa tentativa de estabelecer distinção clara entre a obra do deus e a obra da Necessidade, sendo, segundo o que foi dito e segundo a dedução de 31b, concebível outra construção do mundo apenas se for a partir dos mesmos corpos elementares e se outro dos sólidos regulares for usado para o diagrama esférico.

44. Deve-se perguntar como a possibilidade de cinco mundos (55d) deve reconciliar-se com a demonstração “lógica” de que este é o único mundo (31a), tendo o argumento anterior parecido absolutamente cogente: o que abrange deve eo ipso ser abrangente-de-tudo e, portanto, único.

45. Sem dúvida essa passagem responde a teorias (Demócrito?) segundo as quais o vazio, a estrutura vazia do espaço, admite qualquer número de formações mundiais, argumentando Timeu, contra essa tese, que o espaço admite apenas cinco tipos de construção, não parecendo tão significativo se essa visão pretende contrapor-se à ekkrisis (separação) de Anaximandro ou a Demócrito.

46. Os cinco planos possíveis de construção do universo único poderiam então de fato reconciliar-se com a designação do dodecaedro como a estrutura real do mundo que melhor se aproxima do espaço definido pela esfera, podendo-se dizer que o problema da contingência do mundo é a preocupação real de toda a exposição aqui.

47. Mantendo-se em mente a conclusão a que nossa análise conduziu, que o deus mítico não está em ação em todo o processo, mas apenas assume o resultado de uma formação anterior, torna-se claro o significado do único ato a ele atribuído, o de ter “persuadido” a Necessidade, sendo esse o modo mítico de afirmar as verdades matemáticas e racionais que a matemática do tempo descobrira na estrutura do espaço.

48. Deve ter sido esse fato que levou Platão à aplicação “física” da matemática, tendo os quatro elementos, é claro, sido concebidos por Empédocles, mas sendo sua teoria inadequada para explicar a condição mutável de entidades agregadas.

49. Ao elaborar mais sobre a pré-formação matemática dos elementos, Timeu agora acrescenta detalhes ao relato que começara com o sacudir da chora — embora apenas naquilo que ele mesmo chama de especulação lúdica (59cd), reforçando-se, numa recapitulação prefatória, o argumento de que os elementos só podem ser nomeados uma vez arranjados pela mão ordenadora do deus (69b).

50. O restante da narrativa é mistura quase impenetrável de invenção engenhosa e adaptação astuta de teorias tradicionais, assumindo a conclusão do diálogo o estilo de hino, lembrando assim seu augusto começo.

51. Acredito que o relato aqui dado estabelece a lógica e coerência interna da exposição platônica da constituição dos quatro elementos segundo os preceitos de sua teoria atômica, bem como de sua integração desse processo constitutivo na ordenação do mundo pelo demiurgo, mas, prima facie, ao menos, permanece problema a questão de como essa teoria coerente no Timeu se relaciona com a dialética do Platão tardio.

52. Ainda assim, deve-se perguntar quais são as consequências dessa “desmitologização” do Timeu e que conexão a linha de pensamento assim exposta tem com a dialética contida na doutrina platônica das ideias, devendo-se, ao fazê-lo, evitar envolver-se naquele velho e infrutífero jogo praticado por estudiosos de Proclo a Cornford, o de buscar correspondências com outros diálogos.