Forma e Evento

DIANO, Carlo. Forma ed evento: principi per una interpretazione del mondo greco. Venezia: Marsilio, 1993.

A pesquisa sobre o silogismo estoico e aristotélico surgiu quase por acidente a partir de um problema técnico na história da filosofia grega, e o caminho percorrido sem direção prévia pode ter valor metodológico.

O silogismo aristotélico parte da forma essencial para derivar necessidade, como no exemplo de Córisco, homem mortal cuja morte é logicamente necessária mas individualmente indeterminada.

Os estoicos partem justamente dessa necessidade hipotética que Aristóteles deixa na indeterminação da tyche, mas recusam a própria existência da tyche e reformulam o silogismo.

As categorias estoicas reorganizam a ontologia em torno do evento concreto e da relação, tornando real apenas o que ocorre no hic et nunc.

A lógica disjuntiva estoica sustenta que todo julgamento é verdadeiro ou falso, e a necessidade universal exclui qualquer indeterminação.

O Deus de Aristóteles é forma pura, imóvel, separada das coisas e voltada para si mesma em contemplação; o Deus estoico é fogo artístico que age, percorre as coisas e é ele mesmo evento e destino.

O proêmio de Arato aos Fenômenos ilustra o Deus estoico como princípio de todos os eventos e sujeito implícito de todo discurso.

A oposição entre o Deus de Aristóteles e o Deus estoico traduz a oposição entre dois tipos de silogismo e duas concepções de ciência.

O silogismo estoico tem raízes no pensamento semítico-babilônico, onde os presságios são formulados com a conjunção condicional “se”.

O princípio explicativo mais profundo é a compreensão da realidade como evento, compartilhada pelo estoicismo e pelas formas de religiosidade semítica.

A concepção babilônica do destino não é apenas evento, mas também forma — o nam —, que antecipa não o eidos aristotélico mas o physis estoico enraizado no tempo.

Max Pohlenz e Edwyn Bevan investigaram os traços das obras de Zenão e Crisipo que revelam a mentalidade original de sua raça, e a resposta está na compreensão da realidade como evento.

A Grécia não ignorou que a realidade é evento — enfrentou e conteve esse entendimento em diferentes momentos históricos antes de sucumbir a ele na era helenística.

Todos os fenômenos que os historiadores enumeram para descrever a nova era derivam da categoria do evento.

A tyche é o ponto em que diversas concepções de vida se encontram e se irradiam, e sua história semântica percorre os estágios de acaso, deusa e destino.

Acaso como tyche, deusa como tyche, destino como tyche — três interpretações do evento, três atitudes, três visões de vida, todas deriváveis da representação do poder como força que “toma de surpresa” e aparece como “essencialmente outro”.

A Era Helenística é uma era de conflito entre o mundo da cultura e o da religião, e a causa única de todos os fenômenos descritos pelos historiadores está no princípio constitutivo do evento, contra o qual a forma já havia se apagado.

No mundo da religião helenística dois extremos se opõem — a selva escura das forças múltiplas e anônimas, e a igreja dos Mistérios — e seus princípios são o mesmo evento e poder, com a mesma meta: a salvação.

As divindades dos Mistérios quase todas originam-se no Oriente, e a mais importante delas é Serapis, criado sob Ptolomeu I Soter.

Culturalmente, os grupos filosóficos do período helenístico distribuem-se entre o polo da forma e o polo do evento.

Os cínicos e os estoicos reproduzem na razão os dois polos opostos da religião — o homem da selva e o homem da igreja — partindo ambos do evento mas de maneiras radicalmente distintas.

A liberdade estoica, ao contrário da cínica, ancora-se na providência e na razão que encadeiam os eventos em uma totalidade.

A razão diz ao estoico que ele deve estabelecer em si e em sua vida com os outros a unidade própria ao cosmos — a cosmópolis, universal como a igreja dos Mistérios.

O mundo da religião helenística é o mundo do “tremor” e do “pavor”; o da filosofia cínica e estoica é o da vontade selada na negação ou tensionada pelo esforço — sem sorrisos, sem repouso, sem as Graças e as Musas.

De Aristipo a Epicuro a Aristóteles — do menor ao maior — uma gradação no tratamento das formas e do evento.

Epicuro recusa o jogo porque recusa o risco, e funda a estabilidade das formas na necessidade eterna da natureza.

Para Epicuro a forma é meio; para Aristóteles e antes dele para Platão, a forma é fim em si mesma.

A forma para Platão é inefável e não pode ser ensinada — vê-se ou não se vê, e sempre de repente, como ato de graça.

Aristóteles vê esse nimbus mas acaba separando-o do sujeito — constrói dele um sujeito separado sem figura, deixando apenas a espécie para o sujeito dotado de figura.

Fora do intelecto, no mundo dos corpos, a forma é espécie — degradada e genérica — sobre cuja base vazia o acaso traça as marcas do indivíduo.

A poética que emerge desses elementos oscila entre a figura que substitui o halo da forma pela superfície lisa e brilhante, como nos hinos de Calímaco, e a espécie que oscila entre necessidade e contingência, como na comédia nova de Menandro.

A forma não separada de seu sujeito — os deuses e heróis homéricos, os de Píndaro, os homens e deuses de Fídias — exige uma lógica própria ainda a ser elaborada.

Forma e multiplicidade andam juntas — onde há uma forma, não há razão para não haver outra; e à unidade divina chega-se pela lógica do evento.

O polissimbolismo da religião mediterrânea é dominado pela lógica do evento, e as formas nele têm apenas funções evocativas e simbólicas — em seu coração está uma deusa-mãe “de muitos nomes”, como Ésquilo diz da Terra.

Os deuses olímpicos são todos antropomorfos mas imunes à velhice e à morte — o nimbus que enclausura a figura humana é feito substância e projetado na eternidade.

“Com isso”—diz Homero— “a deusa de olhos brilhantes voou para o Olimpo, onde, dizem, a mansão eterna dos deuses fica imóvel, nunca sacudida por vendavais, nunca encharcada por chuvas, nem a neve a assalta; o ar límpido se estende sem nuvem, e uma grande resplandescência, aigle, brinca por aquele mundo onde os deuses bem-aventurados vivem todos os seus dias em alegria.”

O processo de unificação trazido pela conversão ao evento coincide com a revolução religiosa do século VI a.C., assim como a era helenística coincide com uma revolução política.

Dionísio na cidade representa duas revoluções — a da tragédia na era dos tiranos e a da comédia na era do povo.

Na Ilíada e na Odisseia, dentro dos limites da inspiração de Homero, as divindades helênicas da forma e as pré-helênicas do evento se distribuem de maneira distinta.

O herói da Ilíada é um herói da forma e portanto da força — uma força que é bia por sua causa, mas também Kratos e maiestas.

O herói da Odisseia é um herói do evento e portanto da inteligência — mas da metis, não do noos.

A inteligência-metis do evento se manifesta nos deuses que pertencem à sua esfera — Cronos, Prometeu, Hefesto, Atena, Hermes.

Zeus da forma em toda sua majestade — Homero o descreve imóvel no cume do Ida enquanto a batalha se decide abaixo.

O gênio de Ésquilo observa Zeus em Prometeu e desata o nó — de um lado a força em toda sua majestade conferida pela forma; do outro a inteligência em toda sua variedade e multiplicidade, pertencente ao evento.

Aquiles não tem uso para a metis — age não em função do evento mas pela paixão, pela ira, a única paixão que pertence propriamente à forma.

A ira de Aquiles encontra resposta na paciência de Odisseu — polytlas, assim como polymetis.

Odisseu, herói da metis, é também por excelência eloquente — mas com uma eloquência voltada exclusivamente para o evento, ambígua e mutável como ele.

Espaço e tempo, luz e sombra — na unidade dialética do contínuo — são o ambiente em que Odisseu se move.

Aquiles e Odisseu são as duas almas da Grécia, e sua história é a história dos gregos — ambas sublimadas em Sócrates.

A noite da morte é também a noite em que a vida é gerada — de Hesíodo a Plotino, o pensamento grego encerra-se nessa tensão entre o uno além da forma e do evento, e a multiplicidade que dele emana.