Estoicismo
ELIASSON, Erik. The notion of “that which depends on us” in Plotinus and its background. Leiden: Brill, 2008
A noção de “depende de nós” foi introduzida por Aristóteles, mas foram os debates do período helenístico, provocados pela física determinista estoica e epicurista, que a estabeleceram como um jargão filosófico comum, tornando a questão do que depende de nós um tópico central.
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As contribuições do Estoico Antigo, principalmente Crisipo, foram particularmente importantes e provocativas para as outras escolas, como evidenciado pelas fontes posteriores que se referem à sua posição e argumentos.
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Foi apenas com o Estoico Romano, em especial Epicteto, que a noção de “depende de nós” se tornou absolutamente central para a ética estoica.
A noção de “depende de nós” em Crisipo
As fontes sobre a noção de Crisipo são predominantemente textos que discutem a compatibilidade de uma noção comum de algo que depende de nós com a sua teoria do destino, indicando que esta compatibilidade era a principal questão que os autores consideravam estar envolvida.
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Embora as fontes divirjam em detalhes, é possível reconciliá-las para estabelecer um quadro coerente da noção de Crisipo, cujo propósito era mostrar como sua teoria do destino poderia dar conta das coisas comumente tidas como dependendo de nós.
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Uma interpretação recente sustenta que Crisipo afirmava que (principalmente) ações dependem de nós, que apenas aquelas ações das quais somos a causa possível ou real dependem de nós, que a maneira de nos tornarmos tais causas é através do uso da nossa capacidade de assentimento, e que o fato de o assentimento humano não ser forçado nem totalmente impedido externamente garante a liberdade de força e impedimentos externos.
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A análise das fontes, no entanto, exige modificações: embora algumas fontes afirmem que o que depende de nós são ações (e.g., Aulo Gélio, Alexandre, Nemésio) e outras que é o impulso (Cícero, Aulo Gélio) ou o assentimento (Cícero, Plutarco, Clemente), a questão central para Crisipo era explicar que nós contribuímos para as nossas ações de modo que elas não podem ser explicadas apenas por causas externas precedentes.
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Crisipo deve ser visto como operando com uma noção exclusiva de “depende de nós”, pois a ação humana, em sua visão, segue por definição do assentimento, e o assentimento é por definição um ato da parte racional e governante da alma.
A noção de “in nostra potestate” em Sêneca
Sêneca desenvolve uma noção distintiva do que está em nosso poder (in nostra potestate), utilizando a distinção entre o que está em nosso poder e o que não está, onde as últimas coisas são geralmente caracterizadas como externas (à alma) e, portanto, dependentes da sorte (fortuna).
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Sêneca argumenta que as aparências (e.g., se um infortúnio parece mau ou não) não estão em nosso poder, mas aprovar ou não aprovar tais impressões usando a razão (ratio) está em nosso poder.
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Se alguém aprova uma impressão de algo indiferente como sendo bom ou mau, segue-se um estado de paixão; neste estágio, a alma torna-se dependente de mudanças externas, e não ceder às impressões relacionadas à paixão já não está em nosso poder.
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No entanto, mesmo no estado de paixão, optar pela vida filosófica ou pelos estudos filosóficos está em nosso poder, e é através do treinamento da razão que se pode livrar das paixões falhas e escapar do poder da sorte.
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A discussão do que depende de nós em Sêneca, portanto, vincula a questão ética do que constitui a felicidade (alcançada direcionando-se para o que está em nosso poder) com a questão física das obras e do escopo da sorte.
A noção de “depende de nós” em Musônio
Em um fragmento preservado por Estobeu, Musônio Rufo afirma, de maneira similar ao que se encontrará em Epicteto, que Deus colocou algumas coisas dependendo de nós e outras não.
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A resposta à questão de quais coisas dependem de nós é: “o que depende de nós é a coisa mais bela e excelente, através da qual Ele mesmo é bem-aventurado – o uso das impressões”.
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O uso das impressões, quando acontece da maneira correta (ὀρθῶς γιγνόμενον), é liberdade, bem-estar, contentamento, tranquilidade, justiça, lei, prudência e virtude completa.
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A noção em questão indica que Musônio identificou inteiramente o uso das impressões com o que depende de nós e vinculou fortemente o uso correto das impressões com o estado de liberdade como um dos aspectos definidores do estado de bem-estar (εὐδαιμονία).
A noção de “depende de nós” em Epicteto
Epicteto é talvez o primeiro filósofo para quem a noção de “depende de nós” é absolutamente central, coincidindo com os objetos da ética, para os quais ele exorta a dirigir todos os esforços a fim de se alcançar a boa vida.
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Epicteto afirma repetidamente que “apenas o uso correto das impressões depende de nós”, e que “a escolha e todas as obras da escolha dependem de nós”, enquanto “o corpo, as partes do corpo, posses, pais, irmãos, filhos, país e geralmente as coisas com as quais convivemos” não dependem de nós.
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Uma condição crucial para algo depender de nós é que não pode ser impedido: Epicteto identifica o que depende de nós com o que é propriamente nosso e com o que não pode ser impedido (ἀκώλυτον).
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Diferentemente de Crisipo, a preocupação de Epicteto não é com a compatibilidade de sua doutrina com uma noção comum, nem com a base para o louvor e a culpa das ações, mas exclusivamente com como atingir o bem-estar.
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A noção de Epicteto é restritiva a um ponto que vai além da noção exclusiva aristotélica (que tomava apenas ações racionais como dependendo de nós), pois ele exclui até mesmo tais ações racionais e restringe o que depende de nós a atos internos da alma.
A noção de “depende de nós” em Marco Aurélio
Nas Meditações de Marco Aurélio, encontram-se os mesmos pontos que nos fragmentos de Musônio e nas obras de Epicteto em relação à noção de “depende de nós”.
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Marco Aurélio fala em termos da classe das coisas que dependem de nós (τὰ ἐφ’ ἡμῖν), identificando essa classe com as coisas que estão dentro de nossa escolha (προαιρετικά) ou julgamento (ὑπόληψις).
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As coisas que dependem de nós são listadas como estados internos da alma racional (e.g., sinceridade, dignidade, tolerância ao sofrimento, contentamento com pouco), enquanto as coisas que não dependem de nós são o que é externo e está fora do alcance da escolha e da razão (e.g., tudo o que é corporal).
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A condição para a aplicação da noção é claramente a de “não poder ser impedido”, o que está por trás da exclusão de tudo o que é externo, envolvendo o corpo, da lista do que depende de nós.
Conclusões sobre as noções estoicas de “depende de nós”
A análise das noções estoicas revela um desenvolvimento significativo desde Crisipo até o Estoico Romano, principalmente em relação ao escopo de aplicação da noção e aos objetivos gerais da investigação.
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Em Crisipo, tanto atos internos (assentimento, impulso) quanto ações externas que deles seguem podem depender de nós, e sua explicação baseia-se em sua teoria das causas para identificar a contribuição do agente na causação de suas ações, visando compatibilizar sua doutrina do destino com uma noção comum.
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No Estoico Romano (Sêneca, Musônio, Epicteto, Marco Aurélio), a preocupação não é mais a compatibilidade com uma noção comum, mas exclusivamente como atingir o bem-estar, e a discussão vincula a ética à física através da oposição entre o que depende de nós (interno, não impedível) e a sorte (externa).
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Epicteto, em particular, internaliza a noção a ponto de excluir as ações (mesmo as racionais) do que depende de nós, restringindo-a a capacidades específicas da alma e suas atividades, como o uso correto das impressões e a escolha.
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A condição para algo depender de nós no Estoico Romano torna-se a de “não poder ser impedido” (ἀκώλυτον), o que leva à exclusão de tudo o que é externo e corporal da classe do que depende de nós.