Doxografia

CASSIN, Barbara. Jacques le Sophiste: Lacan, logos et psychanalyse. Paris: EPEL, 2012.

A palavra “doxografia” provoca em Lacan uma pausa reflexiva que desencadeia toda uma investigação etimológica e filosófica sobre os modos de transmissão do saber.

O “entusiasmo” dos gregos designa a transmissão oral como cadeia de presenças divinas, ilustrada pelo diálogo Ion de Platão.

A “doxa” é um termo grego genuinamente ambivalente, cujo campo semântico oscila entre aparência enganosa e manifestação gloriosa.

A relação entre “doxa” e “aletheia” estrutura toda a filosofia grega, desde Parmênides até Nietzsche.

Sentido

A doxografia é o canal pelo qual grande parte da filosofia grega chegou até o presente, especialmente os pré-socráticos e as escolas epicurista e estoica.

A doxografia é ao mesmo tempo indispensável e radicalmente não confiável, pois torna impossível separar fato e ficção por razões contingentes e estruturais.

Na doxografia, a questão da transmissão se reformula como questão hermenêutica: o sentido oscila incessantemente entre o insuficiente e o excessivo.

A doxografia é, em sua primeira e talvez melhor definição, uma bagunça — fragmentos, citações, partes de obras encerradas dentro de um todo estranho e maior.

Platão e Aristóteles são os pais fundadores da doxografia, pois apropriam as opiniões dos predecessores para fins próprios.

A doxografia é também um gênero autônomo, distinto das obras filosóficas que contêm elementos doxográficos, e seus praticantes se propõem coletar, organizar e transmitir informações sobre filosofia — e não filosofar em nome próprio.

Origem como montagem

A doxografia como tendência erudita se resume, de fato, a um autor — Hermann Diels — e a um livro — Doxographi Graeci, publicado em Berlim em 1879.

As duas colunas são reunidas por uma chave que remete ao nome “Aetii Placita” — Écio sendo uma hipótese reconstituída por Diels a partir das semelhanças entre Plutarco e Estobeu.