Aristóteles

GADAMER, H.-G. Dialogue and Dialectic: eight hermeneutical studies on Plato. New Haven: Yale Univ. Pr, 1980.

Amicus Plato Magis Amica Veritas

1. A formulação “amicus Plato magis amica veritas”, nessas palavras precisas, só pode ser rastreada diretamente até a alta Idade Média, remontando, em última instância, aos biógrafos de Aristóteles, que por sua vez teriam se apoiado na passagem do livro 1 da Ética a Nicômaco em que Aristóteles, ao introduzir sua crítica à ideia platônica do Bem, diz algo bastante semelhante.

2. O mesmo se pode dizer da Idade Média, apesar de todas as disputas entre escolas que a permeiam, tendo-se estabelecido recentemente que Agostinho, o platônico cristão, trazia consigo boa dose de Aristóteles, valendo o mesmo inversamente, na medida em que a tradição do platonismo agostiniano foi inteiramente capaz de se preservar durante o período em que a aceitação de Aristóteles gradualmente crescia na alta Idade Média.

3. Ainda assim, junto ao platonismo do método matemático moderno, a tentativa de perpetuar a doutrina aristotélica das formas substanciais, as enteléquias, continua por toda a história recente das ciências modernas e sua assimilação na filosofia até Hegel, tendo Leibniz, em particular, grande harmonizador e sintetizador, buscado caminho entre Aristóteles e a ciência moderna, sendo sua contribuição ultrapassada pelo idealismo alemão de Kant a Hegel.

4. A variedade de respostas que a pesquisa moderna deu à questão levantada pela crítica aristotélica a Platão oscila entre estabelecer com pesar que Aristóteles não apreendeu a ideia de filosofia “crítica” e refugiar-se em algum relato histórico-genético, construindo-se, neste último caso, uma fase tardia de Platão dita ser o objeto real da crítica aristotélica, ou dizendo-se que Aristóteles não tinha tanto Platão em mente quanto os platônicos da Academia.

5. Busquei outrora fazer algum sentido desse mistério inquietante, não podendo me contentar com a teoria neokantiana proposta para explicar a inadequação de muitas críticas aristotélicas: que Aristóteles permaneceu preso ao pensamento “dogmático” e por isso incapaz de apreender a intenção “crítica” da filosofia platônica, parecendo-me que tal teoria não fazia justiça à crítica aristotélica à ideia do Bem na Ética a Nicômaco.

6. Não seria talvez o caso de que, se se quisesse ler a filosofia real de Platão nos diálogos — filosofia nunca posta por escrito —, traduzi-la para a linguagem de conceitos inequívocos, fosse preciso proceder a Aristóteles e, passando por ele, por assim dizer, produzir a filosofia platônica que ele critica?

7. Parece-me agora que qualquer interpretação que adira apropriadamente ao assunto aqui investigado deve começar com a suposição de que a crítica aristotélica a Platão se apoia em algo essencial que tem em comum com ele, sendo esse fundamento comum a “virada” para os logoi conhecida de sua formulação literária no Fédon.

8. Em Platons dialektische Ethik elaborei em que medida essa investigação da realidade tal como presente nos logoi fornece acesso à verdade do que é, e como serve para descobrir a verdadeira ordem do cosmos, mostrando também que a investigação dos logoi é a tarefa real que toda a tradição da filosofia grega antiga estabeleceu para si mesma, e como Platão, ao construir sobre essa tradição, aborda essa tarefa mitologicamente em seu Timeu.

9. O “espelho” dos logoi per se não é, assim, de modo algum o objeto ao qual se restringe o pensamento, valendo isso também quanto à questão de fato central da Metafísica, a do τὸ ὄν ᾗ ὄν (o Ser enquanto Ser), o logos que afirma o ser de algo.

10. Se começamos estabelecendo essa base comum em Platão e Aristóteles — que, aliás, torna compreensível como Aristóteles, apesar de sua crítica à doutrina platônica das ideias, pôde mesclar-se à influência intelectual essencialmente unificada da filosofia platônica e assim tornar-se o fundador da metafísica ocidental —, então, e precisamente então, já não faz sentido reduzir a diferença entre os dois a diferença nas formas de sua produção literária, como eu mesmo havia anteriormente tentado fazer.

11. Comecemos com Platão, sendo meu ponto de partida que Platão nos disse com bastante clareza, tanto em suas obras literárias quanto na Carta Sétima (que presumo autêntica), que foi seu encontro com Sócrates que o pôs no caminho do pensar, encontro com homem de retidão inconcebível em meio a mundo que já não tinha a menor noção do que tal retidão fosse.

12. Que ideia deve ser esta? Primeiro, deve estar clara e indisputavelmente presente diante dos olhos de quem assim vive e decide tão infalivelmente, e, segundo, é claro que quem assim vê o reto com os próprios olhos, por assim dizer, não pode realmente ser dito ter de fazer escolhas, pois não se pode negar o que se vê com os próprios olhos, tal como não se pode deliberadamente errar aquilo que se está tentando agarrar.

13. Ao elaborar essa utopia, Platão se apoia na matemática, que, segundo sua própria representação de Sócrates, não cai no campo do saber e da ignorância socráticos, mas todos podemos ver que a matemática lida com realidade que, na linguagem aristotélica, é παρὰ ταῦτα, realidade além e ao lado do mundo visível — sendo consideravelmente mais fácil para nós compreender esse fato do que a maneira infalível como Sócrates vê o reto.

14. Essa é, a meu ver, a conclusão a ser tirada das décadas de debate sobre a doutrina dos números ideais, sendo evidente que Platão toma o número como guia em sua investigação do logos ousias, podendo isso ser entendido no sentido de que o eidos se revela ser o ἓν εἶδος para os πολλά, a forma ou unidade única do Múltiplo, que, em sua multiplicidade variável, compõe o mundo do Devir, mas tem também sentido muito mais profundo.

15. Estabelecido isso, só se pode concluir que todo o procedimento não pretende chegar a sistematização rígida, pirâmide de ideias, revelando-se antes que o número como unidade do múltiplo é o paradigma ontológico, apontando essas classificações dihairéticas para um todo de explicitações, por assim dizer, todo incapaz de jamais ser completado, e precisamente nesse fato temos talvez a mais importante analogia entre ideia e número.

16. O significado desse ponto, parece-me, só pode ser apreendido contra o pano de fundo do pitagorismo, onde, embora deixado inteiramente sem explicação, todo pensamento é guiado pela convicção básica de que, apesar da variedade ilimitada e confusa dos fenômenos, existem neles relações matemáticas puras e assombrosamente precisas, como as particularmente evidentes nas harmonias, sejam de sons ou da ordem cósmica.

17. Tendo apontado esses aspectos da assimilação e transformação platônicas da doutrina pitagórica do peras e do apeiron, parece lógico reelaborar o que indiquei em minha interpretação do Filebo de 1931, onde o método usado era mais o da descrição fenomenológica que a interpretação em contexto histórico, tendo ali elaborado sobre a curiosa persistência da indeterminação no efeito do peras sobre o ser do que é limitado por ele.

18. O ser do que “se tornou”, que constitui o terceiro gênero, não é precisamente Ser “puro”, mas mistura de Ser com Não-ser e Devir, soando mais aristotélico do que deveria quando Platão o chama de γένεσις εἰς οὐσίαν (vir-a-ser em direção à essência), pois não há aqui referência a processo natural em que algo se desenvolve em sua essência, a entelecheia, mas sim a aproximação dos fenômenos a seus números e medidas ideais.

19. Ao ensinar que sua dialética jamais poderia chegar a uma completude, Platão parece ter tirado a conclusão apropriada da experiência fundamental dos primeiros pensadores gregos, sendo a doutrina do Dois indeterminado doutrina da discrepância primordial entre essência e fenômeno, discrepância tão incoativamente expressa no Timeu quanto no poema doutrinário de Parmênides, que anexa descrição do mundo dual de oposições ao ensinamento eleático da unidade, sem esclarecer a conexão entre sua primeira e segunda partes.

20. Voltemo-nos agora à crítica aristotélica à doutrina platônica das ideias, que deve ser vista, sustento, contra o pano de fundo da seguinte questão: será o Ser pura harmonia numérica? E, correspondentemente, será o logos, com o qual apreendemos o que verdadeiramente é, um entrelaçamento de determinações eidéticas?

21. Partindo dessa suposição, parece-me poder resolver com sucesso problema até aqui totalmente irresolúvel na tradição: de onde Platão tirou as ideias? A pesquisa até agora nos disse, aproximadamente, o seguinte: Platão tomou as ideias das aretai e das entidades matemáticas, por razões que também incluí em meu relato do desenvolvimento platônico: porque aqui algo permanentemente fixo e estável “além” do fluxo de fenômenos entra claramente em vista.

22. A crítica aristotélica a Platão se opõe exatamente a essa extensão das ideias, encontrando-se, no primeiro livro da Metafísica, em vários lugares — sempre na forma “nós” — que o argumento para a hipótese das ideias exige aceitar mais ideias do que “nós” aceitamos.

23. Minha tese é, então, esta: Aristóteles reduz o problema das ideias àquele único caso em que, dados os pressupostos ontológicos nele implicados, é mais provável resolver-se — o caso do physei on. E, como sabemos, mostra então que, mesmo neste caso mais promissor, não se pode falar de ideias existindo “por si mesmas”.

24. Outro exemplo ocorre quando Aristóteles se refere ao fato desconfortável de que o eidos (espécie) de fato nem sempre é um eidos, e o genos (gênero) nem sempre um genos, sendo este às vezes espécie do gênero imediatamente superior, aparecendo, nesse caso, tanto a espécie quanto o gênero como “causativos” no logos.

25. Aristóteles mostra agora por que mesmo ali não funciona, vendo no pensamento platônico matematização da natureza e desenvolvendo, em oposição a Platão, embora não só a ele, a doutrina das quatro causas, baseada no modelo da techne.

26. O primeiro livro da Física mostra-nos quanto esse argumento se dirige contra Platão, fazendo-se ali a observação seminal de que o que Platão chama Não-ser pode na verdade ter dois sentidos, não sendo o Não-ser simples e inequivocamente o não-ser da heterotes no eidos, aquilo que, em qualquer determinação eidética dada, exclui todas as outras determinações.

27. Muitas distinções em relação à techne são, porém, também evidentes, sendo uma das mais óbvias que, no caso da obra de arte, claramente só o produto acabado é o que podemos dizer constitui seu eidos, não sendo uma obra de arte inacabada de modo algum aquilo que pretende representar.

28. O significado dessa tese antiplatônica pode ser esclarecido em referência a pequeno ponto filológico sobre problema menor em Aristóteles, ponto, porém, que a meu ver ainda não foi devidamente explicado, gostando Aristóteles de ilustrar a doutrina do enhylon eidos com uso linguístico particular, o das palavras σιμός e σιμότης, “nariz achatado”.

29. Mais importante, porém, é o modo como a crítica básica aristotélica à afirmação de que só as ideias são verdadeiro Ser afeta suas próprias doutrinas, especialmente a do logos ousias, que é tanto um λόγος τοῦ εἴδους (afirmação da forma).

30. De modo estranho, o pensamento platônico sobre o eidos tende a obscurecer o sentido real do logos na medida em que o concebe como a combinação de ideias entre si, pois o próprio logos implica mais que um encaixe, mais que soma de essências, sendo sempre referência a algo, a algo que está aqui e agora, um “isto-aqui” (todi ti), do qual não só sua definição essencial pode ser expressa, mas ao qual muito mais além pode ser atribuído, precisamente não constitutivo de sua essência permanente.

31. O ponto de partida da doutrina aristotélica das categorias parece ter sido questão de lógica, lógica, porém, não no sentido de que seu propósito original fosse evitar equívocos e argumentos sofísticos, havendo antes, mais provavelmente, conexão real entre a diferenciação categorial dos vários sentidos de “ser” e a prioridade no ser que Aristóteles atribui àquilo que é “por natureza”, e que torna o padrão para tudo que se poderia reivindicar realmente “é”.

32. Essa distinção entre o essencial (ousia) e o não essencial (poion) já é pressuposta na lógica definicional dihairética platônica, mas Aristóteles reconhece que também os incidentais, os συμβεβηκότα, podem ser ditos da coisa existente em sentidos bastante diferentes, e que se referem a seu ser, ainda que de modos diversos, e não de modo algum a algum tipo de não-ser ou irrealidade.

33. O que fundamentalmente distingue as outras categorias do “quê” essencial é o fato de que o conteúdo do que afirmam só pode existir em outra coisa, cuja essência já foi determinada, não podendo seu conteúdo jamais existir por si mesmo, não podendo tampouco, é claro, a determinação essencial da coisa existente ter ser independente por si mesma, mas apenas porque está completamente absorvida na coisa de que se afirma: seu sentido só pode ser significar esse ser.

34. O insight decisivo em Aristóteles, o que fornece a base para toda sua doutrina das categorias, é que a natureza unitária da essência delimitada e apreendida pelo logos do ti en einai não é de modo algum um ser por si mesma, constituindo antes o ser-por-si-mesma da coisa existente.

35. Não se trata aqui, assim, de misteriosa “inversão da pirâmide do ser” (Stenzel) que Aristóteles empreende ao divergir de Platão, mas de tirar as consequências de uma questão levantada pelo próprio Platão: o que realmente queremos dizer quando imprimimos o selo do “ἐστι” (“é”) sobre algo.

36. É evidente que os diversos problemas na doutrina das ideias geraram as mais diversas tentativas de solução entre os sucessores platônicos, sendo arbitrário selecionar qualquer uma delas em particular como genuinamente platônica entre as variações da doutrina das ideias advogadas por Eudoxo, Espeusipo, Xenócrates e muitos outros, de alguns dos quais mal conhecemos os nomes, e.g., Hestieu.

37. É suposição razoável de que partir que as fórmulas conceituais destinadas a fornecer o novo fundamento à posição aristotélica são precisamente aquelas que mais originam-se dele mesmo, não sendo o ti como tal, em distinção do não essencial (ποιόν, συμβεβηκός), que fornece esse fundamento, mas mais provavelmente a persistência da essência através das fases de sua autorrealização, o ti en einai, e sobretudo a definição dessa realização de ser como energeia e entelecheia, respectivamente, e a determinação “analógica” do sentido desses conceitos em correlação com dynamis.

38. Nessa medida a metafísica aristotélica pode dizer-se culminar no reconhecimento de que, no ver da essência (nous), realiza-se um sentido de verdade não composta (ἀσύνθετον) e desvelamento que precede todas as afirmações sintéticas ou “aditivas” platônicas e sua possível verdade ou falsidade.

39. Apesar de toda crítica quanto a este ou aquele ponto, Aristóteles concorda com Platão quanto à sustentabilidade da chamada doutrina das ideias, persistindo mesmo em Aristóteles elemento de pitagorismo: o mais alto é o puro, não tendo mudado nada, afinal, quanto àquilo que o próprio Aristóteles reconhece quando, apesar de todas as suas objeções e críticas, caracteriza Platão como seu amigo, permanecendo entre ele e Platão fundamento comum último.