Simplicius

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Simplício da Cilícia

A vida e a formação intelectual de Simplicius são conhecidas apenas por detalhes esparsos, como sua condição de discípulo de Amônio e de Damasco, além de sua participação na emigração filosófica para a Pérsia devido ao decreto de Justiniano.

Embora não possua valor original como pensador, adotando as opiniões de seu mestre, seus comentários são documentos preciosos para a história da filosofia e para a própria filosofia.

O objetivo filosófico geral da exegese de Simplicius

O objetivo filosófico mais geral da exegese de Simplicius é demonstrar que as contradições entre Aristóteles e Platão são apenas aparentes e não tocam o fundo das ideias, onde eles estão quase sempre de acordo.

Simplicius atribui grande importância à história da filosofia e, embora o fundo das coisas seja o objeto mais considerável para o filósofo, é indispensável conhecer as doutrinas daqueles que realizaram a perfeição dessa ciência.

A doutrina de Aristóteles sobre a natureza da alma segundo Simplicius

A mais alta e íntima matéria da ciência filosófica é a alma, e o tratado que a expõe mais completa e perfeitamente é o tratado de Aristóteles, cuja verdadeira doutrina foi exposta da maneira mais clara por Jâmblico, interpretada no sentido da psicologia neoplatônica.

A alma é posta como uma coisa incorpórea, indivisível, não submetida aos movimentos dos corpos, sendo um princípio como razão e forma, possuindo todas as potências vitais e intelectuais.

Por seu elemento racional, a alma é colocada no meio entre os seres dos dois extremos opostos, podendo ser comparada ora à alma sensível, ora à intelectual, e sua natureza intermediária permite que ela coexista com contraditórios.

Quanto à gênese das faculdades irracionais e suas funções, Simplicius reproduz a doutrina de Jâmblico, segundo a qual a alma, ao descer ao lugar mortal, gera de si as faculdades irracionais para que o animal mortal possa conhecer, nutrir-se, reproduzir-se e defender-se.

A teoria da sensação e da imaginação

A teoria da sensação é conforme à de Plotino: o órgão sensorial é movido pelo objeto sensível sem intermediário, sendo ativo e passivo, e é do interior de si mesma que a essência sensível produz a forma.

A imaginação, como diz Jâmblico, representa todas as operações racionais, mas toca mais de perto a sensibilidade, tornando-se semelhante às formas sensíveis.

A questão da razão (intelecto)

Simplicius distingue primeiramente a razão divina, imparticipável, separada das almas, que é a essência primeira e indivisível, a vida perfeita, o ato supremo, causa de tudo.

Existe uma outra razão, aquela que é participada por nossas almas, uma razão própria e individualizada, pela qual é definida toda alma que entra no definido e possui a razão em lugar da ideia mesma.

Aristóteles, ao tratar da parte da alma pela qual ela conhece e pensa, fala não da razão participada nem da imparticipável, mas simplesmente da essência que pensa em nós, da razão que é a causa formal da alma.

Teorias sobre o tempo e o espaço

Simplicius contesta que o tempo possa existir todo inteiro ao mesmo tempo, pois isso seria admitir que a vida sucessiva de um ser é simultânea, propriedade apenas do que é propriamente eterno.

Considerando o tempo em seus exemplares e razões ideais, ele pode ser todo inteiro ao mesmo tempo, mas é impossível considerá-lo assim em suas processões e imagens geradas, em sua existência real.

Conclui-se que é impossível considerar o tempo participado como existindo todo inteiro ao mesmo tempo, mas se concebe, por analogia com a eternidade, um tempo primeiro acima de todas as coisas que estão no tempo.

Quanto ao espaço, Simplicius adota quase completamente a definição de Damasco (limite e medida da situação), mas observa que Damasco negligenciou outras significações, como as que se referem aos incorpóreos.

Outras doutrinas filosóficas

Simplicius e sua escola refutam a tese cristã de Filopono sobre a criação do mundo no tempo, defendendo que o mundo é gerado, mas desde a eternidade.

Ele admite uma matéria primeira, último substrato de todas as formas, obtida suprimindo-se das coisas, pelo pensamento, todas as formas possíveis, inclusive as dos elementos.