Questão Reflexiva

PLOTIN. Plotin. Traité 53: [Ennéades] I, 1. Gwenaëlle Aubry. Paris: les Éd. du Cerf, 2004.

A questão diretriz do Primeiro Alcibíades é a essência do homem, ao passo que Plotino, no Tratado 53, substitui “o que é o homem?” por “quem somos nós?”, introduzindo no interior dessa pergunta uma dimensão reflexiva que inaugura uma via radicalmente inexplorada.

Em Platão e em Aristóteles, a reflexividade só se dá como mediada, ao contrário do que ocorre em Plotino, pois o acesso a si mesmo exige sempre o desvio pela exterioridade ou pela alteridade.

O livro IX da Ética a Nicômaco apresenta uma segunda figura da consciência, associada ao problema da amizade, na qual a reflexividade continua mediada, agora não por um objeto, mas por outro sujeito.

Essa impossível imediatidade é característica da consciência humana, sendo a Pensamento do Pensamento sem mediação um privilégio reservado a Deus — ao Primeiro Motor —, que, ao contrário do homem, não precisa de amigos para se aperceber.

A figura plotiniana da reflexividade distingue-se tanto das figuras platônica e aristotélica quanto da figura cartesiana: o sujeito filosofante toma sua própria atividade de pensamento como objeto de investigação com acesso imediato a ela, mas essa apreensão não é nem última nem fundadora.

O hêmeis plotiniano é, por isso, nem o eu empírico encarnado nem o si essencial separado, mas o próprio movimento de passagem de um ao outro, o que o distingue tanto da abordagem de Platão no Alcibíades quanto da questão “o que é o homem?”.

O movimento do particular ao universal, que o diálogo platônico dá a ver, é tomado pelo Tratado 53 como objeto, descrito de seu interior, do ponto de vista da própria consciência que dele é sujeito.

O hêmeis plotiniano não é nem o eu nem o si, nem um “eu” nem um “vós”: designado pela primeira pessoa do plural, é intermediário entre o individual e o essencial, o pessoal e o impessoal, definindo a relação comum que cada indivíduo mantém com seu corpo próprio e com sua essência.

Como a reflexividade plotiniana é imediata, o diálogo torna-se, em certo sentido, supérfluo, pois a conversão à interioridade não requer mais a mediação de outro sujeito, embora o uso do “nós” convide o leitor a participar do movimento.

Apenas nas últimas linhas do tratado se toma plena consciência desse movimento, quando, no parágrafo 13, a questão reflexiva encontra resposta e a distância entre a consciência ingênua e a consciência filosófica é abolida.