====== Genealogia ====== Conceito de furor posesivo possui raízes na mais remota Antiguidade, identificando estados nos quais humanos são possuídos por divindade e entram em transe. Estudos antropológicos demonstram que, em culturas primitivas, rituais visavam encarnação do espaço divino no corpo do oficiante, cuja vontade ficava à disposição do deus. Na Grécia arcaica, estados de furor ocorriam durante celebrações anuais em honra a Dionísio. Distinção entre dois tipos fundamentais de furor na cultura grega antiga. Furor Báquico. * Contexto ritual: mulheres das cidades eram atraídas para fora dos muros, para lugar arborizado ou no alto de montanha. * Procedimento: após libações e sortilégios, entravam em transe, "aguilhoadas pelo delírio de Dionísio". * Ação litúrgica: repetiam ritualmente morte do deus, sacrificando e esfolando animal, ou, em tempos remotos, ser humano. * Estado de consciência: bacantes não sabiam o que faziam durante cerimônia. * Retorno à normalidade: uma vez concluído ritual, voltavam ordenadamente às suas tarefas domésticas. Furor das Musas. * Origem homérica: constituía outro modo de contactar intimamente com deuses e indagar seus desígnios. * Agentes: poetas que não recorriam a regras poéticas, mas invocavam mensageiras de Apolo, as Musas. * Objetivo da invocação: solicitar iluminação e facilitação do trabalho criativo. * Modo de colaboração divina: se predispostas, Musas forneciam tema fora do comum, ofereciam através da imaginação paragem inédita para descrever ou auxiliavam na versificação. * Sinal externo do contato: alegria anímica desbordante transparecia no poeta. Diferenças fundamentais entre os dois furores. * Natureza da intervenção divina: furor báquico ocorria de maneira involuntária e inesperada; furor das Musas era invocado pelo poeta. * Papel do agente humano: sacerdotisa báquica servia apenas como instrumento aos desígnios do deus; poeta colaborava ativamente na redação do poema, mantendo sua vontade intacta. Aporte platônico ao conceito de furor poético consistiu em invenção de um novo furor, através de síntese. * Método platônico: substituiu características do furor das Musas pelas do furor báquico. * Alcance do novo furor: afetava apenas poetas e seus intérpretes, os rapsodos. * Significado teológico: era prova da presença temporária da divindade no homem e sinal de que conteúdo do poema era de origem divina. Paradoxo da visão platônica sobre trabalho artístico. * Crença pessoal de Platão: só acreditava em trabalho artístico lúcido e racionado, demonstrável e realizado mediante aplicação de regras conhecidas. * Tese sobre inspiração divina: insistia que divindade escolhia sempre pessoas ignorantes das regras da arte como porta-vozes. * Finalidade da escolha divina: impedir que poeta contribuísse com sua parcela na elaboração do poema, deixando manifesto que autor único era deus. * Estado dos inspirados: poetas inspirados, como adivinhos, não sabiam o que faziam. Estratégia retórica de Platão: elogio que desqualifica. * Aparente louvor: Platão louva poetas inspirados. * Desqualificação efetiva: ao fazê-lo, põe em evidência que são ignorantes, poetas "maus" tecnicamente e "maus" como seres humanos por "carecerem de sabedoria". * Gravidade da acusação: falta de sabedoria era acusação muito mais grave que incompetência artística. Consequência política e moral na cidade ideal. * Avaliação dos poetas inspirados: são considerados perniciosos. * Destino prescrito: devem ser expulsos da cidade. * Razão teológico-política: deuses do Olimpo homérico, descritos como seres que se peleiam, enganam e traem, não são modelos de comportamento moral. * Contexto histórico de Platão: em época turbulenta e decadente, após anos áureos de Péricles, exposição pública de comportamento imoral dos deuses por poetas era julgada com severidade. Condição trágica do poeta enfurecido na visão platônica. * Natureza de sua existência: não passavam de joguetes sem talento nem caráter. * Finalidade de sua possessão: eram manejados pelos deuses para dirimir suas diferenças. Trajetória do conceito de furor divino entre Platão e Ficino. Aporte platônico ao conceito de furor poético teve escassa repercussão antes do Renascimento. Desde transformação da cultura clássica pelo cristianismo e artes dos bárbaros, grandes poetas e tratadistas se consideravam ajudados pelas Musas, nunca possuídos em sentido estrito. * Exemplos: Virgílio, Cícero, Ovídio, Luciano, Plutarco, Nemesiano. * Formulação de Plutarco: deus "aporta origem da incitação", mas homens são "movidos de acordo com suas faculdades naturais". Atitude dos Padres da Igreja frente à inspiração artística. * Aceitação inicial: até Clemente de Alexandria, sob influência da cultura helenística, aceitavam que artes fossem dom do céu, considerando furor das Musas. * Restrição posterior: a partir de Sinesio de Cirene, aceitação da inspiração possessiva limitava-se aos poetas sagrados, autores de hinos. * Condenação da inspiração laica: furor em poetas laicos era rejeitado, atribuído ao demônio, simbolizado por corvo em oposição à pomba do Espírito Santo. * Método prescrito para poetas laicos: só podiam compor com "arte", aplicando regras e desdenhando acaso. Percurso do conceito durante Idade Média e sua reabilitação. * Visão predominante na Alta Idade Média: poetas laicos possessos eram vistos como endemoniados. * Mudança de paradigma com Isidoro de Sevilla: possuídos laicos passam a ser considerados doentes mentais. * Reabilitação no século XIV: com Dante e Boccaccio, furor das Musas é reabilitado como causa da criação poética, em detrimento da técnica. * Equiparação cultural: poetas laicos entusiasmados, incluindo trovadores, são equiparados a teólogos inspirados. * Consolidação no Renascimento: após Bruni, Ficino e Landino, furor divino impõe-se definitivamente como causa da criação poética. Furor divino nas artes plásticas: um conceito tardio e marginal. * Limite do conceito na Antiguidade: poesia era única "arte" no sentido moderno que podia vir do céu. * Prática das artes plásticas e arquitetura: seguiam cânones preestabelecidos, não dependendo de inspiração. * Introdução tardia do conceito: só a partir do século II a.C. começa a introduzir-se ideia de furor como origem da criação artística plástica. * Ambiguidade da modalidade: não é claro se tratava de furor das Musas ou furor divino possessivo. * Pouco apreço pelas obras "enfurecidas": eram desvalorizadas por aspecto descuidado e falta de técnica. * Status social do artista inspirado: ao contrário dos poetas, artistas plásticos inspirados não eram invejados, permanecendo classificados como artesãos manuais. * Desaparecimento do conceito: com decadência do Império Romano e introdução de esquematização bárbara, conceito de inspiração como fruto de feliz acaso desaparece. * Retorno do conceito: só reaparece, com reticências, em meados do século XVI, graças à influência dos textos de Ficino sobre furor poético.