Caminho para Platão

Andrew Fuyarchuk. Gadamer’s Path to Plato. A Response to Heidegger and a Rejoinder by Stanley Rosen. Eugene: Wipf & Stock, 2010

1. Apesar das pretensões de neutralidade ou impessoalidade na abordagem da história da filosofia, o passado permanece inevitavelmente mobilizado para legitimar orientações presentes, como ocorre quando a democracia liberal norte-americana funciona como padrão implícito para julgar Platão e convertê-lo antecipadamente em defensor de valores conservadores, capitalistas, militaristas e elitistas incompatíveis com a liberdade individual, a propriedade privada e a igualdade, ao passo que a confusão entre filosofia e ideologia impede o reconhecimento dos próprios preconceitos e reduz a história a instrumento de justificação de convicções previamente estabelecidas; em contraste, a importância de Martin Heidegger, Hans-Georg Gadamer e Stanley Rosen reside na recuperação criadora do pensamento platônico como possibilidade de interrogação crítica do presente.

2. O diálogo filosófico reconstruível entre Heidegger, Gadamer e Rosen acerca de Platão possui consequências políticas porque a busca desinteressada pela compreensão pode constituir uma forma radicalmente subversiva de existência, como exemplifica Sócrates, e porque, embora os três sejam pensadores especulativos, suas posições implicam orientações concretas diante de suas respectivas circunstâncias históricas, sobretudo no caso de Heidegger, cuja tentativa de pôr fim à tradição filosófica identificada ao platonismo (Platonismus) pretendia inaugurar um novo começo do pensar a partir de uma suposta apreensão aristotélica mais originária dos pré-socráticos.

3. Em oposição aos projetos modernos de renovação orientados para um futuro desconhecido, a formação da autocompreensão mediante o diálogo com a tradição, tal como desenvolvida por Gadamer, favorece humildade e moderação capazes de conter o fanatismo político e religioso, razão pela qual Platão e Aristóteles deixam de aparecer como polos antitéticos e passam a compartilhar, a partir do método socrático, a pergunta pelo significado daquilo que algo é, o respeito pelo outro enquanto outro e o reconhecimento de sua situação concreta; desse modo, não cabe exigir que a tradição se justifique diante dos representantes de uma época supostamente nova, mas submeter o pensamento contemporâneo à interrogação proveniente da sabedoria antiga, fazendo recair sobre o próprio pensamento de Heidegger, e não simplesmente sobre o platonismo, a exigência de questionamento.

4. A forma dialógica dos escritos de Platão constitui a base do desenvolvimento da filosofia hermenêutica de Gadamer e oferece uma correção decisiva da imagem de Platão difundida por Heidegger como fundador da metafísica, sobretudo porque o próprio Heidegger reconheceu posteriormente o erro dessa interpretação e agradeceu a Gadamer por sua retificação, embora o pós-modernismo tenha continuado a associar Platão, metafísica e término da filosofia; permanece, por isso, atual a contribuição gadameriana contra a recorrente aspiração humana a novos começos, ainda que sua imagem de Platão talvez já não possua hoje a mesma força crítica que poderia ter exercido sobre a cultura intelectual alemã das décadas de 1930 e 1940.

5. Desde sua apresentação a Gadamer por Leo Strauss em 1963, Stanley Rosen desenvolve uma crítica indireta à interpretação gadameriana de Platão, contrapondo à concepção de uma teoria dialética do ser, de uma verdade intersubjetiva e de uma comunidade de cidadãos-filósofos uma concepção platônica de ser transcendente ao humano e uma experiência erótica pessoal do Bem, da qual decorre uma alternativa política em que os filósofos permanecem relativamente afastados da vida pública e contemplam entre si a verdade e a justiça, impondo-se assim a questão de qual dessas perspectivas oferece instrumentos mais adequados para a crítica das tendências contemporâneas do pensamento.

6. A crítica de Rosen à leitura gadameriana da República evidencia uma inclinação matemática da filosofia de Gadamer que privilegia uma comunidade fundada no discurso racional e revela que sua hermenêutica, embora derivada da forma dialógica platônica e aparentemente aberta à pluralidade, repousa sobre uma decisão prévia acerca da essência humana e daquilo que os seres humanos deveriam desejar tornar-se, excluindo da associação política aqueles que não se interessam pelo diálogo, o consideram insensato ou experimentam uma verdade que não se manifesta mediante acordo intersubjetivo, os quais somente poderiam ser integrados mediante sua conversão em racionalistas procedimentais.

7. A capacidade de Rosen para explicitar o viés de Gadamer depende de sua abertura a uma dimensão distinta da existência, pois, embora a vida contemplativa apolítica exerça papel central em seu pensamento, sua interpretação da República reconhece que uma sociedade justa deve incluir perspectivas tão diversas quanto as de Trasímaco e Céfalo, ainda que modificadas, uma vez que o amor pelo Bem, quando moderado pela proporção matemática, permite reconhecer efetivamente o outro enquanto outro, ao passo que a assimilação de todos a uma mesma estrutura racional, atribuída criticamente a Gadamer, neutraliza justamente essa alteridade.

** Esboço **

8. A primeira parte, “Heidegger e Gadamer”, distingue três interpretações de Platão no desenvolvimento filosófico de Heidegger, partindo de sua aproximação, na Universidade de Marburgo durante a década de 1920, à fenomenologia de Aristóteles como meio de legitimar filosoficamente a fé e de estabelecer uma relação crítica com a tradição neoplatônica, passando pela intensificação dessa oposição depois de Ser e tempo (Sein und Zeit), quando Nietzsche se torna decisivo para o projeto de superação da história do esquecimento do ser (Seinsvergessenheit) ou niilismo cuja origem seria localizada na metafísica de Platão, até as transformações posteriores que simultaneamente estimularam e provocaram a investigação gadameriana de Platão.

9. A segunda parte, “A correção de Heidegger por Gadamer”, reconstrói a maneira pela qual os estudos platônicos de Gadamer, particularmente valorizados pelo Heidegger tardio, contribuíram para corrigir sua compreensão de Platão e para levá-lo a lamentar a aceitação da interpretação nietzschiana da história da filosofia, embora o livro sobre Platão esperado por Heidegger jamais tenha sido escrito e Gadamer raramente o tenha confrontado de modo explícito.

10. Na terceira parte, a compreensão gadameriana de Platão desenvolve-se a partir dos próprios ensinamentos de Heidegger para estabelecer um terreno comum entre Platão e Aristóteles nos domínios da ética, da verdade, da metafísica e da física, contrariando a oposição fundamental sobre a qual Heidegger edificara em grande medida sua interpretação da filosofia platônica e mostrando, por exemplo, que Platão pode ser considerado aristotélico em questões éticas e Aristóteles platônico em questões físicas, convergência que constitui a realização central de A ideia do Bem na filosofia platônico-aristotélica, de 1978.

11. A quarta parte, “A réplica de Stanley Rosen”, examina a compreensão gadameriana da dialética platônica, enquanto a quinta, “Política da exclusão”, investiga sua interpretação da República para revelar uma doutrina não explicitada segundo a qual, apesar da pretensão hermenêutica de manter indeterminado e aberto o significado do ser (Sein), a própria concepção gadameriana de dialética já pressupõe uma decisão acerca desse significado e incorre numa incoerência autorreferencial ao pretender considerar a dimensão dramática dos diálogos de Platão enquanto efetivamente a subordina a um caminho matemático para a filosofia.