====== Heráclito (Oriet) ====== ~~NOCACHE~~ //Biaise Oriet// === Introdução === A palavra de Heráclito atinge o sublime no sentido kantiano do termo, aquilo que, pelo simples fato de poder ser pensado, demonstra uma faculdade da alma que supera toda medida dos sentidos. * Kant define o belo como "o que agrada universalmente sem conceito" e o sublime como "o que é absolutamente grande" * Ao atribuir o sublime a Heráclito, ultrapassa-se o limite kantiano da experiência possível, o que se justifica pela transcendência do Logos heraclitiano Sócrates acolheu bem Heráclito, Platão o criticou duramente, e Aristóteles acabou por sufocar seu Logos — conforme Jean Bouchart d'Orval — antes que o filósofo jônico desaparececesse no obscuro até ser redescoberto no século XIX. * Sócrates, interrogado por Eurípides sobre o livro do Efésio: "O que compreendi é excelente. E o que não compreendi sem dúvida também o é, mas seria preciso quase um mergulhador délio para isso" * Nietzsche: "Os maiores eventos, como os maiores pensamentos — e os maiores pensamentos são os maiores eventos — são compreendidos mais tarde; as gerações contemporâneas não vivem esses eventos... A luz das estrelas mais distantes chega mais tarde aos homens; e antes de sua chegada, os homens negam que haja lá... estrelas. Quantos séculos são necessários para que um espírito seja compreendido?" === Heráclito de Éfeso === Já em vida Heráclito não deixava seus contemporâneos indiferentes, e o atrativo de seus escritos esotéricos alimentou o mito do gênio incompreendido, tornando difícil separar história e lenda em torno de sua figura. As principais informações biográficas sobre Heráclito provêm da compilação de Diógenes Laércio, do século III da era cristã, intitulada Vidas e sentenças de filósofos ilustres, que se encontra mais de sete séculos depois do biografado. * Os próprios fragmentos de Heráclito constituem uma fonte historiográfica de primeira mão, pois o filósofo critica os costumes e valores de sua época e menciona predecessores ilustres * Heráclito viveu em Éfeso, na margem oriental do Egeu, nasceu por volta de 550 e morreu por volta de 480 a.C. * Foi contemporâneo de Buda, Lao-Tsé, Confúcio e possivelmente de um Zaratustra já velho — Sócrates nasceu apenas em 470 a.C. A tradição retrata um personagem altivo e arisco que não reconhecia nenhum mestre, afirmava saber tudo e teria composto seu livro em estilo sibilino para protegê-lo do desprezo do vulgo. * Teria depositado sua obra sob a guarda dos deuses no templo de Ártemis * No fim da vida teria se recolhido ao recinto do grande templo, brincando com crianças e respondendo com enigmas ou invectivas a quem o interrogasse * Conta-se que, acometido de hidropisia, pediu aos médicos se podiam transformar chuvas em seca; diante da incapacidade deles, cobriu-se de lama e deitou-se ao sol — uns dizem que morreu assim, outros que foi devorado por cães Todas as circunstâncias relatadas sobre sua morte aparecem como encenações construídas a partir de uma interpretação trivial dos fragmentos, sendo ao mesmo tempo a revanche da multidão que ele havia duramente criticado e a confirmação da justeza de seu julgamento. * Heráclito opõe a morbidez da alma úmida à vitalidade da alma seca * Menciona a ignorância dos médicos, a relatividade de tudo — a lama, a palha, a água salgada — e os cães que latem diante do que desconhecem Heráclito teria escrito um livro, provavelmente um rolo de papiro, conforme sugere uma recomendação transmitida por Diógenes Laércio. * "Não desenroles apressadamente o volume de Heráclito o Efésio; pois o caminho é árduo: trevas, obscuridade, o negro. Mas se um guia te iniciar, então será o Sol" Quanto ao título da obra, Diógenes Laércio menciona Da natureza, mas o título Musas é considerado mais verossímil, pois não pode ser deduzido dos fragmentos e se harmoniza com o caráter orgulhoso do filósofo. * O título Da natureza era usado genericamente pelos Antigos para designar obras dos filósofos da época * Platão parece corroborar o título Musas ao atacar, no diálogo O Sofista, certas "Musas vociferantes da Jônia", visando os heraclitizantes === A Filosofia === Durante muito tempo identificou-se a civilização grega com o classicismo ateniense do século V, mas o interesse deslocou-se mais recentemente para o período arcaico — conforme a historiadora Claude Mossé em A Grécia arcaica, de Homero a Ésquilo. * A Grécia pré-clássica é essencialmente jônica: Homero, Hesíodo, Tales, Pitágoras, Anaximandro e Heráclito são todos jônios * Até a própria cidade como organização social original nasceu na Jônia da Ásia Menor O Artemísio de Éfeso, três vezes maior que o Partenon de Atenas, foi considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo na Antiguidade, ao lado das pirâmides de Gizé e dos jardins suspensos da Babilônia. Para o mundo jônico brilhante e próspero dos séculos VII e VI a.C., Atenas e a Grécia ocidental tinham pouca importância, e Heráclito não menciona uma única vez a cidade de Atena ou personalidades não jônicas nos fragmentos que chegaram até nós. * A pressão dos vizinhos orientais — lídios e persas — inverteu ao final do século VI os fluxos de influência grega em favor de Atenas * O que a Grécia dita clássica herda é uma civilização já em declínio Heidegger sustenta que o Ser, objeto próprio da filosofia, mal entrevisto foi esquecido, concedendo que "uma vez, no início do pensamento ocidental, o ser da linguagem apareceu, por um instante, na luz do Ser — quando Heráclito pensou o Logos". * A filosofia teria se desviado precocemente ao fixar-se no ente como objeto de uma lógica das aparências — o que hoje se chama fenomenologia * Após sua aurora, a filosofia não cessou de aprofundar o abismo que a afasta de seu fundamento Inspirado talvez pelas Musas, Heráclito engajou-se de imediato no caminho justo, favorecido pelo simbolismo que ainda tinha direito à cidade em sua época. * Ao contrário das Ideias de Platão e da abstração lógica de Aristóteles, o símbolo preserva a vida do conceito — como dirá Hegel * O simbolismo dos quatro elementos sugere uma concepção estrutural na qual as partes e o todo, o fato e a forma, se recolhem mutuamente Para Heráclito a lei universal é o duelo: "Conflito de todas as coisas é o pai, de todas o rei" — fragmento 53 —, e toda a filosofia pode ser desenvolvida a partir dessa premissa. * O conflito pode ser assimilado ao que hoje se chama existência — por vezes grafada ex-sistência para sublinhar a natureza problemática dessa situação * Sendo a existência universal, sua medida é o mesmo, forma analítica por excelência que produz um método permitindo avançar com passo seguro no caminho do conhecimento * Apoiando-se apenas no conflito e na forma que ele implica, Heráclito resolve metodicamente a equação metafísica, denominando Logos essa resolução === As Fontes === O livro de Heráclito desapareceu — no incêndio do Artemísio em 356 a.C. ou em outras circunstâncias — mas cópias haviam sido feitas, pois o Efésio é citado com frequência já na Antiguidade. * O primeiro doxógrafo foi Teofrasto (372–288 a.C.), sucessor de Aristóteles à frente do Liceu, cuja obra está ela mesma em grande parte perdida * Outros compiladores inspiraram-se em seu exemplo e transmitiram sentenças extraídas da fonte original ou dos trabalhos de predecessores Ao longo dos primeiros séculos da era cristã vários autores citaram aforismos de Heráclito, e é por essas vias indiretas que chegaram até nós a maior parte dos cerca de cento e quarenta fragmentos a ele atribuídos. * Uma pesquisa sistemática desses fragmentos foi empreendida nos séculos XIX e XX, resultando nas edições de Schleiermacher (1808), Bywater (1877) e Diels (1903) * A dificuldade dos fragmentos garantiu a fidelidade de sua transcrição — não se arrisca a modificar o que não se tem certeza de compreender * Os fragmentos transmitidos por pensadores ilustres como Platão e Aristóteles parecem menos confiáveis do que os citados por autores menos famosos, que constituem as fontes mais numerosas e significativas Com Heráclito, o problema reside menos na restituição de seu discurso do que na de seu pensamento, pois Heráclito pensa a partir do Outro. * "Se não esperar não encontrará o Inesperado, pois é indetectável e inacessível" — fragmento 18 * Quem alcança o Logos verifica a máxima délfica "conhece-te a ti mesmo" — e quem assim se conhece não está mais em busca de coisa alguma; simplesmente é * Heráclito: "Sou, tendo-me buscado a mim mesmo" — fragmento 101 O pensamento de Heráclito, ainda não tolhido pelas categorias lógicas familiares desde Aristóteles, é bastante desconcertante, e o próprio comentário esbarra no escolho da estranheza. * Para atenuar essa dificuldade sugere-se ler primeiro o capítulo Logos — que segue os fragmentos — antes de se escutar o filósofo obscuro O problema com Heráclito implica a linguagem, e não apenas a língua, pois na sua época a linguagem veiculava engramas simbólicos que incorporavam a condição humana, o que não ocorre mais com a lógica atual. * A tradução filosófica proposta escapa a esse problema por recorrer a uma hiperlógica — o método do mesmo substituindo o princípio de contradição que fundamenta a lógica * A concordância entre a crítica especulativa e a filosofia de Heráclito atesta que o Efésio é o fundador da filosofia e que a crítica especulativa é uma reinvenção da filosofia * A filosofia tem menos a ver com a história do que com a origem e o fim — no sentido em que o Vedanta é apresentado como o fim, o cumprimento, dos Vedas ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}