ARISTÓTELES – PERSUADIR

Pedro Lain Entralgo, «La curación por la palabra»

Na obra de Aristóteles, o poder da palavra não se reduz à persuasão, mas recebe o nome de catarse em um famoso texto da Poética, cuja menção vem anunciada por outro texto não menos famoso da Política, em que Aristóteles discorre sobre a utilidade da música na educação dos jovens.

A questão da catarse trágica é delicada, enigmática e interminavelmente debatida, suscitando desde o Renascimento até os dias atuais uma produção crítica de proporções extraordinárias.

Apoiado no texto da Política, no escrito De mysteriis de Jâmblico, no comentário de Proclo à República de Platão e no Corpus Hippocraticum, Bernays rompe com a interpretação moral da definição aristotélica e entende a catarse das paixões como purgação da alma no sentido mais puramente médico.

A. Döring empreendeu um estudo do Corpus Hippocraticum para confirmar o núcleo da argumentação bernaysiana, segundo a qual o purgante age exacerbando previamente a doença que depois há de curar, mas só pôde sustentar seu intento forçando a significação dos verbos gregos que a coleção hipocrática usa para nomear a ação dos purgantes.

Bernaysiana é também a atitude hermenêutica de M. Kommerell em Lessing und Aristóteles (Frankfurt am Main, 1940), que, após estudar a história das interpretações até Lessing e Goethe, propõe conceber a ação psicológica da tragédia como uma “completa purgação da alma dos afetos perturbadores”, análoga à ação de um remédio terapêutico, processo que fica “por fora de toda categoria de valor.”

1. Tragédia ática e vida grega

Wolfgang Schadewaldt, em estudo publicado em Hermes, 83 (1955), propõe partir do que foram em Aristóteles o temor e a compaixão da definição trágica, argumentando que “temor” e “compaixão” são traduções inadequadas: o primeiro deve ser vertido como espanto ou horror, e o segundo como aflição ou comoção afetiva — ambos são afetos psicossomáticos elementares, não paixões “superiores.”

A filologia atual vê uma profunda relação analógica entre a assistência a um espetáculo trágico e a operação de uma cura psicoterápica eficaz — em ambas, o sujeito paciente resulta psicossomaticamente sossegado e aliviado por obra do que ouve e vê —, mas essa visão suscita quatro objeções importantes.

A catarse aristotélica deve ser entendida, à luz de uma interpretação que integre as quatro observações precedentes, como uma “catarse verbal ex auditu”, equiparável mutatis mutandis à que com suas palavras podem produzir o orador em seu auditório e o psicoterapeuta em seu paciente — e a interpretação da catarse aristotélica deve partir de um fato fundamental: o essencial caráter religioso da tragédia grega, de Téspis até as criações dos últimos trágicos.