Dialética e Sofismo na Carta Sétima

GADAMER, H.-G. Dialogue and Dialectic: eight hermeneutical studies on Plato. New Haven: Yale Univ. Pr, 1980.

1. O que é, afinal, a dialética em Platão é hoje geralmente reconhecido como algo que começou naquelas conversas que dirigem e guiam o interlocutor, o tipo de fala pela qual Sócrates é famoso, sendo precisamente a interpenetração dessa dialética inicial com preocupações lógicas o que deu origem à sutil e engenhosa teoria platônica de formação de conceitos, o procedimento de hipótese e diairese em que consistiria a arte do dialético, insight devido sobretudo a Paul Natorp e Julius Stenzel, e demonstrado fenomenologicamente, em Platons dialektische Ethik, que as determinações básicas alcançadas pela arte dialética no Sofista, no Político e no Filebo têm raiz no diálogo filosófico vivo.

2. O que hoje chamamos geralmente de dialética só pode ser parcialmente explicado por sua origem no diálogo, podendo o mais singular monologista entre os dialéticos filosóficos, Hegel, reivindicar ter fundado seu pensamento na arte de conduzir uma conversa que Sócrates praticava com “jovens dóceis”, sendo, embora principalmente guiado pela metodologia cartesiana, o método hegeliano de desenvolvimento sistemático e universal de todas as determinações do pensamento dotado precisamente daquela mesma lógica diretamente sequencial que encontramos nos diálogos platônicos.

3. Cada vez mais os estudiosos de Platão têm reconhecido o que Werner Jaeger já afirmara em 1912: que, apesar de tudo, “permanecerá mero paliativo tentar, na ausência de outras fontes, extrair dos diálogos informações sobre a doutrina platônica das ideias ou a teoria dos números”, tendo por isso a pesquisa platônica se voltado cada vez mais às discussões didáticas da Academia, das quais não temos conhecimento direto, explorando seus reflexos em Aristóteles e seus contemporâneos.

4. Não estamos diante de um ou/ou, pois deve haver razão para que Aristóteles pudesse contar Platão entre os pitagóricos, ainda que sua perspectiva estivesse restringida por sua própria rejeição da matemática e sua deliberada recapitulação do pensamento dos antigos “fisiólogos”, podendo-se aceitar como fato que a filosofia platônica de fato construiu aritmologicamente os “princípios” do Um e do Múltiplo.

5. Talvez uma solução para nosso problema se encontre na enigmática descrição que o Sofista dá da atividade do dialético (253d), pois esse trecho fornece relato lógico do procedimento de divisão conceitual que, como prova a dupla antítese de sua estrutura sentencial, implica eo ipso um elemento de pensar em contradições, confirmando inversamente o “exercício” do Parmênides, exemplo da dialética de proceder a partir de pressupostos opostos, que tal procedimento deve ser entendido em relação à visão global do dialético, que sabe proceder em discussão, em argumento e contra-argumento.

6. A discrepância entre um insight e sua demonstrabilidade é precisamente a questão do tão disputado excurso da Carta Sétima, onde também se pressupõe evidente por si mesma que a verdade de um insight deve afirmar-se em discussão, isto é, contra qualquer contra-argumento possível.

7. Em forma de excurso de quatro preciosas páginas, a Carta Sétima trata da questão dos meios pelos quais um insight pode ser alcançado, tendo a autenticidade da carta sido há muito contestada, e o chamado excurso, em particular, questionado recentemente por muitos por supostamente não concordar com as doutrinas conhecidas de Platão, sendo verdade também que a linha de pensamento aqui é apresentada de modo vago e tortuoso, e o argumento às vezes surpreendentemente simplista.

8. Só ficando claro sobre a função do excurso, o lugar propedêutico de sua exposição, pode-se alcançar acesso hermeneuticamente correto a ele, sabendo-se então que dele não se deve esperar nenhum conteúdo específico da filosofia platônica, nada da ascensão à ideia do Bem pelos degraus do conhecimento, nada de sua dialética das ideias, cujo desenvolvimento conceitual engenhoso se espelha em tantos diálogos, não sendo a chamada teoria epistemológica do excurso teoria do conhecimento alguma, mas teoria do ensino e da aprendizagem, cujo têmpera deve ser testado no discurso didático e erístico.

9. Não há mais necessidade de explicar por que uma carta desse gênero político, especialmente dirigida aos apoiadores do assassinado Dion, provindos do círculo da Academia, dá o mínimo possível de aparência esotérica e nunca menciona expressamente a doutrina das ideias, sendo, porém, inadmissível interpretar a reserva exibida no excurso quanto a essa doutrina como sua renúncia, sendo interpretações desse tipo, que fariam do Platão tardio crítico de sua própria doutrina das ideias, irreconciliáveis, mesmo deixada de lado a Carta Sétima, com a discussão na Academia tal como a ela chegou.

10. Um exemplo ridiculamente simples, o conhecimento do círculo, objeto de investigação matemática, ilustra o tema geral de que os meios, médios, momentos, em e pelos quais o insight e sua comunicação devem alcançar-se, não são capazes de compelir ninguém a compreender, podendo os silogismos aristotélicos ou um sistema dedutivo, a geometria euclidiana, por exemplo, construir provas que, por sua força lógica, compelem todos a reconhecer a verdade, o que, segundo Platão, não se alcança no domínio da filosofia das ideias.

11. Platão quer mostrar que esse ideal não pode de fato realizar-se, examinando para isso os meios que usamos para tornar claro nosso sentido a quem nos compreenderia, distinguindo três componentes em qualquer insight que tenhamos de uma coisa, três meios pelos quais nosso conhecimento dela deve ser comunicado, aos quais acrescenta um quarto, o próprio conhecimento produzido pelos três primeiros, tendo aqui quatro modos pelos quais a coisa conhecida pode dizer-se “presente” para nós, distinta obviamente de todos eles a própria realidade cujo conhecimento está em questão, sendo esta a quinta na série: (1) nome ou palavra (onoma), (2) explicação ou determinação conceitual (logos), (3) aparência, imagem ilustrativa, exemplo, figura (eidolon), (4) o próprio conhecimento ou insight.

12. Platão afirma que nenhum desses quatro dá certeza de que neles a própria coisa venha a ser conhecida como verdadeiramente é, exemplificando com o círculo, boa escolha certamente, pois nenhum conhecimento prévio da doutrina das ideias ou da dialética dos conceitos é necessário para ver que um círculo é algo diferente das coisas circulares que chamamos redondas, curvas, ovais, orbiculares etc., e que vemos com os olhos.

13. Tampouco é o círculo o que Platão chama de ideia em sentido estrito, pertencendo antes à categoria das construções matemáticas que constituem espécie de mundo intermediário entre o sensível e o inteligível, havendo muitos círculos verdadeiros e não apenas o círculo, e podendo reconhecer-se, em qualquer um deles quando representado por figura, tudo o que se pode saber sobre a geometria do círculo, exigindo a geometria figuras que desenhamos, mas tendo por objeto o próprio círculo.

14. O círculo é instância do conhecimento de todas as coisas cognoscíveis apenas pelo pensamento, demonstrando que não se pode comunicar o próprio conhecimento sem conhecer um nome para ele e poder explicar a palavra com que se o nomeia mediante determinação conceitual, sendo evidente, então, que se deve ter em mente a aparência desse tipo específico de coisa.

15. Terceiro na lista está a figura, envolvendo o exemplo matemático escolhido algo desse tipo, devendo esse terceiro item ser tomado em sentido bastante geral, permanecendo em aberto até que ponto a comunicação do conhecimento envolve figuras artificialmente produzidas, como as desenhadas em matemática, ou fenômenos ilustrativos mesmos, ou até ilustrações usadas ao falar — o “exemplo”, em outras palavras — podendo todas ser pensadas como eidola.

16. Quarto na lista platônica está o conhecimento, o insight e a opinião verdadeira, tendo todos eles lugar não em sons proferidos nem no corporal e tangível, mas na alma, sendo esse quarto diferente dos outros três, mas não sendo tampouco a própria coisa, pois o próprio círculo não está na alma, sendo algo distinto, uma coisa idêntica a si mesma e diferente de tudo o que ocorre na alma, ocorrendo muitas coisas na alma.

17. Apesar de todas as diferenças entre esses quatro, há algo comum a todos eles que possibilita agrupá-los: todos devem desempenhar papel se realmente se quer apreender a coisa, tornando todos a coisa presente de um modo ou de outro — na palavra, no conceito, na ilustração e, acima de tudo, na luminosidade de um insight que nos vem de todos eles — estando presente a própria coisa, sendo o próprio círculo, além desses quatro que “são” o círculo, o quinto, não sendo a enumeração simples platônica, concatenando coisas aparentemente tão diversas, desprovida de justificação.

18. Platão começa então a demonstrar o ponto para o qual toda a exposição vinha conduzindo: esses quatro são de fato indispensáveis ao verdadeiro conhecimento, mas são de tal natureza que, se deles nos valemos, nunca podemos apreender a própria coisa com completa certeza, nunca podendo estar certos de que, com esses meios, a própria coisa se exibe em sua plena inteligibilidade “desvelada”.

19. Levanta-se a questão de por que, nessa análise dos quatro meios, Platão enfatiza apenas a fraqueza dos logoi, quando na verdade não só palavra e discurso, mas também figura e estado interno da mente estão entre esses quatro, mas quem não vê de imediato que esse processo de alcançar e comunicar compreensão sempre ocorre inteiramente no meio de uma pessoa falando com outra?

20. Deve-se manter claramente em mente que a exposição platônica dessa fraqueza é feita para quem não tem educação filosófica prévia, enfatizando repetidamente que cada um desses quatro meios tende a trazer à tona uma realidade de tipo específico em vez da realidade da própria coisa que deveria ser exibida na palavra ou discussão, intuição ou insight, tendo todos, por assim dizer, tendência intrínseca à distorção.

21. Isso é mais fácil de ver em relação ao que chamamos figura, não sendo coincidência que Platão altere a sequência aqui (343a) e comece estabelecendo que todo círculo desenhado é o completo oposto do que deveria ser, sendo, em qualquer ponto dado, algo reto, enquanto o próprio círculo não exibe o menor traço de seu oposto, a retidão, não havendo círculo perfeitamente desenhado, sendo toda figura de algum modo deficientemente redonda.

22. Mantendo-se em mente o estado da matemática no tempo de Platão, para o qual o insight platônico sobre a diferença ontológica entre realidade sensível e realidade inteligível não era de modo algum tão óbvio, o exemplo torna muito claro o que Platão quer dizer, referindo-se precisamente ao problema clássico da quadratura do círculo, problema aparentemente solúvel se se parte da deficiência de todo círculo desenhado.

23. Não é tão fácil explicar por que a fraqueza das palavras e da determinação conceitual que ocorre em palavras, no meio de sons proferidos, consistiria em trazer à tona o que elas mesmas são e ocultar o que deveriam representar, dizendo Platão apenas que nada é constante e confiável nelas porque toda designação de uma coisa é de algum modo arbitrária e, dada convenção diferente, poderia igualmente designar outra coisa.

24. Nesta era de linguagens lógicas artificiais esse ponto dispensa maior elaboração, sabendo-se que a razão da invenção das linguagens simbólicas matemáticas e seu aperfeiçoamento no último século foi que a linguagem convencional era incapaz de compelir alguém a compreender algo, enredando-nos antes, por sua imprecisão e ambiguidade, em pseudoproblemas, daí a reivindicação da lógica de ter-nos livrado desse tipo de erro aperfeiçoando um sistema artificial de signos.

25. As coisas tornam-se perplexas aqui, especialmente porque Platão não para depois de dizer que a palavra nada tem de fixo e certo, prosseguindo a caracterizar a afirmação definicional (logos ousias) como igualmente fraca, precisamente por ser composta de palavras, o que soa estranho em muitos aspectos, sendo claramente reduzida a ambiguidade de uma palavra diretamente por seu valor posicional no contexto do que é dito.

26. O Parmênides platônico parece conter boa resposta a essa questão, não se pressupondo, como na Carta Sétima, nenhum insight lógico que só se pudesse ter alcançado ao final de algum curso platônico de instrução, sendo antes o ponto de partida a experiência dialética que todos têm desde o início.

27. Em todo caso a dialética a ser experimentada aqui é exatamente do mesmo tipo demonstrado no exercício do Parmênides, resultando também da multiplicidade de respeitos sob os quais algo pode ser interpretado na linguagem, podendo-se lembrar aqui a primeira hipótese do Parmênides, onde essa multiplicidade não era ambiguidade onerosa a eliminar, mas totalidade de aspectos de sentido inter-relacionados que articulam um campo de saber.

28. Só tendo em mente essa experiência dialética imediata e fundamental se compreende o que Platão quer dizer ao descrever a possibilidade última do conhecimento como uma demora (Verweilen) junto aos quatro meios, demora que vai e vem de um a outro, sendo completamente equivocadas todas as tentativas de ler nessa série de meios uma ascensão ordenada, uma gradação correspondente à ascensão da alma por todo o sistema do saber até a ideia do Bem.

29. Ainda assim há dificuldade aqui: enquanto as fraquezas dos três primeiros são apontadas em detalhe na discussão da fraqueza dos logoi, não parece haver menção à fraqueza do quarto, do estado da alma quando reconhece ou sabe, ao menos não em palavras claras, devendo o estado da alma que chamamos conhecimento ou insight na verdade também ser de tal natureza que se afirma e assim oculta a própria coisa.

30. Resumindo, mantendo-nos no fenômeno, na própria coisa, pode-se ver que a fraqueza dos quatro é a mesma, podendo-se aplicar a lógica platônica para deixar bastante claro por que essa fraqueza não pode ser superada sem que Platão o tenha efetivamente afirmado.

31. O significado de o inessencial se impor à frente pode mostrar-se facilmente em relação ao exemplo matemático, mas não é só ali o caso, devendo-se manter constantemente em mente que, da primeira à última palavra, essa chamada teoria do conhecimento da Carta Sétima se refere à comunidade existente entre pessoas que falam umas com as outras, levantando a questão de como um insight pode tornar-se compreensível e presente para mim e para ti, ou, dito de outro modo, como uma coisa pode estar presente naquilo que se diz de modo a estar verdadeiramente ali: desvelada e não confundível por objeção alguma.

32. As coisas são diferentes naqueles casos em que não há certeza factual do mundo da vida a imunizar-nos contra a tagarelice, isto é, naqueles casos em que realmente nos preocupamos com a própria verdade e em que, consequentemente, nos compelimos uns aos outros a esclarecer o que é correto e a apresentar um argumento.

33. Tomemos um exemplo: exemplos, é claro, são um dos meios necessários em que o verdadeiro conhecimento é apresentado, pertencendo à classe do eidolon, e no domínio das considerações e justificações morais seu papel corresponde, em certo sentido, ao papel da figura na matemática, não sendo eles mesmos o que se pretende, mas tornando-se visível neles aquilo que se pretende, sendo aquilo a que se aponta para esclarecer o que realmente se pretende, sendo, em outras palavras, paradeigmata.

34. Por essa razão o conhecimento que exigimos uns dos outros da quinta coisa, a própria coisa, está constantemente ameaçado, sendo um dos insights mais agudos e maravilhosos de Platão que esse perigo tem sua fonte na fraqueza dos logoi, fraqueza explorada pela nova paideia na era do sofismo.

35. O exemplo moral usado torna claro de imediato o que se quer dizer quando o texto afirma que quem deve alcançar visão da própria coisa, ou quem geraria essa visão em outrem, precisa ter “afinidade” com a coisa além dos dotes intelectuais de compreensão e memória.

36. Tendo esse pano de fundo em mente, pode-se determinar mais precisamente o que Platão poderia ter dito na única e longa discussão que teve com Dionísio II, discussão que o aspirante jovem príncipe tentara pôr por escrito, sem autorização de Platão e de modo bastante inadequado, dando-se em 344d4 um verdadeiro título para a techne de Dionísio: περὶ φύσεως ἄκρα καὶ πρῶτα (os princípios supremos e primeiros da natureza).

37. Não há dúvida de que Platão considera a doutrina do Um e da Díade indeterminada o verdadeiro assunto sob investigação, declarando impossível uma exposição escrita dessa doutrina, sendo, como sabemos, precisamente essa doutrina que Aristóteles sobretudo representa e critica como a filosofia real de Platão, não podendo, como Aristóteles nos diz, essa doutrina dos archai ser de modo algum separada da doutrina das ideias.

38. Como o Parmênides mostra, uma única ideia por si mesma não é de modo algum cognoscível, sendo esta a fonte do erro que o jovem Sócrates comete, estando envolvida em qualquer insight toda uma trama ou rede de ideias, dizendo respeito o real questionamento platônico aos princípios constitutivos, organizacionais e estruturais dessa interconexão das ideias.

39. É essa mesma dialética do Um e do Múltiplo que estabelece os limites finitos do discurso e insight humanos, e nossa situação fecunda a meio caminho entre sentido único e múltiplo, clareza e ambiguidade, não estando Platão interessado em nenhuma alternativa, seja elevar a docta ignorantia socrática a uma dialética da reflexão (Hegel), seja erigir um universo estruturado derivado de um primeiro e supremo princípio, embora essa última espécie de ideia neoplatônica de estrutura possa remontar à Academia e ao pensamento dos discípulos platônicos.

40. A cosmologia platônica não é, porém, simples variante do pitagorismo, baseando-se na doutrina das ideias e apresentando a gênese do mundo numa narrativa mítica segundo a qual o demiurgo faz as coisas olhando para as ideias como modelo, querendo assim Platão mostrar que as ideias são o fundamento de toda a ordem do mundo, e por isso devendo aplicar o modelo da techne à natureza como um todo.

41. Não há menção a tudo isso no contexto da Carta Sétima, mas ainda assim isso subjaz à exposição platônica ali, descrevendo como o insight ainda pode ser alcançado dentro das limitações dadas e da finitude de nossa existência humana.

42. Pode-se ver, assim, que o programa anunciado na Carta Sétima concorda plenamente com as preocupações platônicas de toda a vida e com sua explicitação literária dessas preocupações nos diálogos, sendo o filósofo e o sofista demasiado fáceis de confundir um com o outro, devendo por isso ser tarefa da filosofia separá-los e separar-se a si mesma da impureza do sofismo dentro de si, tarefa que cria a tensão perpétua em que a filosofia se encontra desde o tempo de Platão.

43. A questão de Sócrates era nova, a questão do que algo é, baseada na suspeita e na experiência de que quem diz algo nem sempre sabe o que está dizendo, sendo precisamente a arte da retórica e a aceitação geral de meras opiniões o que tornava essa ignorância perigosa.