====== Vida e Morte ====== //Abel Jeannière// === O sono e a vigília como relação com o logos === Heráclito estuda a dupla relação entre vida e morte por intermédio de um estado muito próximo da morte, o sono. * Para a maioria dos homens, aqueles que têm por mestre Hesíodo, ele que não conhecia nem o dia nem a noite (e é tudo um), o sono é apenas uma etapa para a degradação suprema do fogo. * Citação do fragmento 26: O homem na noite acende para si mesmo uma luz, morto e vivo no entanto. Dormindo, ele toca no morto, os olhos apagados; desperto, toca no dorminhoco. * O homem que dorme está portanto muito próximo da morte, e o homem que vigília não está muito mais afastado, ele que está tão próximo do sono. * O fogo, veículo do logos, elemento divino, luz sensível e inteligível, penetra em nós pelas janelas abertas dos sentidos; essas aberturas se fecham durante o sono e permanece-se ligado ao mundo exterior apenas pelo laço frágil da respiração, um laço biológico, para sempre puramente sensível. * A luz inteligível está ausente, não se participa mais do logos comum. * Citação de Calcidio: Para aqueles que estão despertos, não há mais que um só mundo comum; cada um daqueles que adormecem retorna a seu mundo próprio. === Os homens como dormentes === Ora, se o mundo comum é o logos, luz divina onipresente, para a multidão dos homens tudo se passa no entanto como se cada um tivesse sua própria inteligência; os homens se comportam como dorminhocos. * Não é preciso agir e falar como dorminhocos. * É possível ao sábio proferir as palavras proféticas de um vidente, à escuta do logos que ele contempla, e se manter assim afastado da morte. * Citação do fragmento 1: Mas os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, como esquecem o que fazem dormindo. === A inversão da relação entre vida e morte === À escuta do logos, uma harmonia se torna perceptível onde se inverte a relação desses dois contraditórios, a vida e a morte: é a morte que se torna vida e não mais a vida que toca no sono e pende para a morte. * Citação do fragmento 21: Morte é o que vemos despertos, sono o que vemos dormindo. * Longe de fazer tocar no morto, o sono conduz aqueles que o logos ilumina interiormente às portas da vida. * Às almas que se elevaram a um estado de união inseparável com o logos, que estão no segredo do que é decretado pelo logos, mas a essas almas apenas, o logos revela quando repousam, as coisas futuras por meio dos sentidos. * O homem que uma lenta ascese preserva de romper, mesmo pelo sono, a intimidade adquirida do logos universal, em vez de esquecer o que contemplou dormindo, conserva ao despertar a lembrança dos segredos que lhe foram revelados e que fazem dele um clarividente, um iniciado, um adivinho. === A troca entre imortais e mortais no ciclo === Assim, a vida é morte e a morte é vida. Mas para todos aqueles que renunciam à sua própria inteligência pelo logos universal, é a segunda fórmula que se torna atualmente válida, nesse momento do grande ciclo da concentração e da desconcentração do Idêntico. * No ciclo, vida e morte se trocam. * Citação do fragmento 62: Imortais, mortais; mortais, imortais; nossa vida é sua morte, e nossa morte sua vida. * Heráclito quer dizer provavelmente que o logos da alma que se aumenta ele mesmo se liberta na morte das amarras do corpo, torna-se um imortal, um fogo mais puro, um deus, enquanto o logos que se une ao corpo faz do imortal um homem mortal na desconcentração desse fogo divino. * Citação do fragmento 8: O que está em tensão oposta se ajusta, do que difere nasce a mais bela harmonia. * Citação do fragmento 27: O que, quando mortos, espreita os homens, não é o que eles esperariam. * Citação do fragmento 63: Ele ressuscita e se torna guardião vigilante dos vivos e dos mortos. * Citação do fragmento 36: Para as almas, morrer é se transformar em água, para a água, morrer é se tornar terra. E da terra vem a água, e da água vem a alma. * Citação do fragmento 96: Cadáveres são mais dignos de serem jogados fora do que excrementos. * Citação do fragmento 77: Para a alma, é prazer ou morte tornar-se úmida. E é para ela uma alegria cair na umidade. Pois a alma seca é a mais sábia e a melhor.