Noûs

DECK, John N. Nature, contemplation, and the one: a study in the Philosophy of Plotinus. Burdett, NY: Larson Publ, 1991.

O Noûs, segunda hipóstase causada pelo Uno, é o um-múltiplo, o conhecedor-conhecido (V, 3, 5, 26-29), idêntico ao ser verdadeiro, e gera por sua vez a alma (V, 2, 1, 14-18) e, aparentemente com a alma como intermediária (V, 1, 3, 4-10), o cosmos visível (III, 2, 2, 1-2; V, 9, 9, 3-14).

O NOÛS — POIESIS

Ao dar algo de si em direção à matéria, o Noûs trabalhou, elaborou (ergazesthai) todas as coisas permanecendo em repouso (III, 2, 2, 15-16), e a ele é atribuída a potência de produção apenas num sentido que não compromete seu permanecer em si mesmo.

Os inteligíveis no Noûs não subsistem por causa do produzir, mas, se subsistem, os sensíveis decorrem de uma necessidade inerente aos inteligíveis — o Noûs produz necessariamente, sem buscar produzir nem raciocinar sobre a produção.

Na doutrina do Noûs, “fazer” significa um tipo de produzir em que a subsistência do produtor é onticamente anterior, o produtor não é de modo algum movido, o produzir é inteligente mas não segundo discursão ou deliberação, e é portanto necessário — qualidades que se aplicam, por um princípio de diminuição, ao produzir pela alma e pela natureza também.

O NOÛS — CONHECIMENTO E CONTEMPLAÇÃO

No Noûs, a contemplação é conhecimento intelectual, e o Noûs possui — ou antes, é — a verdade, porque nele há identidade de conhecedor, conhecer e coisa conhecida, de contemplador, contemplação e objeto de contemplação.

No Noûs, vida e conhecimento são coordenados: o Noûs, que é seu próprio conhecimento e sua própria theoria, é a primeira vida, vivendo por si mesmo (autozön).

A menção de theorema nessas passagens merece atenção: de sua etimologia, theorema pode significar objeto de contemplação ou obra de contemplação — e o paralelo estreito com V, 3, 5 indica que o theorema do Noûs deve ser tomado como “objeto de conhecimento”.

O princípio orientador de Plotino é a noção de continuidade e diferença expressa na Enéada V: as coisas que procedem do Uno são como que ao longo de uma linha vivente, cada uma mantendo seu lugar próprio segundo anterioridade e posterioridade, e cada parte é contínua com a linha inteira.

O Noûs representa, assim, um ideal de contemplação do qual os demais princípios ficam aquém e em direção ao qual se esforçam: uma contemplação entitativa unida ao contemplador e a um theorema autovivente — este é o mundo do ser verdadeiro.