Conhece-te a ti mesmo

PLOTIN. Plotin. Traité 53: [Ennéades] I, 1. Gwenaëlle Aubry. Paris: les Éd. du Cerf, 2004.

O Tratado 53 coloca como problema central a identificação do “tu mesmo” exigido pelo preceito délfico, cujo desvelamento não se obtém pela simples conversão à interioridade, já que esta revela apenas o eu sensível e empírico, sujeito às paixões.

A consciência deve converter-se de solicitude em atenção, voltando-se da preocupação com o corpo para a contemplação da alma separada, de modo que o eu possa reconhecer sua essência ao cessar de se identificar com o que não é.

No Primeiro Alcibíades, a exploração do preceito délfico percorre duas vias sucessivas, sendo apenas a segunda conclusiva: a primeira identifica o objeto do autoconhecimento ao eu individual e encarnado, enquanto a segunda, introduzida pelo paradigma óptico, conduz a uma superação decisiva da individualidade pessoal.

O “conhece-te a ti mesmo” recebe nova interpretação: seu objeto verdadeiro não é o eu individual encarnado (o “σαυτόν”), mas o si impessoal (o “αὑτό τὸ αὑτό”), de modo que a essência do eu reside precisamente naquilo que o transcende e anula sua singularidade.

Os comentadores do Alcibíades divergem quanto a essa interpretação, opondo Proclo e Damáscio em vias exclusivas sobre o objeto do autoconhecimento e o escopo do diálogo.

Plotino não se limita a comentar o Alcibíades, mas reinventa sua questão, formulando de modo radicalmente novo o problema do eu.