5 Diálogo socrático

GADAMER, Hans-Georg. Plato’s dialectical ethics: phenomenological interpretations relating to the Philebus. New Haven , Conn.: Yale Univ. Pr, 1991.

Sobre a Dialética de Platão

Parte I: A Conversação e o Modo Como Chegamos a uma Compreensão Compartilhada

Seção 5: O Diálogo Socrático

1. A caracterização geral da estrutura da fala científica e das formas de sua degeneração indica, ao mesmo tempo, o horizonte histórico no qual devem situar-se o diálogo socrático e, com ele, as origens da dialética platônica, encontrando o poder da fala nas formas inautênticas recém-caracterizadas encarnação no fato histórico do sofismo, cujos pais são, ao mesmo tempo, criadores da retórica, confirmando-se o parentesco estrutural entre as artes da retórica e da erística, já exposto de modo puramente substantivo, pelo fato de compartilharem as mesmas raízes históricas — e, na direção inversa, os motivos do cair sob o poder da fala como tal, num mundo compartilhado, tornam compreensível o efetivo poder histórico do sofismo em sentido amplo.

2. Mesmo nessas formas não genuínas de fala percebe-se o caráter peculiar da pretensão científica de poder responder por aquilo que se julga saber: na medida em que quem entra em conversa com Sócrates julga possuir saber sobre aquilo a respeito de que é interrogado, não pode recusar a exigência de responder por isso, sendo a genuinidade dessa pretensão ao saber posta à prova por essa exigência de prestação de contas.

3. O objetivo da análise do diálogo socrático que se empreende no esboço seguinte é exibir, na estrutura do chegar-a-um-entendimento decorrente do caráter conversacional dos diálogos, os elementos da fala substantiva e científica, destinando-se a evidenciação desses elementos estruturais a fornecer a chave para a subsequente interpretação da teoria da dialética.

4. Impõe-se, de início, indicar quais precondições da possibilidade de chegar a um entendimento compartilhado acompanham os temas objetivos dos diálogos socráticos: a pretensão ao saber que Sócrates examina é uma pretensão distintiva, não se tratando de um saber que uma pessoa tem e outra não, que uma pessoa reivindica e outra não — não um saber pelo qual apenas os “sábios” se distinguem, mas um saber que todos devem reivindicar possuir e, por isso, buscar continuamente na medida em que não o têm, pois a pretensão a esse saber constitui o próprio modo de ser da existência humana: o saber do bem, da arete.

5. É esse, então, o pressuposto orientador desde o início da investigação sobre o que realmente seja essa arete: que todos pretendem possuí-la, o que significa compreender-se em termos dela, devendo também, nesse caso, todos estar dispostos e ser capazes de dar conta de por que agem e se conduzem como o fazem, sendo capazes de dizer o que compreendem ser, com sua pretensão à arete, ao menos na medida em que são capazes, através do logos, de compreender-se em termos de algo — isto é, de voltar-se a algo que não está presente no momento.

6. A descoberta socrática é que essa pretensão, aparentemente tão evidente, não se cumpre por si mesma: a autocompreensão média do Dasein contenta-se com a mera aparência do saber e não consegue prestar contas de si mesma, sendo a questão socrática sobre o que é a arete uma exigência de que se preste contas — perguntando-se, por exemplo, por que aqueles que todos consideramos justos o são: o que é a própria justiça, cuja presença em alguém o torna justo.

7. Ao exigir-se prestação de contas, a compreensão predominante do Dasein revela-se inadequada: o saber sobre a justiça que se reivindica ao possuí-la é compreensão natural do que é regularmente compartilhado pelos modos de comportamento aceitos publicamente como justos, podendo, contudo, cada um desses modos de comportamento ser mau, ou o modo de comportamento oposto ser igualmente bom.

8. Poder-se-ia objetar que, afinal, obedece-se à prática obrigatória na sociedade — não seria isso uma compreensão de si mesmo? Contudo, apreensão real do que seja a arete só está presente na medida em que se é capaz de prestar contas do que torna bom o que é aceito como arete, o que significa que, tornando-se duvidosa a pretensão de poder prestar contas do que é bom, essa dúvida conduz à dúvida sobre a correção do que é aceito, sendo a consequência última de tal dúvida o hedonismo (República 538d): não sendo mais realmente capaz de compreender-se em termos de arete, a ideia do bem, como ideia formal de toda autocompreensão, recai sobre a experiência imediata e simplesmente certa do “sentir-se bem” — encontrando assim o exame socrático, ao lado da pretensão de compreender a arete, uma dúvida sobre a correção desse ideal, dúvida associada ao hedonismo, que parece constituir o caso extremo de uma autocompreensão autojustificadora do Dasein.

9. O bem cujo saber se reivindica e sobre o qual se exige prestação de contas é compreendido, em seu conteúdo, de dois modos: como arete — numa orientação para uma compreensão pública e moral do Dasein — ou como hedone (prazer) — rompendo com a visão dominante da moral, numa orientação para a certeza experiencial mais direta do bem.

10. Como refutação, o questionamento socrático visa mostrar que a pretensão — que, em si mesma, não se pode deixar de fazer — de saber o que é o bem permanece por cumprir, tomando essa demonstração a forma da ironia: Sócrates aborda o outro não como quem sabe e deseja, mediante saber superior, refutar a pretensão alheia, mas em aparente inferioridade, como quem não sabe.

11. Isso se evidencia no fato de o sofista tentar fazer parecer decorrer de sua tese o que dela absolutamente não decorre, resultando daí que a própria refutação socrática assume caráter erístico — o que não deve ser explicado imaginando-se que esse processo de enredar o oponente em contradições por meio de armadilhas lógicas visa expô-lo em sua incapacidade de detectar erros lógicos.

12. Sócrates conduz a refutação, em geral, desenvolvendo logicamente a tese do oponente até chegar a consequências em relação às quais a consideração das opiniões geralmente aceitas, sobretudo éticas, torna impossível ao oponente manter-se fiel às consequências de sua própria tese — a forma mais radical de refutação: refutar o oponente com base em pressupostos substantivos bem estabelecidos também para ele e incompatíveis com sua própria tese.

13. A conversa refutadora termina com uma prova de ignorância, mantendo até o fim, em cada um de seus passos, a premissa irônica de que o interrogado é o sabedor e o interrogador o ignorante, revelando a prova da ignorância de quem se presumia saber a vacuidade da pretensão ao saber feita pelo interrogado, caracterizando-se o fim da conversa por perplexidade irônica.

14. Ao refutar as respostas recebidas à pergunta sobre a essência da arete, Sócrates torna visível aquilo como que essa arete é buscada, a saber, o saber sobre o bem, sendo o bem, então, objeto do saber — o ponto focal unitário ao qual tudo deve ser relacionado, e em relação ao qual a existência humana, em particular, se compreende de modo unificado.

15. Esse sentido geral do bem já é claro no Protágoras, onde a refutação se vale da pretensão ao saber que os sofistas, como mestres de sabedoria, e sobretudo Protágoras (Protágoras 318d-e), necessariamente fazem, forçando-se o oponente a estabelecer uma concepção de meta uniforme do Dasein, um conceito do bem, e esclarecendo-se, pelo exemplo do que é assim afirmado como bom, o que necessariamente está envolvido no conceito do bem.

16. Aquilo como que esse “em vista de que” do próprio ser deve ser compreendido não se resolve pelo fato de dever ser objeto de saber: a explicitação predominante da ética em termos de arete, também defendida por Protágoras, não é capaz de prestar contas do que constitui a bondade da arete, e, sendo esse o caso, e devendo, apesar disso, aquilo compreendido como bem do Dasein ser capaz de prestação de contas, não fica claro por que se deveria compreender-se a si mesmo com base na arete, e não, antes, com base na experiência mais imediata do bem, o próprio sentimento de bem-estar, que, afinal, parece incompreensivelmente restringido pelas exigências da ética.

17. Mantendo-se firme o ponto metodológico dessa argumentação, compreende-se também por que huph' hedonon hettasthai (sujeição aos prazeres) é uma amathia (ignorância): esse pathos (condição passiva) ocorre como parte da visada do Dasein a uma autocompreensão unificada e é, ele mesmo, um modo de compreensão, não ocorrendo simplesmente como presença de um modo de sentir-se, mas constituindo, mesmo assim, um modo de projetar-se em relação a coisas vindouras, isto é, uma escolha.

18. A questão de saber se Sócrates fala a sério em sua equação hedonista entre “agradável” e “bom” só surge quando a discussão do hedonismo é desligada do contexto do diálogo como um todo, sendo a função da tese hedonista, aqui, apenas ajudar a demonstrar que a bravura é um tipo de saber, revelando-se nessa prova plenamente a vacuidade da pretensão sofística ao saber sobre a arete.

19. A possibilidade última de chegar a um entendimento compartilhado depende de se ter em comum uma pré-compreensão do bem: ao remeter-se a esse fundamentador último, a coisa em vista de que algo existe, esta última se torna compreensível em seu ser, tornando-se assim alcançável o acordo a seu respeito, devendo todo acordo ulterior desenvolver-se com base nesse.

20. Essa pré-compreensão daquilo que se busca, como aquilo com base no qual as coisas são compreensíveis e, assim, com base no qual a justificação é possível, determina o caráter da própria busca: o Dasein deve poder justificar-se em cada caso de seu voltar-se a algo, na medida em que faz pretensão ao saber, o que significa que deve compreender-se, em cada caso, com base naquilo em termos do qual — como sua possibilidade própria — constantemente se compreende.

21. Na medida em que o Dasein sempre já se permite conduzir sua vida com base numa compreensão explicitada de si mesmo e do mundo, a exigência de prestação de contas tem, inicialmente, o caráter de um testar essas explicitações sempre já preexistentes contra a ideia de uma fundamentação racional — com base naquilo em vista de que são o próprio ser e o ser do ente — de cada instância do voltar-se a algo.