===== Fedro ===== ~~NOCACHE~~ Como falar, por que escrever? É sobre isso que discutem Fedra, apaixonada pela arte da oratória, e Sócrates, que, pela única vez nos diálogos, concorda em sair de Atenas. Os dois homens estão deitados perto de uma árvore em flor, junto a um curso de água, a algumas centenas de metros da Acrópole; as cigarras cantam a plenos pulmões. Do ponto de vista literário, o Fedro é, junto com o Banquete, escrito na mesma época, um dos textos mais belos de Platão. O mito central descreve a ascensão de uma alma desprovida de corpo terreno, mas montada em uma carruagem alada, puxada por dois cavalos, que segue a comitiva dos deuses e dos demônios para contemplar a verdadeira realidade que se encontra fora deste mundo. Em seguida, ocorre a confusão das almas e sua queda no mundo sensível, onde se sucedem as reencarnações; cada alma deve então escolher entre a sedução pelo discurso retórico voltado para o prazer e a busca pelo conhecimento, que constitui a filosofia que aproxima o ser mortal dos deuses, cujo alimento é o conhecimento. Em o Fedro, toda a metafísica de Platão relativa à alma e ao inteligível é exposta na forma de um relato suntuoso. O diálogo se apresenta como uma crítica, tanto no conteúdo quanto na forma, ao discurso de Lisias utilizado na própria manhã como modelo de seu ensino retórico por Fedro, que o recita a Sócrates. A crítica feita por Sócrates diz respeito, em primeiro lugar, ao tema paradoxal tratado por Lisias: deve-se conceder suas graças àquele que não está apaixonado, pois o apaixonado é louco e representa um perigo para aquele que ama. A essa loucura, que é uma doença humana, Sócrates opõe uma loucura de origem divina, que explica a poesia, a adivinhação, o amor pelo belo e o amor pelo saber, ou seja, pela filosofia. Como todos os retóricos, Lisias limitou-se ao verossímil. Ele, portanto, não definiu o objeto de que fala; daí a imprecisão que marca seu discurso e a impressão de confusão que sua argumentação transmite. A arte de falar lhe escapa. Além disso, ele ignora o que é escrever, pois não sabe que o discurso escrito em um rolo de papiro não pode constituir, em relação ao discurso escrito na alma, senão uma imagem, um jogo, como ilustra a famosa comparação com os Jardins de Adônis. Ele também não sabe que a escrita, que facilita a rememoração, não pode de forma alguma substituir a verdadeira memória, que é a única capaz de dar conta do conhecimento e de sua transmissão por meio do ensino. No uso que se faz da escrita e da palavra, é, portanto, o destino da alma que está em jogo. Enquanto, no Gorgias, Platão denunciava a retórica como uma rotina que visava apenas à bajulação, parece, no final do Fedro, onde se encontra a primeira “história” da retórica grega, considerar a possibilidade de uma “retórica filosófica” que recorra tanto à dialética quanto à cosmologia. (Luc Brisson) //[[https://www.filosofia.org/cla/pla/azc02261.htm|TEXTO ONLINE]]// * O Fedro é obra da juventude de Platão segundo uma tradição que dispensa discussão, revelando todo o vigor impetuoso de um pensamento que precisa extravasar, e nele se mesclam tradições orientais, ironia socrática, intuição pitagórica, especulações de Anaxágoras e protestas enérgicas contra o ensino dos sofistas e retores que negavam a verdade imortal e despojavam o homem da ciência do absoluto. * Platão veste com cores mágicas todas as ideias que afetam sua jovem inteligência, as teorias de seus mestres e as concepções do cérebro prodigioso que produzirá um dia a República e As Leis. * Raciocínio e fantasia aparecem reconciliados nessa obra, onde se encontram em germe todos os princípios da filosofia platônica. * Essa embriaguez do jovem sábio, esse arrebatamento diante da verdade entrevista pela primeira vez, é chamada pelo próprio autor do Fedro de um delírio enviado pelos deuses: não as divindades de Atenas, mas Pã, a velha divindade pelástica, as ninfas dos riachos e das montanhas e o próprio espírito da natureza revelando ao alma atenta os segredos do universo. * É impossível reduzir a uma unidade uma obra tão complexa, pois o próprio do gênio de Platão é abordar e resolver ao mesmo tempo as questões mais diversas, ao passo que o de Aristóteles é distinguir todas as partes da ciência humana que Platão havia confundido. * Um tratado de Aristóteles apresenta ordem rigorosa porque o objeto, por vasto que seja, é sempre único. * Um diálogo de Platão abarca em sua multiplicidade a psicologia e a ontologia, a ciência do belo e a ciência do bem. * O Fedro divide-se em duas partes: na primeira, Sócrates inicia o jovem Fedro nos mistérios da beleza eterna, ensinando-o a desprezar os prazeres grosseiros, a alimentar a inteligência com o verdadeiro, o belo e o bem, e mostrando que o amor puro das inteligências desperta o recuerdo da essência mesma da beleza. * Sócrates convida Fedro a contemplar as ciências cuja visão enche as almas de beatitude celestial quando, aladas e puras de toda mácula terrestre, se lançam castamente ao céu em busca de Júpiter e dos demais deuses. * O amor dos sentidos rebaixa ao nível das bestas; a pura união das inteligências, o amor verdadeiramente filosófico, purifica e abrevia o tempo a passar nos lugares de prova. * Na segunda parte, Platão estabelece os verdadeiros princípios da arte da palavra, opondo a dialética à retórica siciliana de Tísias e Górgia, que ensinava a corromper, enganar a multidão, dar à injustiça as aparências do direito e preferir o provável ao verdadeiro. * A dialética, por meio da definição e da divisão, penetra na natureza das coisas e propõe como objeto não a opinião com que se contenta o vulgo, mas a ciência absoluta em que repousa a alma do filósofo. * Existe um laço entre as duas partes: o discurso de Lísias contra o amor e os dois discursos de Sócrates são como a matéria do exame reflexivo sobre a falsa e a verdadeira retórica que preenche toda a segunda parte. * Os tipos dos diálogos de Platão são tão vivos quanto os das tragédias de Sófocles e Eurípides, e o caráter de Fedro é dos mais verdadeiros: apaixonado pelos discursos, amante de todos os belos conhecimentos, pronto a se ofender das zombarias de Sócrates contra seu amigo Lísias, mas sempre respeitoso diante da sabedoria do venerado mestre. * A curiosidade inocente com que Fedro pergunta a Sócrates se acredita no rapto da ninfa Oritia, e a franqueza generosa com que reconhece a vaidade de sua curiosidade e confessa sua ignorância, suas preocupações e seus erros, são da mais pura encantadora naturalidade. * A conversa, em que Sócrates passa alternadamente das sutilezas da dialética aos transportes da ode, prolonga-se durante todo um dia de verão: os dois amigos repousam recostados na espessura da erva, à sombra de um plátano, com os pés submersos nas águas do Ilisso, sob o puro céu da Ática, entretidos pelo canto das cigarras, amantes das musas, enquanto as ninfas, filhas de Aqueloo, prestam atenção, encantadas com as palavras daquele que possui a um tempo o amor da ciência e a ciência do amor. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}