====== Período Clássico ====== ~~NOCACHE~~ //SNELL, Bruno. Discovery of the Mind. New York: Dover Publications, 2012.// ==== O pensamento europeu começa com os gregos ==== * O pensamento europeu é apresentado como tendo início na Grécia não apenas em sentido cronológico, mas como instauração de um modo específico e normativo de pensar. * A forma grega de pensamento constitui o horizonte no qual a ciência e a filosofia ocidentais ainda operam. * Esse pensamento é utilizado como via de acesso à verdade e aos princípios considerados constantes e incondicionados. * A autoridade desse modo de pensar não é posta em questão no interior da tradição europeia, mas assumida como evidente. * Essa autoridade, contudo, encobre o caráter histórico do pensamento grego. * O pensamento grego não é um dado natural nem uma estrutura atemporal do espírito. * Ele resulta de um processo histórico singular, mais radical do que sugere a noção comum de evolução. * A dificuldade fundamental consiste em pensar simultaneamente sua normatividade e sua gênese. * A compreensão das origens do pensamento grego é frequentemente obstruída por projeções anacrônicas. * Há uma tendência espontânea a medir os produtos da Grécia arcaica pelos padrões conceituais modernos. * Conceitos como espírito, intelecto ou subjetividade são retroprojetados de modo ingênuo. * Essa projeção impede o acesso à alteridade efetiva da experiência grega originária. * A Ilíada e a Odisseia ocupam uma posição fundadora nesse processo. * Elas se encontram na origem da tradição intelectual europeia. * Exercem um forte apelo afetivo que produz uma falsa familiaridade. * Esse efeito emocional leva a esquecer a distância radical que separa a experiência homérica da experiência moderna. * A emergência do pensamento entre os gregos deve ser compreendida como uma revolução. * Não se trata da simples aplicação de faculdades mentais pré-existentes a novos objetos. * Ciências e filosofia não são apenas novos campos temáticos. * O que se instaura é uma nova forma de relação do homem consigo mesmo. * Essa revolução consiste na descoberta do intelecto humano. * O homem passa a compreender-se como ser dotado de intelecto. * Essa autocompreensão não é imediata nem transparente. * Ela se desenrola como um drama histórico de reconhecimento de si. * A história desse reconhecimento manifesta-se nas criações poéticas e filosóficas. * A épica, a lírica e o drama trágico participam desse processo. * A filosofia não surge isoladamente, mas como momento ulterior. * O pensamento racional emerge de formas poéticas que o precedem. * A descoberta do intelecto não pode ser assimilada a uma descoberta empírica. * Um continente existe independentemente de ser descoberto. * O pensamento europeu, ao contrário, só existe a partir de sua descoberta. * O intelecto não existe como tal antes de ser reconhecido. * O intelecto tampouco pode ser descrito como uma invenção. * Invenções são arbitrárias e orientadas por fins definidos. * O intelecto não responde a um objetivo técnico. * Sua emergência não é produto de um projeto deliberado. * A noção de descoberta introduz um paradoxo conceitual. * Afirma-se que o intelecto foi descoberto. * Mas afirma-se também que ele só passa a existir com essa descoberta. * O intelecto é simultaneamente algo que é afetado e algo que é produzido. * Esse paradoxo impõe o recurso inevitável à metáfora. * Não é possível falar do intelecto em termos estritamente literais. * Toda linguagem sobre o espírito é metafórica. * A metáfora não é defeito, mas condição de possibilidade do discurso. * Expressões como compreender-se ou reconhecer-se não têm aqui sentido objetivo. * Não se trata de conhecer um objeto externo. * O eu não preexiste ao ato de compreensão. * Ele surge no próprio processo de autocompreensão. * A alternativa conceitual da revelação também apresenta dificuldades. * Diferentemente da revelação divina, o intelecto não existe antes de se revelar. * Ele vem ao mundo no próprio ato de manifestação. * Sua existência é inseparável da história humana. * O intelecto só existe enquanto se manifesta em indivíduos concretos. * Ele não se revela de uma só vez. * Sua manifestação é fragmentária e progressiva. * Não há intelecto fora da vida humana histórica. * Os termos descoberta e revelação não comprometem uma tese metafísica. * Não se postula um intelecto puro anterior à história. * Ambos os termos designam o mesmo processo sob perspectivas distintas. * A distinção entre eles é funcional e histórica. * A preferência pelo termo revelação responde a razões específicas. * O decisivo não é a apreensão clara de um dado. * O decisivo é a possibilidade de comunicação. * Só aquilo que pode tornar-se comum pertence à história. * A história do intelecto é marcada por esquecimentos e redescobertas. * Descobertas podem ser perdidas. * Sua preservação exige esforço contínuo. * A tradição clássica facilita a recuperação do que foi esquecido. * A aquisição do intelecto envolve sofrimento e trabalho. * O saber não se obtém sem custo. * A máxima sabedoria por meio do sofrimento vale para a humanidade. * A supressão do sofrimento implicaria a perda de novas formas de saber. * Surge então uma segunda dificuldade de ordem histórico-conceitual. * Afirma-se que o intelecto não existia antes de Homero. * Contudo, algo ocupava o lugar posteriormente atribuído a ele. * O conceito moderno interpreta retrospectivamente uma realidade distinta. * Essa dificuldade revela os limites da linguagem. * Cada língua fixa antecipadamente suas categorias. * Traduzir é sempre interpretar. * O pensamento estrangeiro resiste à assimilação plena. * A interpretação do passado exige um método negativo. * Parte-se de aproximações conceituais. * Subtraem-se os elementos inadequados. * Delimitam-se assim os contornos do pensamento antigo. * Apesar dessas dificuldades, o pensamento grego permanece inteligível. * Ele constitui o passado intelectual europeu. * Não é absolutamente estranho. * Pode ser reconhecido como origem de formas ainda ativas. * A ausência de conceitos como intelecto e alma em Homero é significativa. * Não se trata de incapacidade psicológica. * Trata-se de ausência de tematização conceitual. * As experiências não são atribuídas a faculdades internas. * A noção de caráter individual ainda não está constituída. * Os heróis homéricos são fortemente delineados. * Mas não são apresentados como sujeitos de vontade ou intelecto. * A interioridade não é ainda tematizada como tal. * A existência do intelecto e da alma depende da consciência de si. * Sem autocompreensão, tais noções não existem. * A precisão terminológica é indispensável. * A confusão conceitual compromete a análise. * O elemento especificamente europeu do pensamento grego não exige oposição ao Oriente. * Influências orientais são reconhecidas em outros domínios. * No campo da autocompreensão intelectual, a Grécia é autônoma. * Homero oferece material suficiente para conclusões fundamentadas. * As lacunas homéricas possuem valor interpretativo. * O que não aparece é tão significativo quanto o que aparece. * Lacunas reiteradas indicam ausência conceitual. * Fenômenos positivos estranhos completam o quadro. * O desenvolvimento do mundo grego permite um acompanhamento progressivo. * As sementes do intelecto e da alma tornam-se gradualmente visíveis. * O processo pode ser seguido passo a passo. * Ele culmina na constituição da filosofia, da ciência, da ética e da religião europeias. * A perspectiva adotada rejeita o ideal classicista. * A cultura grega não é apresentada como perfeição atemporal. * Ela é compreendida em seu contexto histórico. * Sua grandeza reside em seu caráter fundador. * A abordagem histórica não conduz ao relativismo. * Avaliações qualitativas permanecem possíveis. * A história não é fluxo infinito. * As formas do espírito humano são limitadas e as verdadeiras inovações são raras. {{tag>Snell}} ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}