Aristóteles contra os sofistas

CASSIN, Barbara. Jacques le Sophiste: Lacan, logos et psychanalyse. Paris: EPEL, 2012.

Aristóteles contra os sofistas, Freud e Lacan

Os mundos lacaniano e sofístico são comparáveis precisamente porque sofistas e Lacan têm o mesmo adversário: o regime filosófico “normal” do discurso, definido pela equivalência entre “dizer” e “significar algo” — algo com um único e mesmo sentido para si e para os outros.

Freud e Lacan são, quando lidos à luz de Aristóteles e em termos da decisão do sentido, também sofistas — com a ressalva de que Lacan o é mais do que Freud.

A cena primordial da decisão do sentido se desenrola no livro Gama da Metafísica de Aristóteles, quando ele demonstra o princípio de não-contradição — “o mais estável de todos os princípios sem exceção”.

O enunciado inaugural do princípio de não-contradição é: “Impossível que o mesmo pertença e não pertença simultaneamente ao mesmo, e segundo o mesmo.”

"O Logos que está nos sons da voz e nas palavras"

Os adversários irredimíveis do princípio de não-contradição são aqueles que “falam por falar” (legein logou kharin) — e sua característica é não se ater ao sentido das palavras, mas apenas aos sons e às palavras em si.

Nas Refutações Sofísticas, Aristóteles mostra como nunca se deixar enganar pelos sofismas: é preciso expor homonímias e anfibologias distinguindo os sentidos de todas as palavras e recusando-se a considerá-los simultaneamente.

O homem não pervertido é definido por Aristóteles como estando em seu lugar no cosmos — nem planta nem deus, mas animal dotado de logos (zôion logon ekhon).

Ponderando o sensato e o absurdo: Freud/Lacan

O único lugar em que os sofistas Freud e Lacan podem se situar é do lado da planta — errado na medida em que são, como todos, aristotélicos; certo por causa de certas posições centrais que atraem a atenção para o que está em jogo.

A OSCILAÇÃO DE FREUD: ABSURDO COM SENTIDO OU SENTIDO NO ABSURDO?

A primeira ocorrência do termo sofística em Freud aparece em relação ao chiste da maionese de salmão — exemplo retomado várias vezes, com pesos e valores opostos atribuídos à diferença sentido/nonsense.