DECK, John N. Nature, contemplation, and the one: a study in the Philosophy of Plotinus. Burdett, NY: Larson Publ, 1991.
A doutrina plotiniana da natureza como contemplação destina-se a ser um relato da produção, e a afirmação de que a contemplação é produtiva parece paradoxal — exige que se examine mais de perto o que é o fazer.
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Não são apenas os operários que constroem uma ponte: o corpo governamental que a comissiona, os contratantes e os engenheiros também a “constroem”, sem funcionar diretamente como agentes materiais.
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Um engenheiro “constrói” uma ponte e sua contribuição é seu conhecimento e seu pensamento; a ação da “mente” sobre a matéria não é misteriosa — é ocorrência cotidiana.
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Ainda assim, o pensamento não parece ser imediatamente produtivo: o engenheiro deve transmitir seu pensamento aos trabalhadores, que usam mãos e ferramentas; o pensamento por si só não basta.
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Porém, há sentido em que o pensamento e o conhecimento são mais a causa de uma ponte do que são as ações daqueles que a constroem fisicamente.
Plotino está perfeitamente ciente de que os homens fazem coisas, e não sugere em parte alguma de seus escritos que o fazer físico seja irreal — o pintor pinta o quadro, o escultor faz a estátua, os fabricantes de bonecos fazem bonecos, os arquitetos constroem casas.
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Quando
Plotino fala da produção ordinária, que chama de “praxis”, mostra conhecer sua natureza e vicissitudes — não supõe que seja uma fácil imposição da “mente” sobre a “matéria” nem que se realize pelo “mero pensamento”.
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No caso da praxis, o “conhecimento” do fazedor — na verdade sensação, opinião e raciocínio discursivo — é derivado, pelo aprendizado, do mundo sensível; o fazedor não tem certeza de como sua atividade produtiva resultará no mundo material, age sobre conhecimento imperfeito, deve planejar e replanejar.
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O homem da praxis deve buscar produzir, deve “resolver” produzir; deve agir de modo físico no universo físico, usando mãos, alavancas e ferramentas.
Para Plotino, há outro e melhor modo pelo qual o conhecimento — neste caso no sentido próprio da palavra — pode produzir resultados no mundo sensível: o produzir “automático” das coisas sensíveis pelas contemplações que são o Noûs e a natureza.
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O Noûs simplesmente contempla, e a alma e o universo físico são produzidos; a natureza simplesmente contempla, e as coisas da natureza vêm a ser.
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Noûs e natureza, como contempladores, produzem o mundo sensível sem aprendizado, sem busca, sem resolução, sem mãos, ferramentas ou instrumentos.
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O que faz uma árvore sensível ser uma árvore na medida em que é uma árvore? A árvore de ser verdadeiro — que é idêntica ao conhecimento de árvore; quando o mundo é visto pelo intelecto, vê-se que o conhecimento no sentido próprio da palavra é produtivo.
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Todos os resultados no mundo sensível advêm por causa dos seres verdadeiros; quando se aceita que o processo de ordenar e formar no mundo sensível é um reflexo do ser-conhecimento do mundo de ser verdadeiro, torna-se claro que o conhecimento, a contemplação tal como existe no Noûs, é um fazedor mais poderoso e mais real que o homem de praxis.
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A natureza, em seu próprio nível, não conhece o mundo sensível por um conhecimento derivado desse mundo, mas por um conhecimento anterior a ele; seus produtos “fracos”, menos reais que os seres verdadeiros no Noûs, refletem seu tipo fraco de conhecimento.
A produção pelo Noûs não corresponde às noções cristãs de criação: não é livre, e chamá-la de livre seria, para Plotino, degradá-la.
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O Noûs e a natureza não são produtores livres; teriam de decidir se produzem ou não algo que nada “significa” para eles, algo cujo conhecimento os degradaria — algo que não podem buscar ou escolher, pois se fossem capazes de busca ou escolha o produto não seria objeto adequado de sua busca e escolha.
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A produção livre seria, para
Plotino, assunto de praxis.
Há intimações na atividade humana de um conhecimento imediatamente produtivo: Plotino dá o exemplo de geômetras que desenham figuras enquanto contemplam — sem uma “resolução especial”, como resultado “espontâneo” de sua contemplação.
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Há casos em que resultados no mundo físico advêm por um transbordamento espontâneo do conhecimento; em certas obras de arte, os aspectos de aprendizado, busca, planejamento e correção podem estar atenuados.
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No caso do engenheiro, a “resolução especial” está presente, mas ele não produz fisicamente o produto; sua causalidade é por pensamento ou conhecimento — e quanto mais sua habilidade é aperfeiçoada, mais sua atividade se afasta do planejar e replanejar da praxis.
A contemplação de que Plotino fala não é especulativa com relação às coisas sensíveis: o Noûs e a natureza não olham para as coisas sensíveis, mas têm — ou antes, são — conhecimento de si mesmos.
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O Noûs e a natureza “contemplam” o mundo sensível não como objeto, mas num ato de produzir: por um conhecimento que não é uma visão das coisas sensíveis, mas uma visão do que está neles mesmos, por um conhecimento anterior às coisas sensíveis, produzem o universo sensível.
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Plotino usa comumente a palavra “poiesis”, ou seus cognatos, para designar o fazer feito pelo Noûs, pela alma e pela natureza no modo acima delineado.
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A mais alta instância de poiesis em seu mundo é a autopoiesis do Uno; a segunda mais alta, a produção do Noûs pelo Uno; a poiesis que aqui importa é a que, no nível do Noûs e abaixo dele,
Plotino identifica com a contemplação.
O contraste entre poiesis e praxis em Plotino é fundamentalmente distinto da oposição aristotélica entre fazer e agir (Ética a Nicômaco, VI, 4-5, 1140a1-b11).
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Para
Plotino, os resultados no mundo sensível podem advir de dois modos: por conhecimento, por contemplação prévia das realidades verdadeiras — o que é poiesis —; ou pela praxis, que procede por deliberação, esforço e instrumentos físicos.
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Na poiesis, as coisas sensíveis “caem” do produtor ou vêm a ele sem movimento do produtor em direção a elas; o Noûs não busca, não planeja, não pretende produzir resultados no mundo físico — o sensível vem a ser porque o Noûs é o que é.
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São os homens cujas mentes são fracas demais para contemplar que se voltam para a praxis; são as crianças mais obtusas que são “direcionadas a obras e artes”.
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Plotino menciona, porém, uma produção que é acompanhamento da contemplação no caso em que “alguém” “tem algo melhor, anterior à coisa produzida, para contemplar” (III, 8, 4, 39-43); e no tratado “Sobre a Beleza Inteligível”, o artista não imita a natureza, mas produz segundo as ideias — o conhecimento-ser no Noûs que a natureza também imita — e por isso pode fazer melhor do que a natureza (V, 8, 1, 32-40).
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A atividade do artista não se enquadra precisamente em nenhuma das categorias: parece ser uma obra que transborda da contemplação — o artista tem “algo melhor, anterior às coisas produzidas, para contemplar”, usa as mãos e instrumentos, provavelmente busca e resolve produzir, mas sua atividade reflete seu conhecimento em vez de ser esforços remotos na direção do conhecimento.
A analogia do espelho ilustra bem o modo como o Noûs produz o mundo sensível: assim como o homem que se reflete num espelho não expende energia para causar seu reflexo, os seres verdadeiros não se expende sobre as coisas sensíveis que são seus reflexos.
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Se não houvesse seres verdadeiros, não haveria coisas sensíveis — assim como sem a coisa refletida não há reflexo.
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O reflexo no espelho está mais completamente controlado pelo refletido e é mais propriamente inferior a ele do que uma estátua, por exemplo, em relação ao escultor; é mais propriamente dependente — mais causado.
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Plotino não supõe que reflexos e sombras são os produtos superiores dos fazedores que operam no mundo sensível: seu argumento é que esse tipo de produção se assemelha mais, do que o tipo anterior, à produção do universo sensível pelo Noûs — não para detrair da realidade do produto, mas para insistir na maior realidade do produtor.
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“Chamar [o Uno] de causa não é atribuir-lhe nada de acidental, mas a nós mesmos; pois temos algo dele, enquanto ele está em si mesmo.” (VI, 9, 3, 49-51.)
A poiesis plotiniana não coincide exatamente com a causalidade eficiente aristotélica, mas como um genuíno fazer, análogo ao fazer ordinário e não coincidente com a causalidade formal ou final, pode ser chamada de causalidade eficiente real.
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Para
Aristóteles, a atualidade da causalidade eficiente está no produto; o contemplador enquanto contemplador não pode ser causa eficiente; as Entidades Separadas são causas finais, objetos de desejo (Metafísica Lambda, 7, 1072a19-b13) —
Aristóteles quase nunca as chama de fazedores.
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Para
Plotino, ao contrário, as causas mais elevadas são chamadas consistentemente de fazedores e geradores; o Noûs causa fazendo imitações, não como objeto de desejo.
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O Noûs é mais do que, e portanto diferente das, causas envisagadas por
Aristóteles ao descrever a causa eficiente;
Plotino viu uma extensão do “fazer” a regiões onde
Aristóteles não supunha que existisse.
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Na medida em que se pode apreciar o argumento de que o Noûs é mais real que o mundo sensível, compreende-se que o Noûs é mais propriamente uma causa eficiente do que as causas eficientes no mundo sensível — é o fazedor ôntico, o poietes ontos.
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A natureza é um “melhor” agente eficiente do que um fazedor sensível, e “pior” que o Noûs: como o Noûs, é um fazedor contemplativo para o qual
Aristóteles não faz provisão, mas tem uma contemplação obscura, uma poiesis menos perfeita e um produto mais fraco.